A resenha do dia foge da zona de conforto do Literando de segunda-feira. Nós, que aqui (quase) sempre escrevemos sobre os latinos e àqueles cujo sangue é mais caliente, resolvemos dar uma pausa no calorzinho e fomos de mala e cuia para a Rússia.

É preciso falar (também) dos clássicos, pois. Devemos dar a devida atenção que eles precisam e tirar esses estigmas de “chatos”, que tanto trazem consigo.

Nosso autor de hoje é simplesmente um ícone. Com livros que abordam questões existenciais, como temas voltados para loucura, dor, suicídio, e otras cositas más; trazemos, e temos a honra e o prazer de apresentar Fiodor Dostoiévsky.

“Crime e Castigo” e “Irmãos Karamázov”, fazem parte da sua extensa bibliografia, e são consideradas obras primas da literatura universal. Mas nossa resenha de agora vem “baseada em fatos”. Afinal, o livro foi inspirado numa jovem que incendiou a própria casa por sofrer maus tratos familiares. Agora imagina se a moda pega?! Haveriam pessoas sentindo-se “Neros” prestes a incendiar Roma.

“O Idiota” é datado de 1868 e foi traduzido para diversos idiomas. Aqui no Brasil, quem deu voz à obra foi Paulo Bezerra. Um dos maiores tradutores de Dostoiévsky no país (e que eu tive o prazer inenarrável de ser aluna). Lançada pela editora 34, a edição conta com 683 páginas. E sim! Você vai precisar de tempo, mas não custa nada tentar. O que podemos ressaltar no momento, é que tal texto exige um esforço e uma disciplina, independentemente de ser lido com ou sem prazos.

Nosso personagem principal é o príncipe Michkinc – o idiota – que sofre com ataques epiléticos e que mesmo assim tem um olhar totalmente lúcido sobre a vida. O que o difere – muito – dos outros personagens. Que, a meu ver, juntos, seriam a personificação da esquizofrenia, da loucura coletiva, ou da própria histeria. O personagem que dá título à obra é o mais são de todos, ainda que ao longo do enredo, isso seja nos passado ao contrário.

Ressalta-se também um recorrente em algumas escritas de Dostoiévski, como por exemplo, dizer notas sobre como a Rússia da época era retratada. No entanto, a narrativa nos passa sem um peso ou angústia, e ainda que saibamos da existência de um pensamento político por detrás dos escritos, nos é facilitada leitura. E ainda resvalando nessa escrita-sobre-a-história-russa, o que pude perceber de verdade, é que se toma como “idiota” toda uma sociedade; e ao leitor, cabe identificar-se ou não nas falas que ali estão.

Além do mais, com essa quantidade de páginas e com o tempo escasso; por um momento achamos que não fôssemos conseguir terminar de lê-lo. (E para dizer a verdade, acho que no fundo não o li com o devido interesse, e por isso precisava falar dele aqui. Para dar uma chance a vocês e outra a mim mesma.)

Estamos o tempo todo questionando o lugar das obras literárias no mundo contemporâneo. O valor que os clássicos têm dentro de uma sociedade que “vive com pressa de viver”. Onde as redes sociais tomaram a frente desse plano de fuga, na qual antigamente era vivido através das páginas de um livro.

O idiota, em especial, nos questiona isso. “Será que eu consigo terminar?” Seja pelo tamanho, pelo enredo, ou quiçá o tempo. O fato é que ler os russos não é fácil, mas também não é impossível e talvez seja um desafio que você deveria se propor.

“(…) fique certo de que não me acharás entre os contentes. ” (p.363)