A nossa resenha de hoje é de um livro muito especial e um autor muito importante para a nossa cultura. Trata-se do “Romanceiro” de João Bosco Maciel, ou mais conhecido como Bosco Maciel, este autor paraibano, que veio sonhar mais alto na cidade grande, instalando-se em Guarulhos/SP aos 20 anos e nos enriquecendo com a cultura nordestina, sua diversidade, modos e costumes até então desconhecidos de muitos brasileiros.

Em sua trajetória já escreveu poesias de cordel em jornais literários, peças teatrais, redigiu, apresentou e participou de diversos projetos de propagação da cultura nordestina como Vida e Obra de Grandes Poetas Nordestinos” e Os Poetas da Cidade”, além de realizar saraus e oficinas por todo o canto, espalhando sua sabedoria e conhecimento da parte mais querida do nosso país: o Nordeste. E, este seu livro, lançado em 2005, é uma compilação de prosa e poesia que encanta nossos olhos com a beleza do sertão.

Em busca de traçar um “retrato” nordestino e não só mostrar, mas adentrar o leitor no cotidiano sertanejo, “Romanceiro” é dividido em sete capítulos, onde procurou-se compilar algumas de suas belas poesias, divisão esta que, ficou muito bem organizada, de forma a prender o leitor e levá-lo a saborear cada pedacinho em uma prazerosa degustação.

Já logo em seu primeiro capítulo, “Anedotário”, encontramos sete poesias (e curiosamente, este número se repete também nos outros seis capítulos), que como diz o próprio autor, busca mostrar o seu lado divertido e dar um ideia da vida divertida de um menino sertanejo. Aqui o que desperta nossa atenção é para o linguajar utilizado, todo próprio do nordestino, e o que muitos considerariam estar errado é só mais uma riqueza de nossa Língua apresentada em forma de poesia, como destacamos duas delas: “Têje preso” e “Linguajar”.

Na primeira o autor propõe incluir mais dois verbos em nossa Língua, muito utilizado no sertão: tejar e decar e com um exemplo muito engraçado nos mostra sua utilização:

“(…) Diz um deles, Tejê preso!
e diz o outro num Têjo
mas então me decá faca!
resiste, também num déco”

Já o segundo destaque, mostra quase um trava língua, uma brincadeira muito comum entre as crianças e cheia de graça:

“(…) Tatá tá não
mais Tonha, mãe de Tatá tá
(…)
Tia Tonha, mãe de Tatá, tano
é mermo que Tatá tá”

Mas seguindo adiante, e mais sério, encontramos uma bela homenagem às mulheres, onde é exposto em versos simples a beleza, encanto, resistência e também dureza deste ser, mulher mãe, trabalhadora, batalhadora, difícil reconhecer qual melhor, mas não há como negar que “Cera e Aço” retrata fielmente o ser mulher: coração de cera e ao mesmo tempo aço.

O capítulo “Poética” fala sobre a espontaneidade do autor em escrever e transpor para o papel seus sentimentos, já que para nascer, toda “poesia dói”, mas esta “jamais aborta, ou vem à luz, ou não vem” e as que vieram, doloridas, são apresentadas aqui, nos dando um breve retrato do autor.

A seguir outra homenagem, esta agora a um amigo seu, também poeta, e é tão belo o que encontramos escrito sobre este seu parceiro que nos dá vontade de o conhecer, mas isto só é possível descobrir no último poema o homenageia.

Já no quinto capítulo, “Ceguin” vamos nos deparar com uma sequência que se completa e conta a história dos cegos cantadores que vivem pelo nordeste, não a mendigar, mas a enriquecer o povo com sua sabedoria e cultura através do canto e a trova, e assim garantindo seu sustendo com o pouco que lhes é oferecido. Nos é mostrado um olhar diferente sobre o artista de rua, não um olhar de dó e complacência, mas sim de admiração e encanto.

Os dois últimos capítulos fecham a obra com chave de ouro, já que o penúltimo apresenta sete contos engraçadíssimos e representantes da cultura nordestina e o último, poemas definidos pelo autor como que, com a vocação de serem “cantados como cantigas” por terem uma métrica e rima toda própria, com uma sonoridade única, e vamos terminar esta resenha com um trecho de uma delas “Eu Quero Morrer no Mar”, deixando um gostinho de “quero mais”, vale a pena a leitura e degustação deste belo manjar paraibano!

“(…)
Com gaivotas vou voar,
num peixe vou me virar
Algas raras,
Almas claras,
eu quero morrer no mar
E lá…,
Eu quero morrer no mar”