Simone de Beauvoir é nossa convidada de honra do Literando de hoje. Em tempos onde o movimento feminista ganha cada vez mais voz, e no qual as mulheres brigam com unhas e salto alto (claro!) pelo seu lugar ao sol, não podíamos deixar de homenagear essa ativista incrível, que foi um dos embriões desse movimento.

A diva francesa, conhecida por seu engajamento político-social, foi um marco de sua geração e é hoje considerada uma das maiores vozes da Literatura Mundial. Nascida na França e filha de pais que passaram por um período de declínio financeiro, Simone de Beauvoir encontrou o seu lugar na sociedade mostrando que a mulher pode (sim!) fazer o que ela quiser.

Embora não se considerasse uma filósofa, nossa autora é uma referência do movimento existencialista, além de carregar consigo os títulos de escritora, teórica social e intelectual. Casada com outro pensador; Jean-Paul Sartre – que um dia teremos a honra e a oportunidade de falar -, Simone deu o pontapé inicial nos relacionamentos abertos. Afinal, casados de uma vida inteira, ambos preferiam manter suas individualidades vivendo em casas separadas.

E para reafirmar nossa admiração por esse ser que foi só luz em vida (ela morreu em 1986 na França), a Woo! Magazine traz a dica do dia com um livro incrível escrito por ela.

Todos os homens são mortais é uma obra datada de 1946 e conta a história de Fosca e Regine. Ele, imortal e ela, bem… ela atriz.

A vida de Regine estava marcada pela inveja e até um pouco de mesquinhez, ainda que eu não use essa palavra em seu sentido pleno, – acho que “efêmera” soa um pouco melhor, no entanto, não é isso que eu quero dizer – o fato é: Regine era uma eterna insatisfeita.

Fosca, ao seu próprio modo de ver, também era um insatisfeito. Mesmo que as efemeridades passassem longe de sua vida. Cada um em sua individualidade sofria “a dor e a delícia de ser o que é”. Enquanto ela buscava ser lembrada e marcada na história como a grande atriz que era – ou que se dizia ser -; ele deixou-se cair no esquecimento tentando justamente o oposto. Regine queria ser vista, aplaudida e lembrada. Fosca queria a invisibilidade. E, enfim, um dia, eles se conheceram.

O interesse foi notório dela para com ele. Pela janela do quarto, Regine o observava questionando o que aquele homem fazia imóvel sempre no mesmo lugar. Não havia chuva, fome ou vento. Ele parecia “parte” do jardim do hotel, como aquelas estátuas mórbidas e sem apelo decorativo. E impulsionada pela curiosidade – peculiar e comum a toda mulher – um dia resolveu invadir o quarto de Fosca a fim de buscar pistas sobre aquele ser tão misterioso, carinhoso e cinicamente alcunhado de “faquir”.

No quarto não havia nenhum livro, comida, e nada que indicasse que alguém vivesse ali. Não bastando a falta de informações, buscou dentro de um armário embutido, no qual acabou encontrando uma roupa branca e o certificado de um Hospício. Com as informações levantadas (ou não), coube-lhe ir atrás do homem, agora com um nome em mãos.

A partir desse ponto há na história uma mescla nas insanidades. Apesar de Fosca ser considerado o louco, é Regine quem comete as maiores atrocidades em busca da tal “imortalidade”. Ela o leva sob sua custódia, a fim de curar sua loucura. O tira do seu lugar comum sem motivo aparente, apenas para saciar um lado social que não lhe era peculiar. No entanto, quando julga ter nas mãos uma pessoa “curada”, Fosca deixa de ser seu brinquedo e passa a ser a criatura “perigosa” que não a larga mais.

Ele lhe conta parte de sua história; fala dos dias que ficou no hospício e como foi parar lá. Diz que ela o retirou da inércia e por isso é responsável por ele, o que me lembrou muito Antoine de Saint Exupéry em “O Pequeno Príncipe”:  “Tú te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” (deve ser parte do humor francês).

Essa relação entre Fosca e Regine é escrita um pouco conturbada. Ele não consegue entender como algo que é tão ruim para si – a imortalidade – seja a única coisa na vida de outro alguém. Entre o fazer e o não fazer os caprichos dela, Fosca narra toda sua história de como e porque chegou a ser imortal, e os reais motivos de nunca desejar isso para alguém.

Essa busca pela tal e tão poderosa imortalidade vem de milhares e milhares de anos atrás. O dicionário online Priberam de Língua Portuguesa toma duas definições para a palavra imortal:

Primeira: “Que não morre, eterno, inextinguível

Segunda: “Pessoa cuja memória ficará para sempre. ”.

Nessas definições em separado, temos os personagens principais desse enredo, que no fim são polos opostos de si mesmos. E buscando em meandros mais históricos, a Bíblia, e a tomo aqui como documento histórico e não como membro da sociedade católica, vai falar de morrer para viver na vida eterna. Os gregos consideravam que morrer ganhando uma batalha, conseguiriam perpetuar seus nomes por toda eternidade. Derrota mesmo era sobreviver e não sair como herói.

Temos também essa perpetuidade em um campo da alquimia; Nicolau Flamel, um alquimista francês (Francês!), que só por nome já é cheio de misticismo, tentou desenvolver por intermédio da alquimia e da cabala, uma investida de manter-se eterno. Portanto, o que vemos na obra de Beauvoir não é nenhuma novidade. No entanto, essa retomada de um assunto tão já exposto e trabalhado, quiçá tenha vindo como um tentame de lembrar que esse desejo de viver para sempre, mesmo que somente em lembrança faz parte do imaginário popular, sendo ele utilizado como crença ou não.

O fato é que escrever sobre não morrer deixa nossa autora mais viva do que nunca. Assim sendo, quando lemos a história de Regine e Fosca, lemos também outros momentos e modos da vida daqueles que só queriam ser e ter seus nomes gravados nas estrelas.

“ – Isso acabará!.”