Há dez dias estreou a série dirigida por Maurício Farias e escrita por Bruno Mazzeo, “Filhos da Pátria”, que retrata um Brasil bem caricato, crescido em meio à corrupção e assim chegando à idade “adulta”, tendo isto como algo normal e natural, mesclando a realidade atual com o que foi a formação de nossa pátria, e claro, aqui é impossível não relembrar de um livro sensacional que fala exatamente sobre a formação de nosso país e dá “explicações” para o nosso “jeitinho brasileiro”, e cá entre nós, vale muito mais a pena ler o livro do que assistir à série, não que esta não seja boa, mas é que estamos falando nada mais, nada menos do que de “Raízes do Brasil”, do tão ilustre Sérgio Buarque de Holanda.

Sérgio Buarque de Holanda foi muito mais que escritor, foi historiador e um grande crítico literário, trazendo grande contribuição para a nossa cultura, sendo “Raízes do Brasil” seu primeiro livro publicado em 1936, dando origem a tantos outros, e mesmo assim, sem deixar de ser tão importante e necessário quanto, tendo dezenas de edições e traduções para as línguas japonesa, italiana e espanhola. Consegue ser sempre mais atual, já que explica a fundo “atitudes e manias” de nossa cultura que parecem inexplicáveis para quem não conhece a verdadeira “Raiz do Brasil”.

Para muitos, um livro que visa traçar a decomposição de nosso país, mas podemos definir como um mapa de como foi definida a composição de nossa pátria, mas esta em sua essência, com um traçado de sua personalidade, desde sua origem antes do descobrimento até os dias mais recentes, com tudo o que passou e as marcas que foram ficando, chega a ser quase que como um livro de receitas para um país tão multicultural e miscigenado como o nosso.

Já no primeiro capítulo, o autor consegue traçar uma breve personalidade marcante do Brasil, provinda da colonização da América por dois países diferentes, em que o espírito anarquista e ao mesmo tempo hierárquico definiram nosso povo como “sem coesão”, e traz uma importante reflexão, propícia para os dias atuais, uma vez que ele diz: “A falta de coesão não é um fenômeno moderno (…) e é por isso que erram profundamente aqueles que imaginam na volta à tradição a única defesa possível contra a nossa desordem.”

Em seguida, vamos ter um traçado do brasileiro enquanto trabalhador, e ele nos apresenta dois tipos diferentes, o que ele chama de “trabalhador” e o “aventureiro”, mas que mesmo assim, estas personalidades acabam se mesclando entre si, não havendo, como tudo em nosso país, e o que é até bom, uma pureza radical, a mistura e homogeneidade está sempre presente.

Mas, um dos capítulos que mais nos chamam a atenção é o quinto, no qual ele define o que é o “homem cordial”, característica típica e marcante do povo brasileiro, e esta cordialidade, não no sentido literal, e sim, definida como o homem que não fica somente em sua individualidade, quase não suportando-a, tendo em si a necessidade de “viver nos outros”, o que o torna superficial em seu trato, preocupando-se em ser cordial, mas como uma artimanha, uma arma de conquista, inclusive, o autor cita a “mania” do uso do sufixo “inho” que está impregnada no brasileiro, na intenção de demonstrar proximidade e afeto.

Ser este “homem cordial” como nós é ter o “jeitinho brasileiro” encrustado em nosso agir, algo que quase não percebemos. E ter consciência disto, perceber de onde e como surgiu nosso modo de pensar, agir e existir é o que pode nos garantir atitudes de mudanças, principalmente em nosso meio político, tão criticado e ao mesmo tempo repetido em nossas ações, como exemplo claro, a corrupção.

Como o autor Antônio Cândido define 50 anos após a publicação deste rico livro: “(…) uma das forças de Raízes do Brasil foi ter mostrado como o estudo do passado (…) pode ser uma arma para abrir caminhos aos grandes movimentos democráticos integrais (…) os que contam com a iniciativa do povo trabalhador e não o confinam ao papel de massa de manobra, como é uso.”

Leitura indispensável para o momento atual e sempre, afinal, voltar às raízes é fundamental para atingirmos a maturidade suficiente que pode no levar à mudanças.

E, boa leitura!