O Shopping Cassino Atlântico abriga hoje em dia lojas e feira de antiguidades aos sábados de manhã, mas, na década de 1930, o local era palco de todos os tipos de jogos de azar, especialmente roletas, black jack e carteado. Sua atmosfera de esplendor atraía a parcela sofisticada da sociedade, contando com shows de renomadas atrações nacionais e estrangeiras. O grande point foi desfeito em 30 de abril de 1946 quando o presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu o jogo de azar em todo o país, e o espaço dos prédios onde funcionavam os cassinos é atualmente ocupado pelo Shopping e pelo Hotel Softel, ambos na Avenida Atlântica. Desde 28 de outubro até 18 de novembro, em seu subsolo, o ambiente recebe a exposição “Un Eterno Viaje”, de segunda a sexta, 11h às 20h, e sábado, 11h às 18h. A entrada é gratuita.

Na Galeria Nox de arte contemporânea está exposta a mostra “Un Eterno Viaje”, do artista cubano Jorge Mayet. Nascido em 1962, em La Havana, Mayet teve que abandonar sua terra natal e se exilar em Mallorca, na Espanha, país no qual ele vive atualmente. O artista cria esculturas flutuantes e surreais de miniaturas de casas, árvores e raízes, usando papel machê, tintas, fios e metais. A saudade de Cuba é tema central em sua obra, não apenas através do sentimento de perda, mas também da idealização do que ficou para trás. É normal que nas memórias afetivas, como as relativas à infância, as partes ruins sejam cada vez mais esquecidas e diluídas devido ao distanciamento tanto físico quanto temporal, dando lugar para uma nostalgia e uma romantização do passado. O trabalho de Mayet reflete sobre as questões que permeiam a imigração, como o abandono da terra natal, a perda e a esperança. Ele começou sua carreira com pinturas que aos poucos abriram espaço para suas atuais esculturas e instalações, e suas obras fazem parte de importantes coleções, museus e galerias ao redor do mundo, como em Londres, Nova Iorque e Xangai.A mostra, apesar de original e muito bonita, é pequena, então talvez não seja um programa em si mesma.  Aqueles que chegarem na galeria esperando ver muitos trabalhos do artista irão se decepcionar com o tamanho da exposição, mas a beleza e a sensibilidade desta ainda serão cativantes. Para aproveitar a ida à galeria, recomendamos que os interessados a visitem em um sábado, quando podem observar as obras e depois dar uma olhada na feirinha de antiguidades que ocorre lá no Shopping Cassino nesse dia, e conhecer o ambiente. A exposição é composta de duas instalações representativas do trabalho do artista plástico: “Bohío” e “Ceiba”, ambos nomes de elementos da paisagem cubana, sendo a primeira de uma moradia e a segunda de uma árvore. A técnica do artista é influenciada pelas habilidades locais da região e pelo misticismo da religião Iorubá, que se espalhou pela América Latina. “Meu trabalho é sobre a interminável necessidade de expressar momentos que marcaram meu passado e influenciaram meu presente. A maior parte de minhas experiências de vida vem de Cuba. E estas são as inspirações para meu trabalho. Minhas instalações são encarnações de minhas experiências. Elas permanecem indefinidamente suspensas por fios invisíveis, como os que me ligam com minhas memórias e minhas raízes”, explica Mayet.

Podemos ver, ao entrarmos na primeira sala da Galeria Inox (e até do lado de fora dela, pois as portas são de vidro), pequenas casas suspensas no ar que contam com raízes longas e expostas e asas compostas de galhos e lindas penas azuis. O nome dessa casa típica é “Bohío”, moradia dos camponeses cubanos construída a partir de troncos e folhas de palmeira real, e ela representa a arquitetura rural típica de Cuba. Os cidadãos mais humildes, com pouco dinheiro, fazem as paredes de suas casas a partir do tronco da palmeira, e o telhado, das folhas. Ao todo são 6 bohíos flutuando e uma que está ainda se desprendendo da terra, e começando a alçar voo, com suas raízes ainda conectadas a um pedaço do campo. É como um avião que está deixando a pista, decolando de uma ilha, o que simula a fuga da terra, e inclinando-se para o início da viagem.  “É um pouco como eu me sinto até hoje. Para levantar voo, tive que arrancar minhas raízes, ir embora de Cuba”, conta o artista. O trabalho é, ao mesmo tempo, nostálgico, delicado e visualmente hipnotizante, pois carrega um caráter etéreo, como a visão de um sonho. As raízes expostas das árvores podem ser uma reflexão sobre a diáspora, sobre levar suas raízes para onde quer que se vá, apesar de desplantadas, retiradas do lugar onde se desenvolveram. O trabalho é uma metáfora pessoal sobre exilo e libertação, como se o artista vivesse em dois mundos: desenraizado e ainda crescendo e florescendo. “Talvez subconscientemente, eu viva como uma árvore arrancada de suas raízes e nesse sentido minhas instalações são uma metáfora para minha vida, mas num nível consciente, eu acredito que temos que valorizar cada parte dessa Terra que nos pertence, porque é a partir dela que nós conseguimos viver”, ressaltou o artista, que mostra também, através de sua temática, que envolve a cultura do seu povo, o respeito à natureza. Para seu povo, a terra tem uma grande importância, tanto física quanto espiritual. A bagagem de Mayet é composta, assim, por essas questões espirituais, culturais e mentais que lhe envolveram e que vão acompanhá-lo para o resto de sua vida, assim como as paisagens que ele deixou para trás, as quais permanecem vívidas em sua memória.

A outra escultura é a “Ceiba”, uma árvore muito popular em Cuba. Essa instalação, assim como a anterior, é pendurada por um fio de nylon e movimenta-se levemente influenciada pelas correntes de ar. Ela é composta de uma árvore sem folhas e com longas raízes expostas cobertas de plumas. Tanto as plumas quanto a estrutura da árvore são brancas, o que concede uma atmosfera espiritual, sendo a parte principal da árvore recoberta de um tom branco gelo, que dá um aspecto de algo glacial e morto, mas quase celestial. O sentimento é de estar diante de algo realmente intermediário entre a vida humana e o plano dos mortos, uma conexão entre nosso mundo e algo superior. O texto de Juliana Almeida sobre a exposição fornece informações para que os visitantes entendam um pouco mais sobre a importância desse símbolo para a cultura local. O exemplar mais famoso de Ceiba está localizado há mais de 50 anos em uma praça chamada El Templete, ponto inicial da cidade de Havana e um marco na cidade. A Ceiba é uma árvore sagrada e mística, uma árvore Deus – Iroko, segundo a religião Iorubá –, e acredita-se que o destino, a saúde e o desenvolvimento na vida dependerão dessa árvore, cujas folhas são habitadas por entidades e espíritos. Essa Ceiba, segundo Mayet, era rodeada três vezes no sentido anti-horário em todo 16 de novembro e abraçada ou tocada enquanto os desejos eram solicitados. No texto de Juliana, é dito que o costume de venerar a árvore foi trazido a Cuba pelos africanos, mas os povos originais, como os maias, já o tinham – estes plantaram uma Ceiba no centro de suas comunidades e, sob sua folhagem, celebraram os ritos sagrados. Para os cubanos em geral, independente da religião particular de cada um, a árvore simboliza vida, perpetuidade, grandeza, bondade, beleza, força e união.

O trabalho do artista é um delicado retrato da conexão com sua terra, espiritualidade e abandono, e nos transporta para uma dimensão entre o real e um sonho – ou melhor, uma memória. Entre a idealização das plumas e a realidade das casas humildes, nos conectamos à dor e à beleza do vivido por Mayet, e podemos nós mesmos refletir sobre a relação como nossa terra natal e as raízes que nos ligam a ela. Com as casinhas girando como pêndulos sobre nós, somos ninados e hipnotizados pela poesia que é uma obra recheada de emoção e lirismo. “É um pouco como me sinto, flutuando para um lado e para o outro. Cada dia estou em um lugar”, disse Mayet, evidenciando a relação dos fios e das asas nas obras com seu sentimento de nomadismo e voo constante. Isso remete ao título da mostra, “Un eterno viaje” (Uma viagem eterna), pois, ao abandonar seu país, lugar onde o artista tinha suas raízes fixadas, ele está eternamente viajando e sendo um turista, já que nenhum outro lugar é sua casa de verdade. Ele está vagando sem rumo, como as pequenas casas aladas sobre nossas cabeças, que se movimentam, giram, balançam, mas nunca conseguem pousar em lugar algum. A viagem eterna.