Escrevo diários desde meus treze anos de idade. Foi a maneira como descobri de me desconectar do mundo – viu e cruel – e me conectar comigo mesma. Escrever, mais do que fuga, tornou-se um processo de autoaprendizagem. Hoje, contando com treze cadernos de dez matérias cada um, tenho minha vida toda documentada em histórias tristes – a maioria delas, afinal histórias tristes é que dão um bom romance – e histórias felizes, claro. Porque se é bom, cabe e vale a lembrança.

Mas porque estou falando isso? Porque o Literando de hoje vem reflexivo, existencial, curioso e dicotômico. Vamos falar de vida, muita vida. Mas também de como nossas ações são cruciais para o tipo de pessoas que queremos ser. Ou que já somos… E bem… ter um diário é ótimo para fazer esses parâmetros.

Aprecio aqueles que os escrevem. Logo, acho que gosto muito de mim.  E portanto, essa resenha sairá um pouco diferente das primeiras. Acho que deixei empolgar-me pelo gênero. E acredito que é válido esse tipo de narrativa. Portanto, “vamos al que me gusta!”

Mario Benedetti é um autor Uruguaio, e apesar de minhas leituras serem voltadas para esse âmbito mais latino, nunca tinha lido nada de seu. “A Trégua” foi lançado no ano de 1960, mas a edição lida veio de uma coleção de 25 obras Ibero-Americanas, lançada pela Folha de São Paulo.  Uma ótima coleção, diga-se de passagem.

Nela, o autor trabalha com o gênero diário. E por se tratar de tal modo narrativo, raras são as vezes que o, até então, escritor/narrador, fala de si na terceira pessoa. Na verdade, tudo o que nos é dito de começo, é que ele resolve escrever um diário para relatar o ano que antecede sua aposentadoria.  E esse “ele” só recebe uma alcunha no sétimo dia de escritura – 23 de fevereiro – no qual se intitula: Martín Santomé.

“Santomé”, é um sobrenome que tem origem cristã,- o que é comum nos países de fala hispânica – vem de “São Tomé”, o santo – antes de tornar-se santo –  àquele que apenas acreditava nas coisas que via. Ao longo da narrativa, Martín demonstra algo tipo. Apesar de ser um funcionário público exemplar, prestes a conseguir a, nem tão, desejada aposentadoria; escreve o diário como uma espécie de auto avaliação do: “então?! o que vou fazer agora?”. Como se quisesse ser pôr à prova do: “consigo seguir diante.”.

Dado importante e que faz toda a diferença ao longo da história, é que Martín Santomé já está com seus quase cinquenta anos. E a problemática está envolta em o que se há de fazer nos momentos de ócio obrigatório.

Viúvo, pai de três filhos [dois homens e uma mulher], ele quebra o paradigma de que diários são escritos por mulheres. O fato ser homem, de ser mais velho, e de estar no auge de seus conflitos, na minha opinião, faz até com que sua escrita seja até mais sensível que a de uma mulher. Sinceramente, eu não sei se escrevo sobre mim tão bem assim.

Quando Santomé fala da falecida esposa – Isabel- sua saudade é mais carnal do que sentimental. Seus corpos encaixavam-se de maneira única, a aura era tão sexual entre os dois que essa vem a ser a sua única lembrança concreta e da qual, parecia falar sem pudor. Do rosto de Isabel, ele não lembrava [à princípio].

Isabel não era um clichê. Isabel era volúpia e a memória de Santomé que já não existia mais. No entanto, mesmo sem recordar, a sua não-existência fazia-o questionar algo muito mais etéreo e passível de discussão: Deus existe, e o “não-porquê” da morte. Afinal, ele mesmo conta em seus escritos, que a morte era apenas extensão da própria vida, nada tão natural quanto. Mas das lembranças, bem, não eram recordações de fatos, cartas e falas. Era algo muito maior; tratava-se de uma auto-reconstrução, um retrato falado da memória.

Mais tarde, dos escritos de Isabel, vinham também recorte da vivência com seus três filhos, Blanca, Esteban e Jaime. Jaime era o seu preferido, Esteban o mais arredio, mas era Blanca que o fazia recorda-se de si mesmo. No final descobrimos que Jaime é homossexual e sai de casa depois de um rompante com seu pai. E das ironias do livro, a pelea se dá justo no momento em que pai e filho mais pareciam se entender.

Como se trata de um diário, é certo que as situações não seguem uma ordem linear. Às vezes, sim conta-se coisas do dia-a-dia, como ofícios do trabalho ou encontros casuais com amigos de infância, mas em sua grande maioria, o “recheio” dessa narrativa gira ao redor dos recôncavos da memória. Isso até o momento em que ele começa a reparar em sua nova funcionária: Avellaneda.

E daí a escrita fica muito, mas muito mais intimista. Avellaneda é a entrelinha de Santomé. E os dois são tudo que fazem esse romance valer apena.

A Trégua pode ser uma obra arrebatadora e angustiante, mas com certeza faz vários mecanismos dentro da sua cabecinha pensarem: “o que eu estou fazendo da minha vida agora?”. Vale a dar uma chance. E quem sabe você não começa seu diário também?!