“Nós não existimos: coexistimos e somos todos interdependentes”. Essa frase não é minha (gostaria que sim, porém…), mas, foi o motivo de várias reflexões durante a semana.

Quem disse ela, na verdade, foi Leonardo Boff: pseudônimo de Genézio Darci Boff, teólogo, escritor e pesquisador brasileiro. Leonardo ficou famoso internacionalmente por sua luta acerca dos direitos dos mais pobres e excluídos.

Dados os devidos créditos, não deixaremos de lado a importância e grandeza que a frase possui e que resultou no tema deste Vivacité. Vamos entender o porquê.

Muito se tem falado ultimamente da importância em focar mais em si e no seu “eu interior”. As pessoas optam por meditação, ioga, técnicas respiratórias, e diversos outros métodos para se conectar com a maior companhia de toda uma vida: você mesmo.

E, se quer saber, isso está mais do que certo. Entender que nosso corpo/mente/espírito são nosso templo, para alguns, demora. Leva tempo. Às vezes, se trata de um caminho árduo, por ora doloroso ou difícil. Mas, que quando chega, é maravilhoso.

O foco de hoje e dessa frase de nosso amigo Boff, vai um tanto além dessa relação corpo/casa. O que falamos hoje é das relações existentes entre nós e o outro, entre nosso templo e o templo do outro, ou seja, na interdependência entre os seres.

Não é de hoje que a cultura do consumo vem sendo discutida por focar demais no indivíduo e excluindo completamente as relações de troca com os outros. A mídia, tão hegemônica tal qual é, reforça esteriótipos, cria conceitos do que é belo e esquece da diversidade em que vivemos. Acaba por forçar uma competição por status que prejudica relações que poderiam ser saudáveis.

Desde que o mundo é mundo, o homem percebeu que viver em comunidade seria a melhor solução para a garantia de sobrevivência e manutenção de sua espécie. De maneira cooperativa, todos se ajudavam e criavam um lugar seguro e próspero para se viver.

Hoje não é muito diferente. Vivemos em sociedade porque ela não existiria sem a co-participação um do outro. Todos os setores de nossas vidas estão interligados de alguma maneira e, como diria Tom Jobim, é impossível ser feliz sozinho.

Até mesmo em nossa formação como pessoa. De acordo com o antropólogo Roberto DaMatta, em uma de suas crônicas, o que somos hoje, são reflexos das experiências que tivemos com os outros:

“A sensação de transitar por várias etapas críticas do meu ciclo existencial (…) foi toda construída por outras pessoas. Foram todos urdidos de fora para dentro, por meio de conversas, presentes, admoestações, rituais, aprovações, elogios e reparos feitos por um outro. Acentuo esse ‘outro’ porque sem ele eu não seria capaz de saber que tento ser simultaneamente um indivíduo autônomo e livre; e uma pessoa devedora de muitas pessoas e relações as quais despertaram os vários ‘eus’ que convivem dentro de mim”

Sem essa relação com o outro, não conseguiríamos sequer reconhecer nossa humanidade. E, se quisermos garantir um futuro bom para o planeta, devemos pensar seriamente neste conceito de interdependência. E, mais importante, de uma maneira consciente.

Digo isso porque não podemos viver numa sociedade que até os dias atuais perpetua preconceitos e discriminações. Se não entendermos a importância da diversidade para a manutenção do planeta, jamais teremos uma vida próspera com garantia de felicidade para as gerações que virão.

Não podemos cair na armadilha de alguns meios que confundem diversidade com caridade. É preciso ter empatia, respeito e admiração entre as relações.

Por isso, acredito que devemos nos inspirar em cardumes, que, mesmo na imensidão do oceano, preferem andar juntos. Ninguém vive sozinho e, quem acha que o mundo gira em torno de si, está condicionado a ter uma grande decepção no futuro.

Que possamos perceber o quanto a presença do outro é importante para, assim, termos uma vida mais feliz. 🙂


Por Michele Matos