Por quantos pontos de vista uma cidade pode ser observada? Apesar de ser uma questão amplamente subjetiva, a resposta certamente é influenciada pelo porte e importância da cidade em seu contexto sócioeconômico. No caso de São Paulo, a maior cidade do Brasil, a multiplicidade de aspectos que se pode observar é incalculável. Mesmo assim cometeremos a ousadia de enumerar alguns pontos de vista.

Em primeiro lugar obviamente, vem a visão dos próprios paulistanos, muitos dos quais habitam essa gigantesca metrópole sem se dar conta de suas riquezas implícitas e explícitas. O interessante do ponto de vista dos nativos de uma cidade, é que eles julgam conhecê-la e valorizá-la por determinados aspectos que costumam ser radicalmente diferentes dos aspectos observados por quem vem de fora. Por falar nisso, estes são o segundo grupo, os emigrantes, em sua maioria saudosistas de suas terras natais, que amam odiar a caótica capital paulista, a qual chamam de Sampa (sério, não conhecemos nenhum paulistano que use este apelido). Tem também os turistas, sejam corporativos ou a passeio mesmo, que costumam visitar apenas aqueles pontos da cidade que os paulistanos valorizam.

Mas fora estes pontos de vista quase estereotipados, existe um outro que consegue enxergar tesouros e belezas ocultas que nenhum outro grupo enxerga. São pessoas que vêm de fora (cidades ou países), mas não como turistas apressados e sim para viver em Sampa (Argh!) por algum tempo. Dessa forma, esses distintos e privilegiados indivíduos conseguem fugir daqueles locais óbvios que os paulistanos decretaram como cartões postais. Ao mesmo tempo não possuem o ranço saudosista dos emigrantes que enxergam a cidade como uma prisão. Neste seleto grupo é que encaixamos o artista David Lloyd, o qual produziu esta obra magnífica que homenageia a cidade de São Paulo!

O objetivo do projeto “Cidades Ilustradas” é justamente este: convidar artistas para produzirem livros ilustrados com paisagens e cenários de cidades brasileiras. Obviamente, para obter esse olhar especial, os ilustradores são de outros estados ou mesmo de outros países. A série foi publicada entre 2003 e 2013 pela editora Casa 21, totalizando 13 belos volumes. Portanto capricho, em duas ocasiões o projeto ganhou o Troféu HQ Mix na categoria “melhor projeto editorial”. David Lloyd ficou mundialmente conhecido por ter criado a graphic novel “V de Vingança” em parceria com o mago Alan Moore na década de 1980. Dono de um estilo de traço bastante autoral, o desenhista também produziu HQs pela Vertigo, Eclipse e Dark Horse.

Em “São Paulo” o aclamado ilustrador britânico retrata seu viés investigativo com uma linguagem quase semelhante a um mix de documentário histórico com um caderno de viagens. De modo geral, cada página dupla do álbum possui texto descritivo de um lado e ilustração de outro. Porém, da mesma forma que não se trata de uma mera ilustração, também não se trata de uma reles descrição. Cada texto contém em si uma pequena história pressentida e interpretada pelo autor. Misturando dados históricos, fatos sociais e impressões pessoais, Lloyd constrói uma narrativa tão cativante quanto apaixonada. É tão nítido que ele se deixou contaminar pela alma da cidade a ponto de enxergar tanto aqueles tesouros escondidos quanto as mazelas explícitas, porém sem emitir julgamentos negativos.

Para dar vida às percepções que teve sobre São Paulo, David utilizou em suas ilustrações a técnica renascentista do chiaroscuro. Para quem não é versado em detalhes artísticos, vale dizer que esse estilo se define pelo contraste entre luz e sombra na representação de um objeto, porém com pouca transição tonal entre o claro e o escuro. Além disso, a técnica também procura suprimir traços de contorno, deixando com que o alto contraste faça as vezes de demarcador entre os limites do objeto e o fundo. O resultado final é similar a uma foto com um alto grau de realismo, porém ligeiramente desfocada. Interessante que a ausência de limites marcados provoca uma sensação de movimento, algo que vem em total acordo com a agitação típica da capital paulista.

“São Paulo” – o livro – é daquelas obras de encher os olhos pela arte deslumbrante e pelos textos envolventes. São Paulo – a cidade – que esta semana completa 464 anos no dia 25, merece a recordação deste álbum que foi publicado em 2006 e lhe faz uma belíssima homenagem.

CLOSE
CLOSE