Vinte e seis de março de 2015. Muitas pessoas talvez não se lembrem o que faziam naquele dia. Era uma quarta-feira. Neste dia, terminava o anime Tokyo Ghoul. Agora, exatos 2 anos, 5 meses e 16 dias depois, um anime nunca foi tão atual como este. A experiência com Tokyo Ghoul é daquelas que, se o espectador se envolver na história, é capaz de tirá-lo do lugar comum. Uma narrativa sobre humanos e grupos de criaturas que praticam “canibalismo” pode ajudar as pessoas a entenderem a si próprio. Desculpe-me aqueles que correm dos spoilers, mas alguns irão aparecer. Enfim, vamos lá.

Kaneki depois da cirurgia que o transformou em ghoul.

A primeira coisa que se percebe ao assistir Tokyo Ghoul é que não é um anime sobre criaturas que se parecem com seres humanos e que devoram seres humanos para alimentarem-se. Tokyo Ghoul fala muito mais das relações humanas do que se imagina. Ele fala sobre guerra. No mais seco da sua essência. Guerra não é uma disputa para ver quem é o melhor. Em sua raiz, é a luta entre dois povos pela sobrevivência. Durante anime, há dois grupos em constante conflito: Ghouls, cuja única forma de se alimentar é com a carne humana, e os humanos que não podem permitir que sua raça seja devorada por eles. E dentro desse duelo pela sobrevivência, existe Kaneki Ken, um jovem, que como dito no anime, é aquele que consegue transitar pelos dois grupos. Isso por causa de uma maldição do destino, ou benção, dependendo do ponto de vista. Ele, ao encarar um ghoul pela primeira vez, acaba quase morto. Para que sua vida fosse mantida, um médico, sem o consentimento dele, da família ou de amigos de Ken, faz um transplante de órgãos de um ghoul nele. Resultado: tornou-se tudo aquilo pelo qual tivera tanto medo.

Depois deste parênteses, vamos voltar a dicotomia na relação humano e ghoul. Com a característica peculiar dessas criaturas, é possível imaginar que uma pessoa que nunca assistiu a obra estaria do lado dos humanos, certo? Errado. Tokyo Ghoul não permite escolher um lado. No decorrer das temporadas do anime, são mostrados as duas faces de um mesmo grupo. Seus desejos, ambições, medos, ódio, amor, companheirismo e amizade. Não é difícil identificar-se com um dos lados. Aliás, o tempo todo o espectador é jogado para um lado da história, entendendo a posição de cada um e porque de agirem assim. Em um episódio o espectador é ghoul; em outro é humanos. Mas, no final, só é possível saber que, entre os dois grupos que tanto se enfrentam, há mais semelhanças do que diferença. Na guerra, existem dois grupos em conflito. Cada um com sua narrativa, seu ponto de vista da história. Que lutam e brigam para seres aclamados por heróis. Em grande parte, há o confronto entre pessoas que parecem que não sabem porque estão lutando. Soldados doutrinados para tratar o outro como inimigo. Lutam por acreditarem que o que fazem é o certo. São realidades de diferentes que entram em contraste. Atualmente, sociedades em várias partes do mundo estão em conflitos. Grupos de diversas etnias, religiões, sexualidade e outros estão sendo excluídos do convívio social, seja por medo ou por ignorância, até mesmo por puro preconceito. E é esta a chave que faz Tokyo Ghoul, mesmo dois anos após o fim do anime, ainda ser tão contemporâneo.

Amon (esquerda) e Kaneni (direita) frente a frente.

Um ponto para reflexão: Imagina se cada pessoa presente neste conflito se colocasse no lugar do outro, será que ainda sim haveria esse conflito? O personagem Amon, investigador com a missão de acabar com os ghouls, questionou-se em momentos sobre isso. Para ele, ghouls sempre foram inimigos, mas que havia mais algo que os aproximavam. Mesmo aqueles que tiveram boas relações com ghouls e humanos sabiam que o final seria o mesmo. O extermínio de um grupo pela sobrevivência do outro.

No último ato do anime, Kaneki carrega o corpo do amigo Hide.

Ao final de tudo, aparece aquele velho debate: alguém sai vencedor de uma guerra? Quantos vidas são desperdiçadas em prol de um ideal que nem ao menos sabe-se, ao certo, se é real? Tokyo Ghoul ensina que numa situação de conflito não se pode deixar de compreender a realidade do outro. Ao olhar para um lado da história apenas, acaba-se negando o outro de partilhar aquilo que há de mais belo e sincero em sua vida, a própria narrativa. No anime, o grande ponto que rompe com essa briga, mesmo que seja de forna momentânea – ou não, o final não esclarece o que ocorreu de fato – foi quando Kaneki, no último episódio, no último ato, carrega o corpo de seu amigo morto na guerra. Ninguém atira, ninguém ameaça, seja ghoul ou humano. Ele caminha, lentamente, em meio à neve e os corpos ao chão, sendo observado por olhares surpresos que, de alguma forma se perceberam que há mais coisas humanas nos ghouls do que eles imaginavam. A música de fundo, que é o tema da abertura da primeira temporada, toca ao fundo na versão acústica, ilustrando com maestria o momento, dando o tom do que é de fato a guerra, o conflito físico e mental. Mostra que dois grupos diferentes são mais iguais do que pensam. Neste momento, há grandes chances do espectador ter imergido na história, ao colocar-se no lugar de Kaneki ou de qualquer ghoul ou humano que observava aquela cena.

O anime tem falhas, como qualquer outra obra, com mais acertos do que erros. Os personagens são como pessoas que se encontra no dia a dia, numa conversa da padaria, no supermercado entre outros. Independentemente do tipo de gosto pela obra, Tokyo Ghoul fala mais sobre as relações humanas na contemporaneidade do que se imagina.

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