Falar de amor é sempre bastante delicado. Isso porque o tema, complexo por si só, tende a divergir opiniões em qualquer situação, contexto ou mesa de bar. Há quem suspire e se derreta de emoção, há quem odeie e sinta calafrios só em pensar sobre.

Mas há uma explicação para tal. Vivemos numa sociedade em que nos foi ensinado desde muito cedo que devemos encontrar o par perfeito – este ser que mudará nossas vidas para sempre e preencherá os dias vazios. Fixamos naquilo que sempre ouvimos falar: o ideal de amor romântico.

Esse amor prenuncia que as relações devem envolver paixões desenfreadas, interdependentes, intensas. uma forma de amar que rende sacrifícios incontáveis, capaz de tudo, que passa por cima dos erros. Aquela ideia – antiga – do recomeçar, do “fazer dar certo” sempre que o trem sai dos trilhos.

E aí, a linha extremamente tênue que existe entre o amor e o sofrimento começa a se tornar um emaranhado de emoções. Isso nos prova que o amor que nos fizeram acreditar desde sempre até existe. Mas só tem um problema: é o amor errado.

Essa visão deturpada que o sofrimento é parte indissociável do amor que você sente pelo seu par faz você viver em uma realidade paralela. Você cria a personalidade da outra pessoa, cria a pessoa que gostaria de amar e ignora quem ela realmente é e o que ela realmente faz.

E, em meio a tudo isso, você vai diminuindo, se perdendo, ficando invisível. Tudo é difícil. Nesse amor não tem partes fáceis. Mas afinal, não é assim que tem que ser? Nós precisamos, com a nossa força e sensibilidade, lutar para mudar essa pessoa, lutar para que ela nos ame. É algo como ter sempre que convencer a si mesmo(a): estou me acabando, suportando tudo isso porque o(a) amo, então uma hora ou outra ele(a) vai perceber e mudar, me amar do jeito certo!

O caso é que essa luta só termina de um jeito: a gente perde. Perde tempo, energia, juventude, oportunidades. Até que a única coisa que resta é seguir em frente, totalmente vazio(a) e descrente.

Mas vai ter um dia – e sempre chega esse dia – que a questão não é mais entender o que aconteceu, é entender o que é amor.

Pode ser lentamente, ou bem rápido, num clique. Pode ser sentada no metrô voltando pra casa depois de uma noite esquisita. Mas essa sensação alivia, preenche e dá um pouco de esperança – embora seja irritante perceber que você nunca sofreu por amor, porque, no final das contas, aquilo nunca foi amor.

Porque amor tem a ver com a vida, com a vontade de permanecer vivo, não com o fundo do poço onde alguém vem de vez em quando e joga algumas migalhas.

Amor tem a ver com se olhar no espelho e querer cuidar do rosto que você vê porque ele é precioso demais.

Se for para amar alguém, que seja o amor que você dá aos cuidados que tem consigo mesmo(a).
O amor tem que estar nos momentos mais singelos. No preparo do seu bolo favorito para você. No novo penteado que você estava planejando há muito tempo e nunca teve coragem de fazer. No curso de zumba que você adora. Nas viagens que faz e se diverte mais do que em qualquer outro momento.

Isso nada tem a ver com sempre jogar tudo para o alto e não acreditar que a sua relação possa dar certo. Ela pode dar, todo casal passa por dificuldades e momentos difíceis. Mas a questão está em uma única pergunta: é esse amor que estou vivendo que quero para mim ou isso seria somente apego? (O que, aliás, renderia história para outro texto). Eu mais sofro do que me mantenho feliz? Epa, então alguma coisa está errada.

Porque amor que é amor – o genuíno – não prende, não machuca, não ofende. No documentário Eu Maior (2013), a monja Jetsunma Tenzin Palmo explica, de forma bastante singela, a diferença entre o amor genuíno e o amor romântico. Ela diz:

O apego diz: ‘Eu te amo e por isso eu quero que você me faça feliz. E o amor genuíno diz: Eu te amo e por isso quero que você seja feliz. Se isso me incluir, ótimo. Se não me incluir, eu só quero a sua felicidade’.

O importante, por fim, é entender que se amar vem antes do amor de outrém. Porque, assim, quando esse amor de fora chegar, você sentirá se ele veio mesmo para somar. Afinal, não devemos procurar quem nos complete, mas sim quem nos transborde.

Amor é fácil.

Nos ensinaram tudo errado, mas dá tempo de aprender de novo. Isso eu garanto.

Boa sorte!

P.S. da redatora: para conferir todos os vídeos do Eu Maior, acesse o canal no YouTube.