A última parte da série sobre os clássicos do Cartoon Network vai terminar com uma das animações mais importantes para a construção da identidade de muitas crianças dos anos 90: “Coragem, o cão covarde”. Esta animação, na nossa opinião, é a mais completa do Cartoon Network, principalmente por conta dos inúmeros temas que são discutidos que são tabus, ou também presentes no dia-a-dia da nossa sociedade. Agora, fugindo das teorias da conspiração que cerca Coragem, vamos analisar o que está animação fala da nossa sociedade.

Seja o que quiser ser

Apesar de estarmos no século XXI, uma ideia muito ultrapassada que ainda tem muita influência na nossa sociedade é a escolha por parte de outras pessoas sobre as decisões dos outros. Em Coragem, é muito claro como alguns personagens são tomados a agir de determinadas maneiras para poder agradar uma pessoa ou um grupo. Em dois momentos, isso ficou muito claro. Em um dos episódios, os irmãos patos vem à Terra para conquistá-la. E, como tudo que acontece na animação, eles acabam parando em Lugar Nenhum. Entre brigas e conflitos, Coragem descobre que os irmãos patos não queriam dominar o planeta, como lhes era imposto. O único desejo dos personagens era serem músicos.

Outro episódio que fala de escolhas – e também de dominação global – é do robô Randy. Na história, por conta da péssima habilidade de Randy em executar qualquer coisa, o robô recebem a missão de dominar o planeta Terra, e lá, criar seu próprio reinado. Mesmo invadindo e dominando as pessoas, Randy não se sentia completo. Foi então que Coragem descobriu qual era o verdadeiro desejo do robô: ser escultor. Então, o cachorro incentiva Randy a enfrentar os outros robôs e mostrar seu talento. Randy, então, enfrenta os robôs e acaba ganhando o reconhecimento deles.

Esse dois casos ilustram o que se passa com muitos jovens hoje em dia. Existe ainda uma imposição muito forte em algumas família quanto às escolhas profissionais e pessoais dos jovens. Estes dois episódios mostram que, decisões impostas, não fazem as pessoas sentirem-se realizadas. Apenas a própria decisão sobre aquilo que ama pode trazer satisfação.

Por trás da máscara

Um dos episódios mais polêmicos de Coragem, “A Máscara” trouxe ao público a discussão sobre a violência contra as mulheres e até a homossexualidade.

Um detalhe: o episódio foi censurado nos EUA por conta da violência e dos diálogos.

Voltando ao episódio, uma criatura com uma máscara no rosto chega à casa de Muriel pedindo ajuda. Sua amiga estava sendo mantida presa por cachorros. Por conta disso, a personagem, que sem a máscara tem o rosto de um gato, se revolta contra todo e qualquer tipo de cachorro, sobrando para o próprio Coragem. Vendo a situação da gata, o cachorro vai ao encontro do cativeiro para tentar resgatar a amiga da criatura mascarada. Ele enfrenta os cachorros e a liberta, fazendo assim com que as amigas fujam juntas.

Ao analisar o episódio é possível perceber que a situação da gata é o que muitas mulheres passam todos os dias. São colocadas em cárcere, sendo violentadas e humilhadas pelos parceiros. Os cachorros representam os homens, isso explica o porquê do ódio de gata contra os cachorros. Outro ponto é a interpretação da relação das personagens. Durante o episódio, diálogos demonstram que as amigas tinham uma relação muito íntima. O que levou a interpretação de um relacionamento homossexual entre elas. A própria questão da máscara seria uma metáfora para indicar que ela esconde o que verdadeiramente é para não ser reprimida pela sociedade? Bem, isso só o autor pode responder. Mas há vários pontos em que se dá para refletir em cima.

Perfeito

O que seria ser prefeito? A perfeição é um estado ou uma condição? Sem dúvidas, esse é o ponto que é complexo até para filosofia. Mas, em Coragem, a perfeição é debatida com maestria. Para compreender a abordagem do tema, citarei dois episódios. O primeiro e um dos mais perturbadores da série, “Perfeito”, sim este é o nome do episódio, conta a história de um espírito em forma de professora que tenta ensinar Coragem e sua família, considerada repleta de defeitos, a seguir um padrão e normas consideradas perfeitas. A base como isso ocorre é controversa. A mulher humilha e agride Coragem para que ele possa atingir a meta. O grande ponto é que nem Coragem e nem sua família consegue chegar ao estado de perfeição. Para derrotar a criatura, Coragem tem uma sacada genial. Ao final do episódio, todos percebem que a maior perfeição é a imperfeição de cada um e os laços que construíram. Na nossa sociedade, um modo de vestir, de andar, de falar, de agir, pode ser considerado perfeito, simplesmente porque um grupo determinou como padrão. Mas o padrão quem cria é cada um e não um sistema que tenta mostrar sempre o contrário.

O segundo episódio é um dos mais belos entre todas as animações que já assisti. “O Corcunda de Lugar Nenhum” é a versão da animação para o clássico da literatura francesa. Mas do que isso, é uma aula para pensar sobre o diferente, sobre o que está fora do padrão. Nele, um corcunda bate na porta de Muriel pedindo moradia por uma noite por conta das fortes chuvas na região. Isso depois de ser rejeitado por várias casas por ser considerado “feio”, “monstro” e “aberração”. Muriel e Coragem, por sua vez, não o enxergam da mesma forma e acabam criando um laço muito forte com o homem. Eustácio, ao contrário, vê o pobre homem como os outros cidadãos o vêem. Por conta disto, Eustácio e o Corcunda acabam se confrontando, onde é apresentado, na verdadeira, o que é a verdadeira feitura, aquela que está no carácter. Bem, depois dessa descrição não é necessário explicar muito a forma que existe neste episódio.

Coragem apresenta muitas outras temáticas que renderia um livro. Essas foram apenas algumas para ajudar na reflexão desta animação. Este foi o último episódio da série sobre a subjetividade nos clássicos do Cartoon Network. Se você gostou, comente na página. Não esqueça de deixar sua crítica e sugestão. É sempre muito importante.