The Fashion

Notoriedade da moda brasileira e a luta pela verdade

De uns tempos para cá, no mundo da moda não só as modelos estão ganhando força e marcando presença internacionalmente, mas grandes estilistas também. No contexto nacional, não podemos esquecer que uma das propulsoras, do que poderíamos chamar de “moda brasileira”, foi a estilista Zuzu Angel.

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Com uma trajetória marcada pelo sucesso e pela dor, a mineira Zuleika de Souza Netto, nascida em 05 de junho de 1921, na cidade de Curvelo, foi uma ilustre representante da moda nacional nos anos 70 e mãe do militante político Stuart Angel Jones e da jornalista Hildegard Angel.

Quando criança, Zuzu mudou-se para Belo Horizonte – MG, onde começou fazendo roupas para suas primas. Na adolescência, morou em Salvador – BA, onde as cores da cidade influenciaram significativamente o seu trabalho. Nos anos 50, ela começou seu trabalho como estilista, inicialmente desenvolvendo roupas para parentes e amigos próximos. No início da década de 70, ela mudou-se para o Rio de Janeiro e, depois de anos costurando e juntando suas economias, abriu sua própria loja, em Ipanema.

Com o tempo, ela conseguiu fazer algumas amizades importantes, que lhe proporcionaram ajuda e reconhecimento, tendo a oportunidade de realizar desfiles nos Estados Unidos e expandir os seus negócios. Em suas criações e desfiles ela sempre abordou a alegria e pluralidade das “cores brasileiras” em um estilo de misturas envolvendo renda, seda, chitas, fitas, estampas de pássaros, borboletas, papagaios, além de ter inserido na moda o uso de pedras brasileiras, fragmentos de bambu, conchas e madeira.

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Suas roupas, além de bem coloridas, eram extremamente bem costuradas e logo agradaram a todos. Zuzu, que antes só as costurava, passou a desenhá-las e até pintá-las. Para se ter uma ideia, foi ela a responsável por trazer ao Brasil e popularizar a expressão “Fashion Designer”. Mas sua história, infelizmente, não terminou com o sucesso na moda e o infortúnio pessoal passou também a integrar os seus trabalhos.

Seu filho e estudante de economia na época, Stuart Jones, passou a fazer parte de um dos grupos que lutava contra a Ditadura Militar instaurada no Brasil em 64, conhecido como MR-8. No dia 14 de abril de 1971, ele foi torturado e morto, mas dado como desaparecido. Foi aí que a batalha pessoal de Zuzu começou e ela encontrou através da moda um caminho para mostrar e denunciar os atos da Ditadura na época.
Ela iniciou uma guerra pessoal que não só envolvia o Brasil como também o país de seu ex-marido, os Estados Unidos. Por existir uma lei que não poderia falar mal do governo dentro do território nacional, ela realizou um desfile em forma de protesto no consulado brasileiro em Nova Iorque, onde trouxe uma coleção com estampas com manchas vermelhas, pássaros engaiolados e o Anjo ferido e amordaçado, que se tornou o símbolo de seu filho.

Sua luta ganhou a mídia internacional e no dia 15 de setembro de 1971, o jornal canadense trazia a manchete “Designer de moda pede pelo filho desaparecido”, e cindo dias depois foi a vez do jornal Chicago Tribune, com o título “A mensagem política de Zuzu está nas suas roupas”. Em 2014, um vídeo gravado durante o desfile, de aproximadamente 4 minutos , pelo canal NBC, foi encontrado nos arquivos da TV Cultura, em São Paulo, e exibido na mostra “Ocupação Zuzu”.

Suas roupas começaram a ser vendidas em lojas de enorme renome e, sua notoriedade internacional, fez com que celebridades hollywoodianas, como Liza Minelli, se envolvessem em sua causa. Foram 5 anos de luta, em busca do corpo de seu filho para dar-lhe um enterro digno, uma vez que ela já havia reunido uma série de denúncias e comprovações contra a Ditadura, e estava ciente de que seu filho havia sido morto.

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Ela, aos 54 anos, faleceu em 14 de abril de 1976 devido a um “suposto” acidente de carro na saída do túnel que hoje leva o seu nome. Anos mais tarde foi comprovada a morte de seu filho pelos militares, assim como a comprovações de que sua morte não foi um mero acidente e sim um crime. Uma peculiaridade nessa história é que uma semana antes ela deixou um documento na casa de Chico Buarque de Holanda, que deveria ser publicado caso algo lhe acontecesse

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Em uma parte do documento dizia: “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho.”

Depois da morte da estilista, além do nome ao túnel, ela recebeu inúmeras homenagens à sua memoria e trabalho. Em 77, Chico Buarque compôs “Angélica” sob a melodia de Miltinho; em 88, o livro “Em Carne Viva”, de José Louzeiro, foi publicado tendo personagens e situações remetentes a história de Zuzu; em 93, sua filha criou o Instituto Zuzu Angel de Moda do Rio de Janeiro e, em 2006 o cineasta Sérgio Rezende dirigiu “Zuzu Angel”, uma cinebiografia contando a vida da estilista, protagonizada por Patrícia Pillar e com Daniel de Oliveira como seu filho.

O fato é que a estilista não só marcou a moda brasileira como também sua história. Suas criações são de enorme influência na moda nacional e sua luta pela verdade será eternamente lembrada. Em 2014, quando a Ditadura completou 50 anos, durante a “Ocupação Zuzu”, aconteceu o evento “Em Torno de Zuzu – Encontros Sobre Moda, Criação e Política”, onde, mediado por Cristiane Mesquita, a modelo e atriz Elke Maravilha e Hildegard Angel, jornalista e filha de Zuzu Angel, conversaram sobre a prisão de Elke e sua amizade com Zuzu, os anos de Ditadura no Brasil e sobre a classe artística da época.

Fico por aqui, com esse memorial da moda brasileira e deixo abaixo o vídeo da conversa citada acima.

Paulo Olivera é mineiro, Gypsy Lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, Bombril na vida profissional e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.