O Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo apresenta “Jean Cocteau: O Testamento de um Poeta”, retrospectiva dedicada a um dos cineastas mais importantes da história da sétima arte. São seis filmes que Jean Cocteau assinou como diretor e mais dois em que participou como roteirista para outros cineastas. A mostra ainda vai exibir três filmes baseados diretamente na obra de Cocteau para outras mídias, como teatro e poesia, filmes influenciados por Cocteau (dez), dois documentários sobre Cocteau e o clássico “Zero em Comportamento”, de Jean Vigo, o outro grande nome do cinema surrealista francês da década de 1930. As sessões acontecem no CCBB SP entre 01 a 26 de março de 2017 e depois viaja para o Distrito Federal onde irá acontecer no CCBB DF, entre 22 de março e 17 de abril de 2017.

Jean Cocteau foi um dos artistas mais completo do século XX. Expressou-se em todas as mídias: poesia, teatro, música, romance, fotografia, escultura, desenho, pintura, cinema. Seu primeiro filme, “O Sangue de Um Poeta”, é a declaração de princípios que a sétima arte jamais tivera anteriormente.

A influência de Cocteau no cinema abarca diretores e movimentos contrastantes. Ela se encontra no ascetismo formal de Robert Bresson, assim como no sonhador e musical Jacques Demy. Vemos Cocteau nas fabulações fílmicas de François Truffaut, mas também nos jogos intelectuais de Alain Resnais. Grande entusiasta da renovação estética proposta pela Nouvelle Vague, Jean Cocteau também foi o patrono do Letrismo de Isidore Isou e Maurice Lemaître, que pretendia a desconstrução radical da poesia e do cinema. Mesmo a Disney se rendeu a Cocteau: as semelhanças entre a animação “A Bela e a Fera” com a versão de 1946, com Jean Marais no papel principal, são notáveis.

O tema de “Orfeu”, onipresente na obra e no cinema de Cocteau: o poeta que se apaixona por sua Musa, a própria Morte. Jacques Demy o refilmou diretamente em “Parking”, adaptando-o para a cena do rock dos anos 1980, com Jean Marais no papel de Hades. Resnais, por sua vez, dirigiu “Vocês Ainda não Viram Nada”, mistura de cinema e teatro em múltiplas camadas de tempos narrativos, mais uma ousadia do cineasta, no vigor de seus então 91 anos. E sem esquecer “Les Enfants Terribles”, de Jean-Pierre Melville, em que os irmãos incestuosos são guiados pela Pulsão de Morte rumo à autodestruição.

“Jean Cocteau: O Testamento de um Poeta”  é a realização da retrospectiva dos filmes de Jean Cocteau, em película, no espaço ao qual eles pertencem: a sala de cinema. Nesse sentido, a mostra, além de contribuir para a formação de público, é um importante mecanismo de preservação da memória.

Sobre Jean Cocteau:

Jean Cocteau nasceu em Maisons-Laffitte, em 5 de julho de 1889. Poeta, dramaturgo, libretista, fotógrafo, pintor, gravurista, desenhista e cineasta, foi talvez o mais completo artista do século XX. Começou no cinema com “O Sangue de Um Poeta”, primeira parte da “Trilogia de Orfeu” – que compreende ainda “Orfeu” e “O Testamento de Orfeu” –, verdadeira declaração de princípios do autor em relação ao novo meio que experimentava.

Com Jean Marais, seu companheiro, Cocteau filmou, além de Orfeu, “A Bela e a Fera” e “O Pecado Original”. Colaborou com Robert Bresson em “As Damas do Bois de Boulogne” e com Jean-Pierre Melville em “Les Enfants Terribles”, bem como cedeu, de graça, os direitos de sua peça “O Belo Indiferente” para que Jacques Demy realizasse seu primeiro curta-metragem de ficção.

Jean Cocteau foi patrono dos Letristas e grande entusiasta da Nouvelle Vague, movimentos antagônicos entre si. Ídolo de Isidore Isou, premiou o polêmico “Traité de Bave et D’Eternité” no Festival de Cannes de 1951 como melhor filme experimental. Também esteve no júri que concedeu o troféu de melhor direção a François Truffaut por “Os Incompreendidos”, o qual, com o dinheiro da premiação, financiou “O Testamento de Orfeu”.

Filmes
  • Sangue de Um Poeta (Le sang d’un poete, 1930, 55 min)
    Diretor: Jean Cocteau
    Sinopse: Um artista sem nome é transportado através de um espelho para outra dimensão, onde ele viaja através de diversos cenários bizarros.
  • A Bela e a Fera (La belle et la bête, 1946, 96 min)
    Diretor: Jean Cocteau, René Clément
    Elenco: Jean Marais, Josette Day, Mila Parély.
    Sinopse: Uma bela Jovem toma o lugar de seu pai como prisioneira de uma fera misteriosa, que deseja se casar com ela.
  • Águia de Duas Cabeças (L’aigle à deux têtes, 1948, 93 min)
    Director: Jean Cocteau
    Elenco: Edwige Feuillère, Silvia Monfort, Jean Marais.
    Sinopse: A Rainha entra em reclusão após a morte do marido. Um poeta anarquista com tendências suicidas invade seu palácio pensando em assassina-la, mas ambos se apaixonam graças a semelhança entre ele e o rei. Nisso, o poeta tenta convencer a rainha a voltar a vida pública, enquanto seus inimigos conspiram.
  • O Pecado Original (Les parents terrible, 1948, 105 min)
    Director: Jean Cocteau
    Elenco: Jean Marais, Josette Day, Yvonne de Bray.
    Sinopse: O filme conta o drama de jovem mimado pela família que se apaixona por uma moça que tem um caso com um homem mais velho.
  • Orfeu (Orphée, 1950, 95 min)
    Diretor: Jean Cocteau
    Stars: Jean Marais, François Périer, María Casares.
    Sinopse: Orfeu é um poeta que se torna obcecado com a Morte (a Princesa). Eles se apaixonam. A esposa de Orfeu, Eurídice, é assassinada pelo capanga da Princesa, e Orfeu vai atrás dela no Mundo dos Mortos. Embora eles tenham ficado perigosamente envolvidos, a Princesa manda Orfeu de volta, para prosseguir com sua vida ao lado de Eurídice.

 

  • O Testamento de Orfeu (Le testament d’Orphée, ou ne me demandez pas pourquoi!, 1960, 77 min)
    Diretor: Jean Cocteau
    Elenco: Jean Cocteau, Françoise Arnoul, Claudine Auger.
    Sinopse: O Poeta olha para sua vida e sua obra, relembrando suas inspirações e obsessões.

  • O Amor (L’amore, 1948, 69 min)
    Diretor: Roberto Rossellini
    Elenco: Anna Magnani, Federico Fellini, Peparuolo.
    Sinopse: No primeiro episódio, uma mulher com o coração partido fala com seu ex-amante no telefone. No segundo, uma mulher acredita que está grávida do filho de São José.
  • O Belo Indiferente (Le bel indifferent, 1957, 29 min)
    Diretor: Jacques Demy
    Elenco: Jeanne Allard, Angelo Bellini, Jacques Demy.
    Sinopse: Num pequeno quarto de hotel, uma mulher espera e telefona para um bar a saber notícias do seu amante Emile. Ele entra, deita-se na cama e abre o jornal. Ela repreende-o. Ela monologa, ameaça, suplica, furiosa ou submissa. Ele dorme e depois sai, sem uma palavra.
  • Les Enfants Terribles (1950, 105 min)
    Director: Jean-Pierre Melville
    Elenco: Nicole Stéphane, Edouard Dermithe, Renée Cosima.
    Sinopse: Elisabeth é muito protetora com seu irmão adolescente Paul, que foi ferido em uma luta de bolas de neve na escola e tem que descansar na cama a maior parte do tempo. Os irmãos são inseparáveis, vivem na mesma sala, lutando, jogando jogos secretos, e raramente saem de casa, embora amigo de Paul, Gerard muitas vezes permanece com eles. Um dia Elisabeth traz para casa Agathe para viver com eles também. Ela tem uma forte semelhança com Dargelos, um estudante por quem Paul tinha uma queda, e foi quem o feriu. Paul e Agathe começam a se sentirem atraídos um pelo outro, fazendo com que Elizabeth comece a sentir muito ciumes deles.
  • As Damas do Bois de Boulogne (Les dames du Bois de Boulogne, 1945, 86 min)
    Diretor: Robert Bresson
    Elenco: Paul Bernard, María Casares, Elina Labourdette.
    Sinopse: Uma dama da sociedade planeja o casamento entre seu amante e uma dançarina de cabaré, que é essencialmente uma prostituta.
  • The Hearts of Age (1934, 8 min)
    Diretor: William Vance, Orson Welles
    Elenco: Orson Welles, Virginia Nicholson, William Vance.
    Sinopse: Uma cena nos Estados Unidos colonial. Uma velha senhora se senta ao lado de sino enquanto um homem em blackface, com peruca, toca o badalo. Da porta de cima emerge um homem velho, vestido como um dândi, que tira seu chapéu para a mulher enquanto desce as escadas. Outros saem da mesma porta e descem a mesma escada: um maltrapilho, um policial e, diversas vezes, o mesmo dândi. O homem em blackface se enforca; o dândi continua a sorrir. Um sino toca, um túmulo se abre. Na escuridão, o dândi toca o piano. Ele é a Morte?
  • Traité de Bave et D’eternité (1951, 123 min)
    Diretor e elenco: Isidore Isou
    Sinopse: Isidore Isou, líder do movimento Letrista, ataca os filmes convencionais e oferece uma forma inovadora de fazer cinema através de arranhões na película, da falta de sincronia entre som e imagem, da desconstrução do roteiro. Ele tem como objetivo renovar a sétima arte da mesma maneira que tentou revolucionar o mundo literário.
  • Hiroshima, Meu Amor (Hiroshima, Mon Amour, 1959, 90 min)
    Diretor: Alain Resnais
    Elenco: Bernard Fresson, Stella Dassas, Emmanuelle Riva, Eiji Okada.
    Sinopse: Hiroshima, 1959. Uma atriz francesa casada veio de Paris para trabalhar num filme sobre a paz. Ela tem um affair com um arquiteto japonês também casado, cuja esposa está viajando. Nos dois dias que passam juntos várias lembranças vêem à tona enquanto esperam, de forma aflita, a hora da partida dela. Ela conta que foi “tosquiada”, pois se apaixonou por um alemão quando tinha apenas 18 anos e morava em Nevers, sendo libertada no dia em que seu amor foi morto, já no final da 2ª Guerra Mundial. Por ter amado um inimigo ela foi aprisionada por sua família numa fria e escura adega e agora, 14 anos depois, novamente sente o gosto de viver um amor quase impossível.
  • Os Incompreendidos (Les quatre cents coups, 1959, 99 min)
    Diretor: François Truffaut
    Elenco: Jean-Pierre Léaud, Albert Rémy, Claire Maurier.
    Sinopse: História intensamente tocante sobre adolescente incompreendido que, deixado sem atenção, entra para a vida de pequenos crimes.
  • O Ano Passado em Marienbad (L’année dernière à Marienbad, 1961, 94 min)
    Diretor: Alain Resnais
    Elenco: Delphine Seyrig, Giorgio Albertazzi, Sacha Pitoëff.
    Sinopse: Em um castelo, a ambígua história de um homem e uma mulher que podem, ou não, ter se encontrado ano passado em Marienbad.
  • Os Guarda-Chuvas do Amor (Les Parapluies de Cherbourg, 1964, 91 min)
    Diretor: Jacques Demy
    Elenco: Catherine Deneuve, Nino Castelnuovo, Marc Michel
    Sinopse: Cherbourg, 1957. Guy Foucher é um jovem de 20 anos que foi criado pela madrinha e trabalha como mecânico de carros. Ele é apaixonado por Geneviève Emery, uma adolescente de 17 anos que ajuda sua mãe viúva no negócio da família, uma loja de guarda-chuvas elegante, mas pouco lucrativa. Geneviève também o ama, mas sua mãe acha que ela é muito nova para casar e não vê como Guy pode manter uma família. Ele é convocado para o serviço militar e ela descobre estar grávida. Surge o dilema: esperar o retorno do amado ou seguir adiante?

  • Duas Garotas Românticas (Les Demoiselles de Rochefort, 1967, 120 min)
    Diretor: Jacques Demy
    Elenco: Catherine Deneuve, Fraçoise Dorleac, Danielle darrieux, Jacques Perrin, Michel Piccoli, Gene Kelly.
    Sinopse: Delphine e Solange são duas irmãs de 25 anos que vivem em Rochefort, na França. Delphine é professora de dança, enquanto Solange ensina piano. Ambas sonham em encontrar um grande amor, assim como os rapazes que chegam à cidade e passam a frequentar o bar da família.
  • Pele de Asno (Peau d’âne, 1970, 91 min)
    Diretor: Jacques Demy
    Elenco: Catherine Deneuve, Jean Marais, Jacques Perrin.
    Sinopse: Uma fada-madrinha ajuda a princesa a se disfarçar para que não tenha que se casar com o homem que não ama.
  • Parking (1985, 95 min)
    Diretor: Jacques Demy
    Elenco: Francis Huster, Laurent Malet, Keiko Itô.
    Sinopse: Atualização da história de Orfeu e Eurídice.
  • Vocês Ainda Não Viram Nada! (Vous n’avez encore rien vu, 2012, 115 min)
    Diretor: Alain Resnais
    Elenco: Mathieu Amalric, Pierre Arditi, Sabine Azéma.
    Sinopse: Do túmulo, celebrado dramaturgo Antoine d’Anthac reúne todos os amigos que apareceram durante os anos em sua peça “Eurídice”. Esses atores assistem a gravação da peça, feita pela jovem companhia, La Compagnie de la Colombe.Amor, vida, morte e amor depois da morte ainda têm lugar no palco? Cabe a eles decidirem. E as surpresas apenas começaram.
  • Zero em Comportamento (Zéro de Conduite, Jeus Diables au Collège, 1933, 44 min)
    Diretor: Jean Vigo
    Elenco: Louis de Gonzague, Raphaël Diligent, Jean Dasté.
    Sinopse: Um grupo de quatro meninos se rebela contra o sistema repressivo e as rígidas regras de um colégio interno francês em um dia festivo. Um verdadeiro ato de rebelião é instaurado na escola, e ganha ares de surrealidade, resultado das leituras libertárias da infância. Os quatro diabinhos (subtítulo do filme: Diabinhos na Escola) acabam sendo bem sucedidos na rebelião e depois triunfam em um telhado, parecendo prontos a alçar voo.
  • Jean Cocteau Autorretrato de Um Desconhecido (Jean Cocteau Autoportrait D’un Inconnu, 1985, 68 min)
    Direção: Edgardo Cozarinsky
    Sinopse: A trama desse filme é dada pela voz e pela mão do poeta que ata e desata seu traço para passar da escrita ao desenho.
  • Cocteau e Companhia (Cocteau et Compagnie, 2003, 52 min)
    Direção: Jean-Paul Fargier
    Sinopse: Jean Cocteau desenha diante da câmera e vemos evoluir a linha, definitivamente, à maneira de um músico de jazz, ou mesmo como a escrita em ação. Esta linha que se expande constitui a figura central do filme, que traça um retrato original e erudito do artista, mostrando as interações constantes e a essência de uma pesquisa extensa e eclética.

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