Tarados em Caetano – Qualquer maneira de amor vale à pena!

Aqui falamos sempre sobre um novo espetáculo da temporada, deixando o leitor informado sobre tudo o que está acontecendo atualmente nos palcos e embaixo dos holofotes. Hoje vamos expandir um pouco para falar sobre o maior espetáculo do mundo: o carnaval! E que tal juntarmos a isso um dos maiores compositores da música popular brasileira? É isso mesmo! O Bloco Tarado Ni Você, primeiro bloco dedicado ao cantor Caetano Veloso no Carnaval de rua da capital paulista, realiza shows e desfiles sempre exaltando a obra do compositor baiano e arrasta milhares de foliões fãs do seu repertório consagrado. O bloco, organizado pelo fotógrafo Thiago Borba, o artista Rodrigo Guima e a empresária Raphaella Barcalla, encontra com o público na esquina da Avenida Ipiranga com a Avenida São João, local imortalizado pela canção “Sampa” que é quase o segundo hino da cidade. Com arranjos originais para canções já conhecidas pelo grande público o grupo vem aumentando seu público ao longo dos carnavais e é sucesso de crítica. Para os foliões fãs da música do artista, as apresentações do Tarado Ni Você são um prato feito: boa música e diversão garantida!

Apesar de intensificar os trabalhos no carnaval, o bloco se apresenta o ano inteiro em locais fechados e até já se apresentou no Chili Beans Fashion Cruise, um evento dentro de um navio, em um cruzeiro, e na Virada Cultural de São Paulo. Recentemente, realizou o Tarado Na Praia onde tocaram em pleno sábado de sol em evento que simulava uma praia no meio da cidade com o público vestido a caráter: sungas e biquínis. Eu conversei um pouco com Thiago Borba e Rodrigo Guima, dois dos criadores do projeto. O nosso bate-papo vai de carnaval a política e esclarece um pouco as intenções do surgimento do bloco. Parafraseando Caetano: “Minha mãe me deu o mundo de uma maneira singular me dizendo uma sentença: sempre peça licença, mas nunca deixe de entrar!” E em fevereiro de 2017, o compositor adentra as ruas de São Paulo na boca do povo!

Foto de Victor Moriyama

Bate-papo com Thiago Borba e Rodrigo Guima

Pach – Como surgiu a ideia de criar o bloco?

Rodrigo Guima – Surgiu através do Thiago Borba que queria criar um bloco que homenageasse o Caetano Veloso e queria fazer um carnaval baiano aqui em São Paulo e, num desses encontros de vida paulistana, a gente acabou colocando esse projeto na rua juntos…

Thiago Borba – A idéia surgiu no carnaval do Rio em 2011, quando eu e um grupo de amigos tentávamos puxar músicas de Caetano nos bloquinhos de rua e os cariocas não acompanhavam! Até que começamos a brincar que tínhamos que fazer nosso bloco, só com músicas do Caetano… A idéia nasceu de uma brincadeira das ruas, mas até ganhar vida levou uns 2 anos, depois que encontrei em São Paulo duas pessoas que vieram a se tornar meus sócios, Raphaella Barcalla e Rodrigo Guima. Sem eles não conseguiria sair do terreno da idéia e realizar de fato.

Rodrigo Guima – … cada um imprimindo o que tinha de melhor pra acrescentar no projeto: o Thiago com toda a história dele de música baiana, a Raphaella com o lado de empreendedorismo e eu, com o meu trabalho de ocupação de espaço público. Eu trabalho com intervenção urbana, então era uma vontade de fazer o bloco rodar fazendo as pessoas se conectarem com a cidade.

Pach – O vocalista é o cantor Zé Ed, que também tem carreira solo e acaba de lançar seu CD. São quantos integrantes na banda?

Thiago Borba – Atualmente são 11 integrantes na banda.

Pach – O carnaval de rua de São Paulo vem crescendo cada vez mais. Vocês esperavam esse sucesso que é o bloco de vocês no carnaval?

Thiago Borba – Eu esperava, mas não sabia da proporção, nem o que isso significava, sempre tive consciência da potência da obra de Caetano na vida de quem se identifica com suas músicas, a partir do que ele me causava. A grande surpresa foi constatar que São Paulo é a cidade que melhor poderia receber este projeto! Talvez por Sao Paulo ser como o mundo todo, aqui reuni-se as mentes inquietas de um Brasil que sonha com mais. Quem enquanto imigrante ouve “Sampa” e não se identifica com o sentimento que ele expõe na canção? Hoje já entendo bastante a cidade que vivo a 10 anos, mas assim como ele e muitos, quando cheguei por aqui, eu nada entendi!

Rodrigo Guima – A gente sempre esperou que as pessoas amassem muito porque a gente fez com muito amor. No primeiro ano, a gente saiu no pré carnaval como um teste pra entender como a coisa se daria… Estamos no quarto ano do projeto, terceiro ano saindo no carnaval.

Pach – Caetano tem uma carreira artística inabalável, milhares de composições e sucesso internacional. Muitas de suas músicas tem foco extremamente político. Sempre exaltando a liberdade e a democracia. Caetano foi preso pela ditadura, vítima do AI-5 e teve que se exilar em Londres. Sempre defendeu seus ideais políticos. O quanto o momento político atual no país influencia na escolha do repertório do bloco neste ano?

Thiago Borba – A escolha do nosso repertório é a partir do tema escolhido de cada ano! Claro, que em momentos pontuais em apresentações, como por exemplo na Virada Cultural, incluímos uma ou outra canção que faça sentido no contexto da época, mas a verdade é que todas as canções de Caetano são atemporais e nos cabe perfeitamente hoje, a cada dia um episódio novo reforça uma canção gravada a 20 anos atrás. É o caso da canção Haiti, que este ano incluímos no nosso repertório em referência a chacina ocorrida em setembro.

Pach – Houve alguma dificuldade para este carnaval por conta da crise política e o novo prefeito de São Paulo?

Thiago Borba – Sobre a crise politica: acho que o nosso desafio é tentar se ausentar dessas questões que o país vive e seguir fazendo carnaval, isso é um desafio. Sobre o novo prefeito, talvez ainda seja muito cedo para responder esta pergunta! Até a posse, tudo continua da mesma forma. A diferença é a ausência de respostas do que irá acontecer com nosso carnaval.

Rodrigo Guima – É bem notório que a gestão antiga do prefeito Haddad fez o carnaval na cidade acontecer pra todo mundo e o que a gente espera é que essa próxima gestão de continuidade ao trabalho numa linha crescente.

Pach – Ainda no teor político, como você acha que o carnaval, além de ser um momento de diversão, pode estimular essa luta pela democracia e essa ânsia por país em harmonia?

Thiago Borba – No caso de São Paulo especificamente, fazer carnaval é fazer política né?! Considerando que há 4 anos colocar um bloco na rua era motivo de cadeia. Olhando pra trás hoje, vemos o quanto avançamos neste sentido do direito de ocupar a cidade e sobretudo entender a importância do carnaval como um movimento da cultura popular de um país, não é só festa e diversão, é reconhecimento de quem somos! Nascemos carnavalis e nos obrigaram a ser civilizados, o filme Terra em Transe de Glauber Rocha, não me deixa mentir. O retorno do carnaval de São Paulo é a retomada do DNA do SER brasileiro numa cidade cosmopolita.

Rodrigo Guima – O carnaval é um momento permissivo pra gente ser muito bem o que a gente é e levar poesia e cor pra vida das pessoas. O que a gente acredita é que o carnaval é realmente uma ferramenta de transformação muito forte, principalmente dentro de um bloco que se propõe a fazer com que as pessoas se reconectem com o espaço da cidade. É um outro tipo de política. É a política do amor! A gente quer utilizar das mesmas lógicas de pensamentos e quereres que a Tropicália tinha naquela época para o que tem acontecido agora na política do nosso país.

Foto de Victor Moriyama

Pach – Qual o tema do bloco para carnaval 2017? Porque a escolha?

Rodrigo Guima – O tema de 2017 é Tropifagia: uma junção das palavras Tropicália e antropofagia. Tropicália e antropofagia são dois movimentos importantíssimos na obra de Caetano.

Thiago Borba – O tema de 2017 é Tropifagia, uma homenagem aos 50 anos da Tropicália. Este nome nasceu de um entendimento do nosso grupo cujo a Tropicália já nos foi internalizada ao longo da vida e principalmente ao longo destes 3 anos do Tarado e que a melhor homenagem seria transcender a Tropicália e como poderiamos fazer isso?! Comendo-a! Unimos a Tropicália ao movimento Antropofágico liderado por Oswald de Andrade em 1928. Pensamos: temos que comer o País Tropical, pois tropicalista já somos, agora somos isso e todas os outros movimentos que surgiram no país desde então, logo não somos apenas filhos do movimento Tropicalista, nos convertemos a seres Tropifágicos! É isso que fazemos nas ruas de São Paulo, quando pegamos a obra de Caetano e somamos a ela uma dose cavalar de samba-reggae e ijexá. Essa é a nossa combinação explosiva e antropofágica!

Pach – Caetano tem conhecimento do bloco em sua homenagem e já declarou a paixão por vocês. Como foi receber essa benção?

Thiago Borba – Tivemos a chance de encontra-lo muito rapidamente ano passado, para agradecer pelo que a sua obra fez e faz nas nossas vidas ao longo destes anos e Caetano, leonino e galanteador que é, disse sentir-se muito lisonjeado com a homenagem! Mas, o aval dele ao projeto aconteceu já no primeiro ano do projeto, quando ele nos dedicou o “abraçaço” do dia após nosso desfile, foi uma emoção e tanta este momento.

Rodrigo Guima – Foi muito bonito receber esse sorriso de “painho”, essa benção dele porque a gente sempre teve muito cuidado com esse projeto, em como colocar a obra dele na rua resignificada nesses novos ritmos, então foi um acalento no coração pra seguir em frente…

Pach – Já convidaram ou pensam em convida-lo para participar cantando com vocês?

Thiago Borba – Sim, já pensamos, já convidamos, mas nunca calhou de acontecer, por questão de agenda ou horário, Caetano é um artista noctívago e nós somos do dia, precisávamos fazer uma apresentação a noite para que ele possa estar com a gente (rs)! Enquanto isso não acontece, ele se faz presente no corpo e na voz de cada ‘folião tarado’ presente nas nossas apresentações.

Rodrigo Guima – A gente espera muito que isso possa acontecer um dia!

Pach – Qual o percurso do bloco e qual o número estimado de foliões para 2017?

Thiago Borba – O percurso do bloco em princípio  será o mesmo do ano passado com concentração na Avenida São João com a Ipiranga as 11hs. Ano passado saímos com 40 mil pessoas, a tendência é que o numero cresça, difícil mensurar quanto.

As próximas datas de apresentação do Tarado Ni Você são:

22/1 – festa aberta em espaço público 
25/2 – desfile oficial

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Por Thiago Pach

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