No romance “Tanto tempo sem te ver”, de Ana Teresa Jardim, a voz narradora é absorvida pelo olhar dos personagens sobre o mundo em um sutil encontro – o que faz reconhecer como o cinema deve à literatura essa capacidade encantadora de nos fazer enxergar através de lentes alheias.

Com o prazer proporcionado pela visão dos que têm coragem para apreciar o Rio em um voo de asa delta, experimenta-se o passeio impulsionado pelos ventos de personagens tão próximos e distantes quanto Alice, Daniel, Nora, Laura, Antônio, Sílvia, Marisa… Estamos no verão carioca e…

“Apesar de a fila ser pequena e andar rápido, todos na loja estavam nervosos, apressados, tensos. Atualmente parece, às vezes, que o menor contratempo – a fila que não anda, o carro na frente que demora a arrancar quando o sinal vai abrir, um casal de mãos dadas que atravanca a calçada – é uma afronta. A simples existência do outro, o espaço físico que ele ocupa, é motivo de irritação. Para suportar os inevitáveis momentos de convivência, todos mergulham no microcosmo reconfortante e cheio de privacidade do seu celular.” p.55

A realidade das relações humanas é delicadamente tecida por Ana Teresa Jardim, como aponta o muito pertinente posfácio escrito por Christian Schwartz, “Um olhar delicado e realista”. Ali, ele reconhece deliciosa característica da autora: sua originalidade não está em invencionices formais gratuitas. Sem rugas de tensão para compreender o jogo proposto, somos capturados pelo enfrentamento subjetivo de questões universais. Seus personagens não sofrem as mazelas que os desníveis econômicos proporcionam a uma imensa parte da nossa sociedade. No entanto, passada a miséria, sabe-se que o inferno é o outro:

“A presença dele não ameaça Laura, o que é raro. Ela já aprendeu a disfarçar esse traço seu de sentir ansiedade no convívio com os outros, uma necessidade de agradar, apaziguar alguma coisa neles. (…) Laura percebe que sente calma ao lado dele porque ele não precisa dela em nada, é totalmente seguro. Como seria ter um homem assim ao seu lado? (…)”. p. 65

Talvez o inferno não seja o outro e sim a maneira com a qual ele é encarado. Alguns seduzem, outros resistem. Não seria esse o grande charme de viver em sociedade?

“ (…) O que ela inveja são as mulheres mais velhas que andam pelas ruas de havaianas, vestindo um roupão atoalhado por cima do maiô. Ela tem horror de hidroginástica, dos professores animados e da música ruim, mas andar na rua de roupão com os cabelos molhados, é a liberdade máxima. (…)” p. 85

“- Ele ficou rico, famoso. E, o pior, eu tenho inveja dele.

– Você precisa parar de se sentir uma princesa destituída.

– Não é assim. As pessoas me tratam mal.

– Claro. Ninguém gosta de princesas.

– Mas, o que eu posso fazer, então?

– Ver as pessoas como elas são. Você só vê o potencial de tudo. E depois se frustra.” p. 74

A desenvoltura do texto de Jardim faz recordar certa cadência de Philip Roth em “Casei com um comunista” – mas, seria muito precipitado comparar os dois autores. Se há acidez nas memórias dos personagens do escritor, parece que, nos de Ana Teresa, há a superação de qualquer idealismo frustrado: “É engraçado, pensou, quando não se quer mais nada. A gente ganha uma espécie de poder. E uma mulher, quando não precisa mais de homens, é a coisa mais eletrizante, poderosa e fluida que há. Talvez seja a hora de virar adulta.” p.135


Por Carmen Filgueiras