Que as aparências enganam todo mundo está cansado de saber! Quando vemos o pessoal trabalhando super sorridente nos eventos recebendo o público e tirando fotos com todos os visitantes, fica difícil imaginar a vida de cada indivíduo ao sair daquele ambiente e entrar de volta no mundo real, quantas lágrimas podem existir por trás daqueles sorrisos… Em “Uma Morte Horrível”, a autora Pénélope Bagieu nos apresenta um desses casos em uma HQ maravilhosa.

Conheça Zoé, uma jovem que mal passou dos seus 20 anos, trabalha muito em algo que não gosta nem um pouco (quem nunca?) e como se não bastasse isso, ainda tem um namorado grosso que só ele, desempregado e à toa na vida. Conheça agora Thomas, um renomado escritor que não consegue avançar uma linha em seu trabalho há um bom tempo por falta de inspiração (quem nunca também, né?). Um intelectual em busca de novas ideias e uma jovem que nunca se interessou por nenhuma leitura se encontram e as coisas mudam radicalmente para ambos, e em meio a tudo isso, Thomas esconde um segredo que, se revelado, causará um transtorno sem tamanho!

Pénélope Bagieu consegue cativar o leitor com sua protagonista logo nas primeiras páginas, pois sabe como contar uma história. A autora nasceu em Paris, em 1982. Estudou cinema de animação na EnsAD (Escola nacional superior de Artes Decorativas) e em 2007 criou um blog ilustrado sobre sua própria vida com muito humor, o “Ma vie est tout à fait fascinante” (Minha vida é realmente fascinante). A artista teve o conteúdo de seu blog publicado em forma de livro, e isso foi apenas o começo. Depois disso, já trabalhou em grandes campanhas publicitárias e assina até uma coleção de lingerie! Essa é sua primeira narrativa longa, e não poderia ter sido melhor!

A artista gosta de manter sua arte simples e bela. Os traços, as cores, os balões, os quadros e os diálogos, todos estão em perfeita harmonia, mas o que mais chama atenção em todo esse trabalho são as expressões dos personagens, principalmente quando se trata da protagonista, Zoé. Seus olhos grandes nos transmitem exatamente o que ela está sentindo. Podemos ver a alegria, a tristeza, a raiva e todos os seus sentimentos através dessas enormes e lindas janelas para a alma da personagem. Os tons pastel tornam a história leve e agradável aos olhos, e em cada cena as cores contribuem com o clima, seja esse mais animado, tenso ou melancólico.

O roteiro é bem construído e merece uma segunda leitura, pois há algumas dicas que os personagens dão sobre suas personalidades e segredos que muitos só perceberão após uma visão geral da trama, mas não podemos falar muito mais sobre isso sem gerar spoilers, então, fica a dica! Sobre os personagens, são divertidos e bem construídos, mas com uma história tão cheia de reviravoltas, é muito fácil ter uma primeira impressão errada sobre eles! Ah, ainda sobre as reviravoltas, esse é um dos pontos mais positivos da HQ, que quando a gente pensa que vai por um caminho, nos surpreende com outro, e isso segue até a última página.

O clima da história lembra um pouco a excelente animação “Rhapsody in Blue”, segmento de “Fantasia 2000” que também apresenta indivíduos infelizes em uma sociedade estressada e indiferente. O curta foi dirigido por Eric Goldberg, que aproveitou para homenagear o cartunista Al Hirschfeld. Embora as narrativas sejam bem diferentes, as duas nos apresentam a frustração que às vezes sentimos vivendo em uma sociedade que pouco se importa com o indivíduo.

Então é isso, “Uma Morte Horrível” foi publicada pela Editora Nemo em 2016 e está disponível para leitura na plataforma digital Social Comics! A mais nova obra de Pénélope é “California Dreamin’: Cass Elliot Before The Mamas & the Papas”, que traz Cass Elliot a famosa vocalista do “The Mamas & the Papas” de uma maneira jamais vista! Imaginando que a obra tenha a qualidade que vimos em sua primeira narrativa longa, queremos o lançamento aqui no Brasil pra ontem!