“Se ele sabia o que era a morte? Claro. Era quando os monstros te pegavam.” [p.167]

A pacata cidade de Salem, localizada no condado de Essex em Massachusetts nos Estados Unidos, é cenário comum encontrado nas tramas de suspense e terror tanto na esfera literária quanto na cinematográfica. Tal fato ocorre, porque Salem é envolta em mistérios e superstições, além de ser palco do mais famoso tribunal de inquisição já visto em toda história política mundial.

E foi com essa premissa histórica, que o mestre do terror Stephen King, escreveu ‘Salem”; um romance – que não é bem um romance – cheio de mistério, medos, suspense e muita, muita adrenalina. É… queridos booklanders, vocês acreditam em vampiros?

No verão de 1975, o escritor Ben Mears chegava na sossegada cidade de Jerusalem’s Lot, ou popularmente conhecida com ‘salem. Ele tinha contas a acertar consigo mesmo, e precisava desse respaldo para poder se [re]encontrar. Nas coincidências da vida, na mesma época, chegavam também à cidade o menino Mark, garoto inteligente, sagaz e dotado de uma sabedoria genuína para a sua idade; e o misterioso Mr. Barlow.

Mr. Barlow chegou acompanhado do seu fiel escudeiro, o senhor Straker. E para deixar tudo bem mais enigmático, a dupla resolveu comprar a casa Marsten, que estava fechada e abandonada desde que seus antigos donos foram encontrados mortos de maneira sórdida e cruel. Aliás, tal casa, era o ponto de incômodo da cidade. A atmosfera que ali pairava era tão sobrenatural, que quando Straker chegou para fazer as negociatas, ninguém acreditou que era mesmo na casa do massacre que eles iriam ficar.

No meio do caminho conhecemos Susan Nortan: Garota bonita cujo sonho era sair o mais rápido de Jerusalem’s Lot. E sua amizade à primeira vista com o escritor Ben só lhe dá mais esperanças e certezas que é isso mesmo que ela deve fazer, afinal, ‘salem estava se tornando pequena e sufocante demais para os sonhos da jovem.

Além de Susan, outro morador que nos é apresentado com bastante afinco, é Matt. Um professor de literatura do ensino fundamental que já poderia ter se aposentado, mas que via no ensino e no conhecimento uma maneira de manter-se são e vivo. E por último, temos o jovem e simpático médico Dr. Jimmy Cody, e o frustrado e alcoólatra padre Callahan.

Jerusalem’s Lot tinha tudo para ser uma cidade calma e tranquila. Apenas dois fatos manchavam seu passado; o já mencionado massacre da/na casa Marsten e o grande incêndio que quase tirou a cidade do mapa em 1951. Mas a chegada dos novos habitantes trouxe muito mais que mistério para ‘salem. Um cachorro e um garoto são encontrados mortos. E os moradores são acometidos por uma doença rara e sem solução. E assim, um a um, cada pessoa da cidade passa a ser vítima de algo muito maligno.

“’Salem” foi escrita de maneira muito peculiar. A começar pelo título que tem um apóstrofo antecedendo a palavra, como que se para pronunciá-la precisássemos de instantes de silêncio em forma de respeito. Escrito em terceira pessoa, King nos apresenta mais de vinte personagens que ora são essenciais na obra, ora somem como se não deixassem vestígios. E daí, voltam, como mortos das catacumbas.

Além disso, ele é dividido em prólogo, parte I, II e III e epílogo. O que torna a introdução e o desfecho algo que se unem de maneira singular. Assim, quando necessário, o leitor precisa voltar ao começo para tentar entender o que e com quem está acontecendo tal coisa. Parece difícil, e no começo talvez o seja mesmo. Mas quando a narrativa se desenlaça de vez, fica impossível parar. Somos acometidos de uma curiosidade quase mórbida e sombria. E mais e mais, vamos adentrando nesse mistério.

Há, no entanto, pequenos revezes. Quiçá, na hora da tradução, alguns termos ficaram pairando sem sentido na obra. Bem como erros são encontrados. Principalmente erros de continuidade. As horas são colocadas de maneira esquisita e em um mesmo parágrafo temos “11:30” e “23:30”, como horário referente ao almoço. É claro, que se estamos acompanhando a narrativa com afinco, percebemos que isso é um erro grotesco e deixamos passar, mas para um leitor mais distraído, pode ser que gere certa confusão.

Especialista em realocar seus personagens, King também introduz nesta obra a história do padre Callahan, personagem que vai aparecer tempos depois na saga “A Torre Negra.” Então, para quem curte saber os históricos, essa obra é uma ótima pedida. A cidade de Jerusalem’s Lot também volta a ser mencionada em mais dois livros: “O cemitério” e “Zona Morta”.

“’Salem” foi o segundo livro lançado pelo autor. No entanto, anteriormente havia sido lançado como “A hora do vampiro”. Além disso, essa é uma obra assumidamente inspirada no “Drácula” de Bran Stoker, e também deu origem ao filme “Os vampiros de Salem”. Sua mudança de nome foi feita em 2013, na sua segunda edição. E em 2017, depois da febre “It- A coisa”, “’Salem” (da Editora Suma das Letras) foi um dos livros mais vendidos – do autor – na Bienal do livro.

A narrativa começa com um suspense e se desenrola em um terror dos bons. Não é um livro para quem tem pressa. Na verdade, temos que ir bebendo suas palavras. Avançando nos acontecimentos junto com seus personagens. É uma leitura para quem não quer deixar os clássicos vampirescos se perderem.

“Deus, dai-me SERENIDADE para aceitar o que não posso mudar, TENACIDADE para mudar o que posso e SORTE para não fazer muita merda.” [p.155]

Resenha: ‘Salem, de Stephen King
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