Abertos ao Diálogo

“A Rainha Barbada representa uma luta que tá só começando.” – Wallace Oliveira / Ohana Azalee

É com essa frase que começamos nossa entrevista de hoje. Embora possa te parecer estranho a figura presente na imagem, essa mistura entre o masculino e o feminino tem muito história para contar e debates a se levantar. Hoje, nosso papo é com o tatuador Wallace Oliveira e com sua drag Ohana Azalee.

Ela nasceu há dois 2 anos, mas seu estilo se movimenta contra o que já nos acostumamos a ver em caracterizações de Drag Queens. Barbada e peluda, a ideia de Wallace é gerar debates positivos sobre a tênue linha entre o que é masculino e feminino. Com formação em artes e fotografia, ele começou a cantar em coral de igreja e já passou por alguns grupos e bandas. Agora que já conhecem um pouquinho dos dois, vamos a nossa entrevista sobre identidade, reconhecimento, influências musicais – e claro – sobre seu trabalho.

Paulo Olivera: O nascimento da Ohana Azalee veio na época que começou a conhecer os movimentos e a militância negra e LGBTQ+. Você acredita que essa imagem feminina influencia a autodescoberta e afirmação? Se sim, de qual maneira isso ocorre?

Wallace Oliveira: Sim, no meu caso expecificamente, a Ohana me ajudou a criar auto-confiança para me posicionar em quanto homem Gay, negro, não magro e periférico, mas existem casos onde a drag ajuda pessoas a se descobrirem pessoas trans, por exemplo. E isso ocorre no sentido em que em muitos casos a drag dá acesso ao um mundo de possibilidades e durante o processo de criação da drag, algumas pessoas identificam ali características de si e entendem que muitas vezes o não enquadramento social se deve ao fato de que ela mesma não se reconhecia de alguma forma.

P.O.: Por se intitular a “Rainha Barbada”, muitas vezes pode vir a lembrança da figura circense da mulher barbada. Existe aí alguma referência direta ou é uma mera coincidência?

Ohana Azalee: A referência já foi mais direta, quando eu optei por usar barba, estando de drag, uma das minhas pretensões era ser Comedy Queen e eu queria adotar esse alter ego da Mulher Barbada que fugiu do Circo, mas com o tempo eu acabei encontrando MUITAS outras referências (não necessariamente barbadas) e isso me levou por outros caminhos.

P.O.: Assim como a imagem da Ohana confunde as pessoas e gera debate, também pode trazer comentários maldosos e preconceituosos. Como você lida com isso?

O.A: Sim, traz bastante, mas eu aprendi a não jogar holofote nesse tipo de comentário, principalmente na internet, eu simplesmente ignoro, nao leio, não respondo, não dou visibilidade, me faria muito mal.

P.O.: A música é capaz de coisas maravilhosas. De cura a relaxamento, de empoderar a ajudar a esquecer. Como você acredita que sua música possa influenciar as pessoas?

O.A.: Sim, com certeza, mesmo investindo em um seguimento mais “farofa” eu acho que a representatividade de ser negra, periférica e fora dos padrões impostos pela sociedade já me ajuda a influenciar e empoderar pessoas. Nem sempre a militância está explícita nas letras sabe, meu corpo é o meu manifesto e isso me ajuda a ser referência e a influenciar as pessoas. Em pouco tempo eu já recebi dezenas de mensagem de pessoas que não tem segurança para se assumir ou que sonham em fazer drag, mas não sabem como começar, e eu percebi que a minha imagem realmente abre muito o diálogo e eu me coloco sempre a disposição para falar sobre e para ajudar. Eu acredito que em algum momento eu não serei mais capaz de dar conta da demanda de mensagens que chegam, mas farei o possível pra responder o máximo porque eu sei que essas mensagens são enviadas com muita expectativa, então, sim, eu acho que minha música influencia sim, mas por todo o contexto envolvido.

“As minhas músicas chegaram para fazer bumbum mexer e a consciência estremecer!” – Ohana Azalee / Wallace Oliveira. Fotos: Lucas Gibson / Divulgação.

P.O.: Se fosse escolher um artista nacional para fazer uma parceria, quem seria e por quê?

W.O.: Olha, nesse momento existem 2 artistas com que eu sonho MUITO fazer alguma parceria. Um deles seria alguém que eu adoraria que produzisse uma música minha que é o Alok, eu acho o trabalho dele simplesmente incrível, mas se fosse para cantar comigo meu sonho de princesa é uma parceria com a IZA, por que ela é simplesmente maravilhosa, canta muito, é empoderadíssima, é linda, é negra, é sucesso e eu amo demais. Estou viciada em tudo que ela lança.

P.O.: O funk saiu das favelas, ganhou o mundo e virou uma “porta de entrada” para outros artistas – incluindo as próprias drags que se lançam como cantoras. Como você enxerga o movimento?

W.O.: Eu meio que acompanhei esse processo, porque eu também saí da favela e vi o preconceito com o funk fora de lá. Eu fui criada em uma favela na baixada Fluminense do Rio de Janeiro e lá minhas primeiras referências musicais foram funk, pagode e gospel. Eu aprendi a cantar muito cedo na igreja, aos 7 anos eu já estava em um coral infantil como solista e, nesse período, eu fui condicionada a achar que funk “não é música”. Aos 17 anos saí de casa e tive que aprender a me virar, e foi quando eu voltei a ter contato com o funk e também conheci o rap que são estilos periféricos marginalizados pela sociedade, e desde então eu me identifiquei porque era assim que eu me sentia. Eu fui afastado do meu círculo social, fui colocado a margem de tudo que eu considerava como meu meio e era mal visto igualmente, nesse momento eu tomei para mim o funk e o rap como forma de resistência. No início eu só ouvia, nunca imaginei que um dia eu produziria profissionalmente, pois mesmo depois de tudo que eu passei – toda a doutrinação que eu sofri na infância, ainda me faziam pensar que se um dia eu fizesse música eu teria que investir em um trabalho musicalmente mais melódico. E foi um processo longo perceber que isso era reproduzir preconceito e que o funk tá aí, e que não é nem um pouco fácil de produzir, que tem melodia e que o trabalho também é árduo. É por isso eu quero ter muito funk e rap no meu EP sim!

Para finalizar, pedimos para que o Wallace junto com a Ohana fizessem um mixtape. A partir dos 8 temas, que selecionamos você confere abaixo a escolha de uma música para cada tema e sua justificativa. Aqui já fica o nosso muito obrigado por nos conceder a oportunidade de conhecer ambos e o nosso desejo de sucesso para vocês. Agora, sem mais delongas, vamos fechando com as músicas escolhidas.

Lembra Minha Infância

Wallace – “Bye Bye Bye” do NSYNC, porque ele foi proibido de dançar na escola sob o pretexto de que homem não rebola e isso me marcou muito.

   

Ohana – “Curimin Iê Iê”, porque a Mara Maravilha foi minha primeira referência drag, ela quebrava todos os padrões da época, era a única apresentadora que não era loira, era nordestina, era uma representante com ancestralidade indígena, não se comportava como esperavam que ela se comportasse, era revolucionária. Eu cansei de botar a toalha na cabeça e ficar gritando que era filha da lua e do sol, é uma pena ela ter se tornado uma pessoa tão retrógrada e com o pensamento tão pequeno.

   

Para Tombar na Balada

Wallace e Ohana – Somos são unânimes,”PiriDrag” eu adoro essa música de verdade, eu tô muito orgulhosa de mim por ter criado essa música e não consigo imaginar uma música melhor para tombar na balada, fritar na pista e arrastar o bumbum no chão!

   

Escuto Todos os Dias

Wallace – Eu escuto pagode. Atualmente, estou viciado em Ferrugem, qualquer música dele, mas a preferida é “Paciência”, que é uma parceria com a Deusa Alcione.

   

Ohana – Estou ouvindo muito “Bumbum de Ouro” da Glória Groove.

   

É Old, But Is Gold

Wallace“Perfect” do Simples Plain é a música que mais lembra o pai (muitas questões pessoais envolvidas).

   

Ohana“Run to You” porque é um hino atemporal que não pode morrer.

   

Inspiração

Wallace “A Carne” da Elza Soares, essa música dispensa qualquer legenda, é maravilhosa por si só.

***Tivemos que colocar o vídeo do YouTube, porque não a encontramos no Spotify.

Ohana“Talento” da Linn da Quebrada, todas as músicas dela são maravilhosas e inspiradoras, mas essa em especial é a minha preferida por ser provocante e afrontar diretamente uma parcela hipócrita da sociedade, AMO!

   

Regravaria

Wallace – “Moleque de Vila” do Projota, por identificação direta com a letra.

   

Ohana“If I ain’t got You” da Alicia Keys, para mostrar para todo mundo que não sou só um corpinho bonito, tem muito talento envolvido, hahaha.

   

Indico

Wallace – “Flutua” do Jhonny Hooker em parceria com a Liniker. Inclusive, indico também o clipe que já está disponível no YouTube e tem a participação do maravilhoso Jesuíta Barbosa e, olha, é cada suspiro que eu dou. rsrs.

   

Ohana – “Joga a Bunda” da Aretuza Lovi com participação da Glória Groove e da Pabllo Vittar, com um Feat desse nem precisa justificar a despontar né?

   

Não Aguento Mais!

Wallace e Ohana: Não aguentamos mais “Surubinha de Leve” ou qualquer outra música que reproduza a cultura do estupro, o machismo e a misoginia.

***Essa decidimos não expor aqui pro motivos óbvios.

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