A CAIXA Cultural é um espaço com proposta de proporcionar aos brasileiros o acesso a uma diversidade de manifestações da arte e da cultura nacionais, e também de estimular o intercâmbio cultural, assim patrocinando eventos de artistas de outros países. São realizados espetáculos de música, dança, teatro e exposições de artes visuais, todos gratuitos ou com preços acessíveis. De 10 de janeiro a 4 de março, a CAIXA Cultural Rio de Janeiro recebe a mostra coletiva “Superfícies Sensíveis | Pele | Muro | Imagem”, que reúne trabalhos de 21 artistas contemporâneos brasileiros. Com curadoria assinada por Ícaro Ferraz Vida Jr. e Laila Melchior, são expostos vídeos, pinturas e fotografias, totalizando 20 obras distribuídas pelo salão do segundo andar. O centro cultural está na Avenida Almirante Barroso, 25; pertíssimo da estação de metrô Carioca. A entrada da exposição tem classificação indicativa de 14 anos, é gratuita e de terça a domingo, das 10h às 21h.

A temática da mostra, que gira em torno da superfície como potência, possibilidade crítica e estética e lugar de investigação, é debatida através de obras realizadas exclusivamente no século XXI, ou seja, são diversos pontos de vista e discussões debruçadas sobre um período de tempo recortado. A globalização e a nossa nova relação com a tecnologia tiveram impactos nos âmbitos social, econômico e político, o que também mudou a forma como encaramos o espaço. Estamos a todo momento cercados por muros, concreto, paredes. Somos inundados por imagens publicitárias que urgem por nossa atenção e querem captá-la o máximo de segundos ou minutos possível. O release da mostra justifica a presença de cada um dos três elementos chaves no estudo da superfície:

“A pele é nosso maior órgão e quase todo contato humano é realizado com sua mediação; o muro abriga os corpos, delimita interditos por força de sua extensão, comunica e separa diferentes tipos de espaços; a imagem, por sua vez, habita o mundo de tal modo que ora as atravessamos, ora somos barrados por elas”.

Com a pele sentimos e vivenciamos, pelo muro somos expulsos, incluídos ou confinados, e com a imagem temos uma relação conflituosa. Esses três componentes são articulados de diferentes maneiras nas obras, discutindo as fronteiras entre corpo e cidade: como é feito o encontro entre o humano e o urbano, suas interações, tensões e desafios diários. O que por vezes nos é passado despercebido, como os detalhes da topografia da cidade, aqui é o foco de nossa atenção.

Obra “Notas públicas”, de Íris Helena.

Logo no início da exposição, nos deparamos com um texto discutindo a palavra “superficial”, que compõe o título da mostra. Tal adjetivo costuma ser usado para desqualificar algo ou alguém supostamente desprovido de valor, se contrapondo com o aspecto positivo destinado ao que é “profundo”. Esse modo de enxergar o superficial talvez tenha nos impedido de observar mais cuidadosamente a superfície, de restituir sensibilidade a ela. A frase de Paul Valèry propõe que, no humano, o que há de mais profundo é a pele.  Na exposição, nos deparamos com trabalhos que exploram os significados desse orgão, como na “Série Patchwork”, de Raphael Couto, em que o artista transforma a própria pele em tecido ao costurar retalhos diretamente sobre ela. A ideia de que superfície é o que esconde algo por trás, aquilo que não nos mostra o todo, é posta de lado na exposição, como aponta o curador Ícaro Ferraz, que, em entrevista ao Jornal “O Globo”, contou que a mostra é um elogio à superfície ao destacar o que ela tem de profundo, o quanto ela tem a nos dizer. Na obra em vídeo “Minha própria lua”, de Fernanda Gomes, a artista numera as pintas de seu corpo e passeia com uma câmera sobre sua pele, em um ângulo que nos remete a um vídeo de exploração espacial. Em entrevista ao mesmo jornal, Fernanda contou de onde veio a inspiração:

“A ideia foi criar uma cartografia do meu corpo. Em espanhol as pintas são chamadas de ‘lunares’, e, quando morava em Barcelona, alguém me perguntou se já havia contado quantas eu tinha. Acabei usando isso e numerando cada uma delas, como se fossem constelações. Ha ainda uma relação poética com o fato de constituirmos universos próprios”.

A obra que pode ser considerada a mais pesada da exposição também é um vídeo. “Base para unhas fracas”, de Alexandre Vogler, discute a abordagem sexista do corpo feminino na publicidade, e faz isso ao criar um falso cartaz de propaganda de esmalte em que a atriz Marcella Maria cobre a vulva com as mãos. No vídeo, a acompanhamos enquanto ela caminha nua pela cidade, usando apenas salto-alto, e cola a propaganda falsa na rua, constituindo, assim, uma crítica à exploração e apropriação do corpo feminino pela publicidade, algo já normalizado na sociedade.Quanto aos muros, a reflexão levantada pelos artistas é a da cidade como uma zona também de atrito. Se tentarmos enxergar o ambiente urbano com um olhar de estranhamento, talvez notemos as fronteiras imaginárias, as linhas invisíveis que separam bairros, os muros que dividem espaços, os concretos que delimitam os caminhos. Nunca nos perguntamos o porquê das coisas estarem onde estão e quem as colocou ali, pois crescemos nos moldando a partir do desenho das cidades, nos adaptando aos delineamentos urbanos. Nessa mostra, os artistas abordam diversos aspectos de nossa relação com as estruturas que nos cercam. Alguns trabalhos discutem a permanência e a transformação, mostrando como o tempo atua sobre as superfícies e as modifica, e um exemplo disso é uma parede repintada que, ao ser descascada, nos conta todo seu histórico de ações, todas as suas marcas da passagem do tempo. É isso que a obra “Ruína #4”, de Manoela Medeiros, parece apresentar com suas camadas de cores sobrepostas expostas, escavadas, cujos resquícios estão espalhados aos pés da parede. Outro trabalho, o de Matias Mesquita, nos mostra o contraste do concreto duro e frio com a delicadeza de pinturas à óleo, feitas sobre este, retratando nuvens e tempestades no estilo de quadros antigos. Já Járed Domício usa a imagem para ressignificar uma cena comum do cotidiano, a de um funcionário que varre as ruas com sua vassoura de palha. Dessa vez, a vassoura está apontada para o céu e o trabalhador varre as nuvens, assim tirando seus olhos do concreto e os direcionando para uma paisagem mais limpa e agradável.

Em um vídeo para o “Canal Curta!” do Youtube, a curadora Laila Melchior explica a proposta da mostra:

“Essa exposição tenta reunir obras de artistas contemporâneos que trabalhem a partir da ideia de superfície, e a gente pensou em três superfícies paradigmáticas de onde que a gente poderia trabalhar, e elas são: a pele, o muro e a imagem. Se a gente pensar, a pele (…) quase todo nosso contato com o mundo é feito a partir daí; os muros separam e comunicam espaços, enfim, os muros são as nossas cidades, e eles tão dizendo coisas o tempo todo, eles interditam coisas, eles permitem determinadas passagens; e as imagens também, são as imagens aquilo que nos barra, que nos faz passar, penetráveis às vezes, às vezes não”.

A sensibilidade trazida para a pele, o muro e a imagem, através dos olhares dos diversos artistas dessa exposição, nos empresta um novo óculos para percebermos nosso entorno e até nós mesmos. Mergulhe nas obras e descubra como o superficial pode ser profundo.

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