Shakespeare tinha uma frase que retrata muito bem esse livro: “Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que outra pessoa morra.”  E ainda que nossa história se passe bem longe dos idos ingleses e que nosso Shakespeare do dia seja, na verdade, um brasileiro – mas tão premiado quanto – vamos na nossa coluna de hoje, retratar os sentimentos que guardamos e que nos corroem tanto por dentro, que podem mesmo nos matar.

“Um copo de cólera” foi um dos – únicos – três livros do autor Raduan Nassar. E é ele que vai transformar nossa leitura em algo mais íntimo e existencial. Foi ele também que nos deixou com aquele silêncio ensurdecedor, típico dos livros que terminam com aquelas mensagens – ou narrativas – que são um verdadeiro soco na boca do estômago.

É um livro, sobretudo, sobre emoções humanas e mostra em apenas 64 páginas, o quanto podemos ser suscetíveis ao sentimentalismo excessivo, ou a falta dele. Escrito em 1970, mas publicado apenas em 1978, “Um copo de cólera” é daquelas leituras obrigatórias e atemporais. Tudo – ou nada – se encaixa.

Dividido em apenas quatro capítulos, temos três deles narrados por um homem. Nosso narrador em potencial conta, depois de uma noite de amor, como se sente em relação ao seu relacionamento, com relação a sua parceira, e o rumo que sua vida toma, ou tomará. Em contrapartida, no último capítulo, Nassar dá o direito a voz feminina. E é ela quem encerra, com chave de ouro, toda a gama de conflitos existenciais propostos na narrativa.

Mexendo com nossa imaginação, a obra, genialmente, deixa no ar qual é o grau de envolvimento dos nossos narradores. Não sabemos se são casados, amantes, apenas conhecidos… fica a critério do leitor levantar os autos sobre eles, e deixar sua imaginação fluir até onde lhe convém.

De maneira descritiva, temos em ampla visão a tórrida noite de sexo que dos protagonistas, e como na manhã seguinte tudo desandou a um clima tenso e preocupante. E a grande sacada da obra, é que a discussão dos dois não começou por algo sério. Na verdade, tudo se deu de pequenas rachaduras, que de tão intrínsecas deixaram todo dessabor entrar naquele fatídico café da manhã.

O nível de crueldade nas palavras que proferem um ao outro, nos faz pensar em como os relacionamentos saem do âmbito de contos de fada e se transformam em verdadeiros pesadelos. O que nos leva a pensar, também, que mesmo que não saibamos seu nível de envolvimento, podemos, no mínimo, divagar sobre. Algumas palavras são ditas com tanta certeza, e com tanta intimidade, que talvez não seja possível que eles sejam apenas conhecidos.

Em dado momento ele bate nela. E em tempos onde se defende veemente a não violência contra a mulher, nesse caso em particular, isso parece excitá-la. É uma relação de amor e ódio. E entendemos que esse tipo de agressão é completamente imperdoável, mas nesse caso, a maneira como é narrado e como nossa personagem responde a isso faz com que sejamos voyeurs e cúmplices ao mesmo tempo.

Raduan Nassar nasceu em Pindorama, e já era aclamado pelo clássico Lavoura Arcaica. Que, assim como “Um copo de cólera“, ganhou dimensões cinematográficas. Em 2016, recebeu o prêmio Camões, mesmo deixando de escrever em 1984, quando se decidiu mudar para o interior e abandonar de vez a literatura.

A maneira como Nassar escreve fez com que ele fosse comparado à Clarice Lispector. E sua narrativa entrou no hall da Literatura contemporânea. Isso reflete diretamente na forma como escreve. Na nossa dica, por exemplo, a obra que conta com quatro capítulos de parágrafos único. Deixado, assim, o ledor em uma narrativa ininterrupta.

Não é um livro para olhos sensíveis e almas desgastadas. E apesar de ser um clássico da Literatura Erótica, o prazer, passa longe de tudo que foi explicitado. É um romance existencialista e não esconde isso. É um pedido de ajuda e uma denúncia, ao mesmo tempo. É uma leitura para quem gosta de desbravar-se, pois.

(…) foi a duras penas que aprendi a transformar em graça o ferrete que carrego, sinto nas mãos agora poderosamente livres para agir, evidentemente c’um olho no policial da esquina, o outro nas orgias da clandestinidade (…) [p.44]