Quando nós da Woo! Magazine escolhemos um livro para uma resenha, sabemos que ele tem que ser empolgante o suficiente para que nossos leitores sintam – quase – a mesma sensação que nós sentimos ao lê-lo. E que se ele veio parar no Bookland, é porque realmente precisávamos compartilhar isso com todos vocês. Acreditamos que ler é um ato único (sim!), mas que deve ser passado adiante como uma corrente do bem. E o que é bom precisa ser mostrado.

Foi o que aconteceu quando fechamos a última página de “Não feche seus olhos esta noite”, de Maira Parula. De repente nos vimos envoltos em uma trama de muitas vozes, jeitos e pessoas. Não é um livro que mereça permanecer fechado em uma estante ou prateleira empoeirada. Ele precisa ser gritado ao mundo. E nós estamos (aqui) gritando.

A começar pela não linearidade das histórias. Porque são muitas. Mas não sabemos se o classificaríamos como um livro de contos ou poesias. Achamos, na verdade, que ele é inclassificável; como muito bem foi dito por José Castelo: “Seu livro é ‘trans’ – o que combina com nosso efêmero, de transgênicos, de transnacionais, de transexuais. Um livro em trânsito, a meio caminho entre o susto e a coragem. ”

Quando terminamos de ler, o primeiro sentimento foi de: “Ok! O que foi isso?”. E precisamos de cinco minutos de silêncio para tentar entender o turbilhão pelo qual estávamos passando. Posto isso, nada melhor do que ir adiante, nada melhor do que escrever, escrever, escrever… até desafogar.

É isso que Maira faz ao dar voz a personagens sem nomes. Ela desafoga e ao mesmo tempo nos afoga em um misto de sentimentos. São inúmeros – e aqui chamaremos de relatos –, que dissertam sobre loucura, insensatez, incertezas, amores perdidos – ou achados –, despedidas, tempo…

A maioria dos personagens é feminina, mas há momentos em que o gênero de quem escreve fica no ar. O que faz com que o leitor seja compelido a usar sua imaginação ao tentar saber quem está falando. Não que isso seja um problema. Não… não o é. Mas como estamos muito (mal) acostumados a ter personagens sempre muito certinhos, seja eles de que gênero forem; quando pegamos uma obra, cujo objetivo é te fazer pensar fora da caixinha, às vezes damos um nó no pensamento.

É um livro para quem deseja ousar. E que talvez causa certo estranhamento em determinados momentos. Passaria fácil por aqueles “Minutos de Sabedoria”, onde você abre uma página a esmo e lê o que o Universo tem para lhe contar. Só que nesse caso, o Universo em questão, chega com uma acidez altiva daqueles que sabem o que querem dizer, mas preferem que você chegue a conclusão com suas próprias pernas.

Aliás, se precisássemos defini-lo com uma só palavra, “ácido” seria a da vez. Frases como “Antes de adormecer puxo o gatilho” (p.163) ou, “Minha alma deu para me perseguir” (p.13) são o que o leitor irá encontrar, por exemplo. E ele precisa, desde um primeiro momento, estar disposto a dar uma chance a esse tipo de leitura.

Sem contar, que estruturalmente, há algo de Saramago nele. Ora a pontuação aparece bem estruturada, ora vírgulas fazem a vez de travessões ou sequer existem. Frases não se iniciam com letra maiúscula. Histórias, muito menos. À propósito, algumas são tão curtas que chegam a ter apenas três linhas. E a divisão entre elas fica clara a cada página totalmente em branco que passamos.

Acontece também, vez ou outra, um texto começar como poesia e terminar como prosa. O que reafirma o comentário de Castelo, quando diz que essa é uma obra trans. E talvez, o único personagem fixo de toda narrativa seja um editor, que recebe as mensagens de um escritor sem nome. [Mas isso, claro, fica no ar. E terminamos a leitura sem saber.].

Algumas passagens mais “revoltadas” também nos são passadas quando o tema entra no quesito Literatura. Parece que toda vez que um personagem começa a falar de tal assunto, o clima acaba fechando – não que estivesse o tempo todo aberto – mas há certa amargura, como se só histórias tristes fizessem bons escritores.

Em suma; “Não feche seus olhos esta noite” não é o livro dessa quarta. Não feche seus olhos esta noite é o apelo. E nós, que como sempre gostamos de compartilhar todos os sentimentos possíveis com vocês, passamos então a bola dos cinco reflexivos minutos de silêncio.

“Há certas coisas que não adianta querer explicar quando as noites são longas demais.” (p.30)