A Silvia Cintra Galeria de Arte, com mais de vinte anos de funcionamento no ramo da arte contemporânea brasileira, mudou de sua antiga sede em Ipanema para um prédio novo na Gávea, especialmente arquitetado para receber a galeria. Nessa transição, se fundiu com a Box 4, pertencente a Juliana Cintra, filha de Silvia, com o objetivo de abrigar, em um único espaço, trabalhos de artistas contemporâneos brasileiros tanto consagrados quanto novos nomes. O pequeno prédio, localizado na Rua das Acácias 104, possui sofisticação minimalista, mistura tons de cinza com uma parte em amarelo, e conta com uma grande janela e uma porta de vidro que nos permite ver seu andar térreo. De 19 de outubro a 18 de novembro, esse andar da galeria recebe a mostra “Você vê os pássaros? Sempre quis que você visse os pássaros daqui”, de Omar Salomão.

Omar nasceu em 1983, é artista plástico e poeta, e lançou no meio deste ano seu terceiro livro, “Pequenos Reparos”. Sua veia poética aparece no processo criativo do artista, que mistura a linguagem escrita com a visual, e a delicadeza permeia os elementos e pensamentos que compõe suas obras. A experiência que teve, de viver em residência artística na ilha de Itaparica, na Bahia, com certeza influenciou tanto o livro quanto a exposição, assim como sua relação com o tempo e com a natureza, e a temática de praia e águas se faz presente. Omar é um artista que gosta dos “atravessamentos”, dos encontros entre as diversas formas de expressão artística e de explorar o lirismo nesse meio.

O nome da mostra é poético e delicado, tendo sua origem no relacionamento do artista com a namorada. “O título na verdade nasceu de uma forma muito pequena. Eu tinha perdido meus óculos já fazia um tempo, tinha quebrado (…), e aí quando eu fiz os óculos (novos) eu estava na varanda com a minha namorada e ela virou em algum momento, ela estava olhando o céu né, e ela virou: ‘Você vê os pássaros? Sempre quis que você visse os pássaros daqui’. Aí eu botei os óculos”, contou Salomão em entrevista gravada para o site Canal-Arte. Apesar de parecer simples, a frase carrega uma mensagem muito bonita: a ideia que alguém olhou para uma coisa e pensou ‘Quero muito que meu amor veja isso também’. Os óculos também têm um papel fundamental na história, pois sem eles o mundo poderia ser apenas uma sequência de borrões, elemento que é abordado na mostra.

A obra que dá nome à exposição é composta de uma série de desenhos em nanquim que retratam pássaros em revoada. Seis das ilustrações estão emolduradas individualmente, enquanto quatro formam uma figura ao centro. O artista menciona que trabalha “com o que você vê, com o que você é induzido a ver, como manchas, com o que você enxerga das manchas” – talvez as manchas dos míopes, dos com astigmatismo, mas também as manchas do mundo que são decifradas por nós através da mente. Uma primeira olhada na instalação pode remeter ao teste de Rorschach, uma forma de análise psicológica, retratada em diversos filmes, que consiste em mostrar ao paciente 10 manchas impressas em cartões, uma a uma, e esperar que a mente da pessoa trabalhe para dar um significado a elas. A ideia é que quando é mostrada uma imagem sem sentido a uma pessoa, sua mente trabalhará para gerar e atribuir um sentido para a figura. É um exame projetivo, pois o indivíduo projeta a si mesmo em sua resposta, através da forma como dá significado ao mundo verdadeiro. Tal processo se assemelha ao modo como lidamos com a arte, principalmente a arte moderna ou abstrata: cada observador tem sua própria experiência, retira seu próprio significado a partir da bagagem cultural. Omar preocupa-se em dar esse espaço para interpretação: “Eu me esforço ao máximo para não encerrar conteúdos, eu acho que tem que se abrir muitas portas, uma porta só não basta. Acredito que cada um carrega consigo uma experiência, cada um sabe o que sente, o que olha do mundo, e muitas vezes não sabe, está descobrindo, e essa descoberta é importante, porque os caminhos são múltiplos, são todos travessias”.

Outras obras muito belas e carregadas de significado são as da série “Fluxo”, composta por quatro desenhos feitos em aquarela azul de diversos tons. O grande toque especial do artista é ter molhado as pinturas no mar, fato que, uma vez conhecido, nos faz mergulhar ainda mais em interpretações e nas sutilezas das entrelinhas. Como ele mesmo disse “Eu venho dos livros, eu venho da poesia”, e essa origem poética está presente tanto no processo criativo das obras, quanto literalmente incorporado nas peças – “Fluxo” conta com algumas linhas do pintor-escritor. Um dos extratos é “Tuas lágrimas criam ondas // todo deserto vira oceano // e se despede levando o céu // pra dentro de si”. Parte do que está escrito em outro dos quatro desenhos é muito difícil ou até impossível de ler, devido aos borrões feitos pela ação do mar, que constrói seu enredo próprio e particular na aquarela, sua dança salgada e absoluta. Uma atmosfera de nostalgia e despedida parece invadir os desenhos, que cantam aos olhos uma serenata de choro apegado, aquele choro de quem solta querendo agarrar e diz adeus querendo ficar. A entrega à natureza resulta em um trabalho conjunto, uma espécie de conexão entre o que está no controle do artista e o que é acaso, e ele mesmo fala da infiltração como escrita, como conteúdo poético. Salomão acredita que a rasura e a mancha criam um conteúdo e uma mensagem, e esta fica aberta para as mais diversas interpretações. Esses elementos são expressões e enquanto expressões são arte.

O tema do acaso está fortemente presente também nas obras “Lance”, quatro obras com quase o mesmo título – variado apenas por numerações – e feitas com dados e a partir da ação deles. Salomão produz, em forma de quadros, uma interpretação lúdica do poema de Mallarmé que diz “Todo o pensamento produz um lance de dados”, frase que nos remete aos possíveis caminhos da vida, aos infinitos desdobramentos de uma escolha. Ao jogarmos os dados, perdemos o controle do resultado, assim como o artista, ao expor uma obra, perde o controle dos significados incorporados a ela. Formada por duas obras postas lado a lado, a “Lance #10” é composta de dois compensados (blocos de madeira composto por finas placas de madeira) cobertos de tinta preta, estando em um deles diversos dados pintados de pretos colados na superfície, e, no outro, pequenos quadrados brancos pintados direto no fundo preto. Esses quadrados são o registro de onde os dados aterrissaram:  o artista lança os dados e depois repinta a superfície, formando uma pintura aleatória com a memória dos cubos. Os compensados, lado a lado, parecem o retrato de ações e consequências, ou de marcas deixadas pelo lançar de dados da vida – as impressões que o que acontece conosco deixam, coisas que estão fora de nosso controle, assim como os dados, que uma vez lançados fazem seu caminho próprio. Também feito por dados, o “Lance #4” repinta as marcas deixadas pelas peças com tintas fluorescentes, criando um lindo destaque com o fundo preto, e uma espécie de constelação hipnotizante para o olhar. Os dados pintados reaparecem na obra “Síntese”, que consiste em cinco pequenas caixas de madeiras abertas e presas na parede com os dados dentro à mostra, dando ideia de confinamento das possibilidades sugeridas pelo lance de dados, como o explicado no release da exposição.

Um material presente em diversas obras é a concertina, rede de arame farpado. Ela permeia as séries “Dobras” e “Circuito de afetos”, e os trabalhos individuais “Luva” e “Proteção”. Este último consiste em uma foto de Iemanjá, orixá feminino das religiões do Candomblé e da Umbanda, cercada do arame farpado, dois elementos que remetem à proteção, título da obra: uma orixá que protege seus devotos, e um objeto que mantem os invasores longe. Talvez eles se relacionem, também, no sentido de proteger e cercar Iemanjá, simbolizando o perigo que as religiões de matrizes africanas muitas vezes sofrem por conta do preconceito religioso, que tem feito várias vítimas no Brasil. Outra série de obras da mostra que nos chama atenção é o conjunto “Quadro de Avisos”, que consiste em seis quadros de avisos, do tipo das portarias de prédio, nos quais dentro estão cadernos de Omar. Os quadros estão trancados com chave, podendo ser abertos ou não, e os cadernos ficam expostos abertos. Desse modo, o visitante que resolver mexer no quadro pode trocar a página em evidência e interferir na arte, tornando-se parte da mostra. Os cadernos de Omar são tanto processo quanto obra final, são tanto anotações e pensamentos quanto uma obra emoldurada e esteticamente bonita, pronta. Tais cadernos acumulam as marcas do tempo, poeira, manchas de caneta, sujeira, água, e isso dialoga com a escrita, adiciona e modifica a arte original, abrindo novos espaços, como explica o artista. Como na obra “Fluxo”, todas as marcas e interferências se convertem em conteúdo poético, e como na série “Lance”, os trabalhos misturam o pensado com a surpresa, o acaso.

Omar nos presenteia, nessa pequena porém significativa exposição, com seu olhar curioso decifrador das pequenas ocorrências da vida, e nos mostra como nossa experiência é dividida entre o que nos acontece e o que fazemos acontecer. Entre arames farpados e aquarelas, somos conduzidos a refletir e enxergar além da beleza estética das tormentas e calmarias da arte de Omar.