Em comemoração aos 60 anos do espetáculo “Os sete gatinhos”, a peça será a primeira a ocupar o espaço do Teatro CAIXA Nelson Rodrigues após sua reforma. Como reabertura em grande estilo do espaço neste prédio que é um marco da arquitetura dos anos 70, o texto do dramaturgo e jornalista pernambucano que dá nome a sala foi uma escolha interessante para esta reabertura. O teatro, que é um dos mais tradicionais do país, foi aberto em agosto deste ano e recebe seu primeiro espetáculo a partir do dia 14 de setembro.

A montagem que fará a reinauguração do teatro ficou por conta da Cia Teatro Esplendor, que é dirigida pelo seu fundador, o premiado Bruce Gomlevsky. Em sua primeira montagem nacional Bruce traz consigo no forte elenco Tonico Pereira, Alice Borges, Lourival Prudêncio, Karen Coelho, Louise Marrie, Luiza Maldonado, Patricia Callai, Ingrid Gaigher, Gustavo Damasceno, Jaime Lebovitch, Luiz Furlanetto e Thiago Guerrant.

Contando com o patrocínio da Caixa econômica Federal, a Cia optou pela apresentação de uma das obras de maior sucesso do autor tanto pela comemoração dos seus sessenta anos, mas por ser essa uma das obras de mais sucesso de Nelson.

 A trama é considerada a origem da chamada “tragédia carioca”, fazendo alusão às tragédias gregas, mas adequada à realidade do Rio de janeiro de meados do século XX. Com os fundamentos da referência grega mas com o erotismo e a modernidade trazidas pelo período na sociedade carioca.

A história conta a forma como uma família se vê a mercê do capital, perdendo para ele suas bases e seus princípios. Na narrativa Silene, uma jovem de 16 anos, possui quatro irmãs mais velhas. Vivendo com seus pais Seu Noronha e D. Aracy e suas irmãs Aurora, Hilda, Arlete e Débora no Grajaú, zona Norte do Rio de Janeiro, a jovem é a única contemplada com uma boa educação em um colégio interno. Esse privilégio lhe é dado por ser a única virgem das irmãs, e por isso preservada pela família. O preço para a boa educação de Silene começa a ser exposto quando a moça é acusada de matar uma gata grávida a pauladas. Esse evento revela que a origem do dinheiro que sustenta os estudos da caçula é a prostituição das demais irmãs.

Foto: Divulgação / Dalton Valerio

A tragicomédia de Nelson Rodrigues mostra como esta família vai paulatinamente apodrecendo, a medida em que se corrompe em troca de cada vez mais dinheiro e status, dentro de uma ordem capitalista cruel. O contraponto entre a prostituição de quatro filhas em detrimento da pureza da caçula, assolada pela nostalgia de quando todas as filhas eram puras leva esta família ao colapso em cena. Pela linguagem singular de seus trabalhos, como é visto em Os sete gatinhos fez de Nelson um dos mais importantes nomes da dramaturgia nacional.

Reforçando o processo de deterioração deste contexto familiar, a cenografia de Fernando Mello da Costa traz em exposição dois andares de cômodos com algum mobiliário, coisas amontoadas e elementos realistas.

O Teatro Nelson Rodrigues foi inaugurado em 1976 como Teatro do Banco Nacional da Habitação (BNH). A primeira peça a ser exibida foi, de ninguém menos, que o próprio Nelson Rodrigues: Vestido de Noiva. Pouco menos de 10 anos depois, em 1984, o nome do teatro foi alterado para homenagear este pioneiro da dramaturgia moderna do Brasil. Anos mais tarde (1989) o teatro foi incorporado à Caixa Cultural devido à extinção do BNH.

Ver outra obra do autor tão bem representada na retomada dos trabalhos da casa é inspirador. E tanto pelo espaço – que conta com fachadas decoradas com obras de Carybé de autoria de Pedro Correia de Araújo Filho, e com enormes painéis de Ernani Macedo e Roberto Sá, além de mosaicos de Freda Jardim – quanto pela clássica e ousada obra.

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