Por décadas a moda foi tachada como a cultura das futilidades e do descartável. Desde os anos 60, há uma sucessão interminável de tendências que vem e que vão. Quantas vezes já não amamos e odiamos o salto plataforma, por exemplo? Mas para cada vez que o salto saía de moda seu destino é o lixo, sem pensar duas vezes. Não é à toa a expressão que diz “fulana faz tal coisa como troca de roupa”, trocamos de roupa excessivamente. Depois de usada, a roupa foi por anos descartada sem ao menos uma reflexão sobre seu destino final.

São 5 as principais semanas de moda, cada uma gera pelo menos 10 tendências de estampa, tipo de tecido, acessório ou de streetstyle. Nossa fome de roupas novas é tanta que hoje as Fashion Weeks são “see now, buy now”, ou seja, ninguém aguenta mais esperar para que as peças novas cheguem às lojas, agora elas chegam no momento do desfile. Coleções prêt-a-porter e coleções cápsulas se multiplicam por que ninguém quer mais esperar para vestir.

Nessa ansiedade pelo novo e pelo mais, houve uma proliferação das lojas de fast-fashion, grifes como Zara, Forever 21 ou C&A, que oferecem a moda simplificada e rápida. Não há a necessidade de escolher um só estilo, como diz o slogan a Renner tem todos. A sua roupa, da sua mãe e do seu namorado estarão no mesmo lugar, as lojas contemplam a todos. E se a moda passar, na próxima semana você pode comprar a novo hype na mesma loja. Nem se quer é preciso pagar muito, a Riachuelo te oferece uma peça assinada por Karl Lagerfeld por menos de 200 reais. Talvez a durabilidade não seja a mesma que uma bolsa Lagerfeld original, mas não há com o que se preocupar: quando a bolsa estragar a Riachuelo vai te oferecer outra talvez até com um preço menor.

As lojas de fast-fashion seriam a solução de todos os nossos problemas? Até seriam. Seriam se não estimulassem uma cultura do imediatismo e consumismo que nos faz mal psicologicamente, faz que as relações humanas também sejam vistas como artigos descartáveis. Seriam se não fossem elas as responsáveis por 10% das emissões de carbono na atmosfera – peças de fast-fashion emitem 400% mais gás carbônico em sua produção que as peças normais, que podem ser usadas cerca de 50 vezes. Seriam se a fibra têxtil mais usada na fabricação das roupas de fast-fashion, o poliéster não demorasse cerca de 200 anos para se degradar. Seriam se a indústria têxtil que alimenta as marcas de fast-fashion não liderasse os casos de trabalho escravo no estado de São Paulo e não houvessem recorrentes escândalos sobre fábricas de roupas na Ásia que mantém seus trabalhadores em condições de trabalho escravo.

Contudo, assim como há uma onda de alimentação saudável se opondo à cultura dos fast-foods, há uma onda de moda sustentável se opondo à cultura do fast-fashion. Essa onda chama-se slowfashion, um termo cunhado em 2008 pela inglesa Kate Fletcher, consultora e professora de design sustentável do britânico Centre for Sustainable Fashion. Justamente inspirado no movimento de slow-food, o slow fashion incentiva que tenhamos mais consciência dos produtos que consumimos, retomando a conexão com a maneira em que eles são produzidos.

Essa forma de produção e de consumo estimula a tomada de tempo para garantir uma produção de qualidade, isto é, os produtos da moda slow, se são pensados para não serem substituídos rapidamente são também pensados para terem durabilidade e serem peças atemporais, peças que não se tornem cafonas da noite para o dia.

Se a ideia é não trocar de roupa a cada instante, a slow fashion também propõe um guarda-roupa de personalidade forte. Quando não há preocupação em seguir tendências efêmeras há a preocupação em formar um estilo consolidado, isto é, a moda slow é também uma moda centrada no indivíduo e suas características próprias.

Sendo centrada nas características de cada um, essa forma de consumo é ligada ao conceito de diversidade social e cultural: se não existem hypes voláteis a moda deve abarcar a todos, independentemente de idade, gênero ou formato do corpo.

Mas a característica principal do movimento slow fashion é a responsabilidade ecológica: há uma consciência ambiental (e social) desde o momento da extração da matéria prima até o descarte das peças. A moda slow propõe uma cadeia de produção mais interligada, em que a grife estampada na etiqueta tenha conhecimento de todas as etapas da produção do seu produto e, com isso, haja mais preocupação com a sustentabilidade. Já foi o tempo em que as empresas exibiam um selo verde, mas suas fornecedoras eram agressoras do meio ambiente. Hoje quando uma etiqueta se diz verde toda a sua produção – e até o seu descarte – também deve ser.

O slow fashion ainda é um movimento novo, só tem nove anos, e o fast-fashion ainda impera. Mas o verde está em voga já há algum tempo, e não há razão para que ele não entre de vez na moda.