No final da rua sem saída Engenheiro Pena Chaves, há um portão coberto por folhas com um grande número 6 ao topo. Do outro lado, uma simpática vila rodeada de linda área verde e a tranquilidade de uma cidade de interior. A atmosfera agradável traz uma sensação de pausa no tempo, de um descanso momentâneo da correria do lado de fora, algo que parece não importar quando visitamos a pequena e simpática Galeria Úmida. A casa de número 5 conta com uma porta roxa com o algoritmo escrito em azul, e as paredes são todas rosas com alguns desenhos em branco e preto. A casa pode ser confundida, num primeiro momento, com uma moradia cheia de personalidade, mas ela abriga diversas obras incríveis, que compõe a exposição “Expressão Genuína”, de Lair Uaracy. A mostra ficará em cartaz de 13 de novembro até 01 de dezembro e conta com 27 peças. A galeria funciona de segunda a sábado, de 13h às 19h, e a entrada é gratuita.

Os olhos são a primeira coisa que nos capturam nas pinturas de Uaracy. Olhos fundos, penetrantes, de córnea preta – com exceção de seu primeiro quadro, cujos olhos ainda são brancos. Olhos que, em muitas obras, parecem assustados, mas ao mesmo tempo urgem para nos contar algum segredo, cautelosos com quem possa estar bisbilhotando. Outros, olhares de solidão, cobertos de desejo de pertencer ao se acharem vazios, incompletos, perdidos. Às vezes perplexos e outras vezes decididos, os olhos de Uaracy parecem ter criado a expressão “janelas da alma”, e é impossível se colocar no centro da sala da galeria, no meio de todos os quadros, e não se sentir observado de alguma forma. Cada rosto é como um novo personagem se apresentando aos visitantes, ansioso para contar sua história, para dividir uma agonia ou transbordar um pouco de si. A sensação é que as obras têm uma vivência própria, atores capturados nas telas em algum momento de sua existência.

As camadas de cor do artista criam uma textura própria e palpável ao olhar, algo que ajuda a criar a noção de camadas e a dar uma outra dimensão às obras. Os quadros de Uaracy são expressionistas, pois contam com cores fortes e vibrantes, figuras destorcidas e certa abstração, e o uso da cor e da linha foi feito com carga emocional e simbólica. O Expressionismo é conhecido como a arte dos extremos emocionais, da inquietação e da espiritualidade. Isso é evidente nas obras expostas, cujos personagens parecem instáveis, apreensivos e são extremamente expressivos, com rostos que passam angústia, dor e dúvida. Enquanto o Impressionismo reproduzia o mundo como ele se apresentava, os expressionistas colocavam em suas obras as próprias conclusões e reflexões sobre o mundo. O Primitivismo, tendência na arte moderna, também parece ser uma influência nas obras do pintor. Esse movimento consiste na busca de referências de culturas estrangeiras, cuja arte é feita por povos e tribos primitivas, e as obras consideradas primitivas se caracterizam por sua força expressiva, emoção, vigor e insanidade.

“Expressão Genuína” é a primeira exposição de Lair Uaracy. Ela reúne 27 pinturas em acrílica sobre tela, nas quais o uso da tinta como textura em camadas sobrepostas e o gestual são características marcantes. Lair, cujo nome indígena “Uaracy” significa “força do sol”, é aluno da Escola de Artes Visuais do Parque Lage e, apesar de hoje seguir carreira artística, começou seu trajeto estudando direito. Insatisfeito com a ideia de seguir naquela área, o pintor paraense dedicou-se a sua verdadeira paixão, e um dos quadros da exposição retrata essa mudança na vida do jovem. Na parede à esquerda da entrada da sala da galeria, podemos ver a pintura de um simpático senhor grisalho, de face aliviada, colocando a mão dentro de seu paletó colorido. Segundo Marcio Regaleira, dono do espaço e quem organizou a exposição, o idoso seria uma representação da versão futura de Lair, que saí da escuridão, esta simbolizando a carreira não desejada pelo artista, e passa a encontrar um jardim florido, alegre. Além disso, o senhor estaria, no gesto pintado, tirando sementes de dentro do seu paletó colorido, objeto que dialoga também com a formalidade exigida nos trajes dos advogados, desembargadores e outros operadores do Direito. Esta formalidade é quebrada por a vestimenta representada ser em azul, amarelo e vermelho, substituindo o tradicional preto. O personagem do quadro parece em paz, sossegado, com os lábios entreabertos prestes a suspirar ou compartilhar uma grande lição de vida. Os contrastes de cores e os diferentes tons usados no rosto do Lair-futuro são impressionantes, e estes últimos ajudam a compor uma espécie de fluxo, como se a luz acompanhasse a feição do personagem que vai mudar, dando ideia de movimento.

Ao decorrer de seu processo criativo e da evolução do seu conceito, Uaracy começou a desfigurar os rostos pintados para estudar os elementos que compõe a figura humana. Os olhos marcantes foram cada vez mais explorados e, conforme a face foi se transformando em multicolor, composta de pinceladas em diversas direções e mais caótica, a ordem era encontrada nos olhos penetrantes e estáveis. Enquanto tudo é inquietação, conturbado, dinâmico; o olhar permanece fixo, carimbado em seu fundo preto. Essas pinceladas bruscas com cores vivas parecem simbolizar diversas questões psicológicas muito comuns no nosso mundo globalizado, de constante agitação e de grandes exigências. Os personagens nas telas soltam um choro engasgado, pedem ajuda ou apenas encaram o vazio com desespero. Distantes do agora e refletindo sobre tudo ao mesmo tempo, em estado de alerta, esses seres com certeza não compartilham da tranquilidade do senhor do outro quadro, e carregam certa androgenia. Como escreveu Edmilson Nunes, curador e professor de arte da EAV Parque Lage, em texto sobre a exposição, “Podem ser homens, mulheres, drags ou anjos”.

Outra citação de Nunes nos ajuda a entender a técnica de Lair e o seu resultado: “A tinta espessa sobre a tela, o gesto brusco e bruto que rasga o espaço com cores primárias, brancas e negras, são contrastados com fisionomias familiares, que ao mesmo tempo estão longe e ao mesmo tempo estão perto, como brisa que acaricia o rosto ou fogo que queima a pele. A estranheza pode ser também calma e a beleza algazarra, grito e dor”. A impressão é, realmente, de familiaridade, de conhecer alguns dos rostos, o que contribui para o sentimento de inquietação diante das obras. Cada marca em seus semblantes, principalmente nos dois quadros menos abstratos, parece mostrar que os personagens têm uma história própria, o que os retira do caráter de criação e os traz mais para o plano real. No processo de desfiguração e ressignificação dos traços humanos, Lair fez uma série de quatro telas que remontam o olho humano em estilo abstrato, com córneas de cores vibrantes, de forma que o faz parecer um disco de vinil. Os diferentes tons da cor no centro da pintura e as pinceladas com borrões do preto que contorna dão a sensação que o disco está a girar. Outras obras interessantes são as duas pinturas realizadas em pranchas de skate, uma dos anos 70 e a outra dos 80. As camadas de tinta que criam diversas texturas no skate contrastam com a superfície áspera de lixa preta.

 

Quem visitar a exposição não pode deixar de conversar um pouco com Marcio, o dedicado dono da Úmida Galeria, mencionado anteriormente. Com diversos projetos em mente e sendo postos em prática, ele é um anfitrião pronto para qualquer papo e disposto a acrescentar mais informações aos visitantes, o que revela a paixão pelo que faz.

Entre cores marcantes, olhos perturbadores e camadas de tinta carregadas de potência, Lair nos prende em seu soneto angustiante e que exalta a ânsia de habitar uma pele humana. Uma música de tintas e pinceladas bruscas, um enredo de loucura e de busca pela sanidade.