A reputação de Stephen King não é mais segredo, então vamos direto ao assunto:
“Mr. Mercedes”, o início da trilogia Bill Hodges, seguido por “Achados e Perdidos” e finalizado em “Último Turno”, traz o mestre americano do suspense e terror em sua melhor forma ao narrar a luta do bem contra o mal por personagens humanamente imperfeitos.

A história traz o detetive recém-aposentado Kermit “Bill” Hodges, em profunda depressão, considerando suicídio. Sua mente é atormentada por um caso não resolvido: um atentado no qual um Mercedes roubado, dirigido por um assassino desconhecido, tirou a vida de oito inocentes e deixou diversos feridos. No entanto, ao receber uma carta de alguém que diz ser o assassino, Hodges sai de sua depressão e começa a investigar.

Em contrapartida, temos os sombrios capítulos que narram a história pelo ponto de vista do “Assassino do Mercedes”, Brady Hartsfield. Esta escolha resulta num personagem tão bem-construído – e com a vida tão destruída – quanto o protagonista. Entendemos o que o levou a ser um assassino em série, e o leitor fica livre para julgar se ele é uma vítima das circunstâncias ou se já havia uma tendência ao mal. Sua conturbada história de vida é apresentada de forma não apelativa, marcada pelos típicos requintes de crueldade do passado dos vilões de King.

A alternância entre os pontos de vista de protagonista e o antagonista cooperam para uma narrativa ágil e igualmente interessante, nos dois lados. Você quer saber o que o assassino está fazendo, como e porque.

É interessante entender como Brady não está “magicamente” se dando bem, como acontecem com vilões em tantas histórias; e sua personalidade conturbada tanto ajuda quanto atrapalha em seus planos. Hodges conta com a experiência e seus aliados improváveis – seu jovem vizinho, Jerome, Janey, irmã da falecida dona do carro usado no atentado e sua prima, Holly. Todos personagens, aliás, são pessoas com as quais podemos nos identificar: tem seus medos, pontos fortes e planos de vida.

O melhor do livro, no entanto, fica ao final, quando o Assassino do Mercedes, cada vez mais pressionado pelas investigações, torna-se crescentemente instável e perigoso. A narração fica acelera, sem deixar o leitor para trás e construindo tensão. Caberá a Hodges, com a ajuda de seus aliados, impedir que ocorra outro atentado – um pode causar muito mais que oito mortes.

Essa combinação do tradicional suspense de King, com doses sóbrias de humor (e pesadas de crueldade) e personagens cativantes, nos promete também uma excelente sequência. Como dissemos no começo: o mestre em sua melhor forma. Ele é um escritor mais que experiente e quem acompanha sua obra há algum tempo irá identificar elementos familiares, que em vez de sugerirem falta de criatividade ou reciclagem, emanam reinvenção. Para novatos, é um ótimo ponto de partida, por mostrar da melhor forma, como se manter relevante por tanto tempo.

“Mr. Mercedes”
Autor: Stephen King
Tradução: Regiane Winarski
400 páginas
Editora: Suma de Letras