Quando nosso amor acabou, achei que fosse morrer. Achei isso porque na verdade só o amor dela acabou, o meu continuava ali, tão grande e tão intenso, que com um pouquinho só de esforço era possível senti-lo pulsando em minha jugular.

Todas aqueles ‘eu te amo’ que a gente trocou, acumulavam-se na minha memória.

Nosso namoro começou antes mesmo que a gente percebesse, e terminou quando eu não queria perceber mais nada além de mim.

A manhã insistia em chegar e eu insistia em dormir. Mas aí ela me ligava e eu conseguia, com esforço, abrir os olhos.

A minha doença – psiquiátrica e psicodélica – alcançava já índices de auto-depreciação que eu ainda não havia experimentado em meus 20 e poucos anos de vida. Homem não chora, não sofre e nem tem depressão, mas eu tinha. – Bernardo, isso é tristeza, vai passar. Não era. Não passava.

Yasmin sabia, e via, diariamente, a minha transformação de homem à nada. E não havia nada que ela pudesse fazer, exceto aceitar. Eu prometia que melhoraria por ela, ela me jurava que logo ia passar.

Mas pesou, pra nós dois, a ausência: do meu sorriso, e dela por inteiro. Ela já não sorria, também. Nem ficava perto de mim. Trocamos ligações por mensagens curtas e cada vez mais espaçadas.

-Doutor, me ajuda, eu não estou melhorando.

-Tem que ter paciência, Bernardo.

E todas as conversas, todas as cinco do mês de abril, resumiam-se ao mesmo diálogo:

-O médico mudou seu remédio? Talvez você precise se esforçar mais.

-Eu não consigo. Não controlo mais.

-Eu não consigo mais ser boa pra você.

Não foi o primeiro fim, mas eu jurava que seria o último. Agora não me apaixonaria mais, nem por ela, nem por ninguém. Talvez o celibato me caíssem bem.

O que doía tão pungente e tão ardido em meu peito – de forma literal – era que eu não sabia o que fazer com tudo aquilo que era nosso. As lembranças, os sorrisos, os planos, as juras, o carinho. Até aquela mensagem de texto avisando “desço em cinco minutos” das primeiras vezes que saímos eu não queria apagar. Eu não saberia como, pra ser sincero.

Não dá pra dizer que acabou e esperar que tudo continue no mesmo lugar. Porque acaba um monte de coisa, mas não termina nada. É um eterno ciclo de coisas incompletas até que eu coloque as mãos na cabeça e respire fundo: – terminou?

E o fim chega. Primeiro, o fim da relação – com ou sem amor. Depois, o fim do fim.

E só quem passa por ele sabe que é preciso vivê-lo tão intensamente quanto o amor. E só quem vive sabe como é difícil, e são tantas e tantas outras coisas que a gente se apega: os porres, as lágrimas, o vento na praia num dia nublado, as fotos rasgadas num acesso de raiva, o trem partindo comigo, paralisado, na estação.

Aquele feriado fora de lugar no mês de abril, porque terças-feiras não são boas para feriados. Tem a segunda, tem o amor da sua vida dizendo adeus. É um dia ruim.

Foi um dia ruim.

E parece que abril não terminaria nunca mais.

– Por que? Por que hoje? Por que, abril, por quê?

E o que fazer então, com o resto desse dia? E com o resto de todo o fim que vou viver?

E quando o fim acabar, quem vai estar me fazendo companhia?

Qual disco vai tocar ininterruptamente se Miles Davis não me faz chorar mais e Billie Holiday decidiu que agora seria feliz?

Será que o fim é mais difícil de abrir mão do que aquela nossa relação?

Talvez o amor não tenha existido, então? Duvido. Eu senti, ela sentiu, dava pra ver, dava pra tocar no nosso amor.

E não foi pelo silêncio, porque eu gritei. Fiz questão que todo mundo ouvisse que não era justo ela me deixar, e que ela ia se arrepender. A gente sempre acha que o outro vai se arrepender, porque quem mais daria tanto amor assim?

Nesse momento de falsa segurança, começa o fim. Vão passar alguns dias e não haverá arrependimento. Não houve nem mais um ‘saudades’ solto, que fizesse a gente sorrir e pensar que realmente não acabou. Não teve fim.

Talvez o fim, então, seja infinito? Também duvido. No fim, até o fim acaba.

E recomeça. E transborda. Ensina, mata e ressuscita.

E tiveram mais porres, eu liguei e desliguei na cara dela mil vezes até ela entender que era o castigo que eu podia dar. Pode xingar, eu nem ligo. Quero mesmo te fazer sofrer até você se arrepender de verdade, só para que eu agora seja o cara que vai te dizer não. Não te quero mais.

Aí o porre passa, a ressaca invade e eu ainda a queria muito. Eu revirava as cartas e mensagens e fazia um quebra-cabeça para achar onde eu tinha errado.

Nos dias mais tristes, eu chorava. Nos mais entediantes, eu olhava com atenção para o isqueiro vermelho que ficava no criado mudo, e pensava se voltava a fumar ou incendiava a minha casa. Só pra queimar todo esse amor, e tudo dela que ainda estava lá.

Quase sempre decidia por um cigarro que deixava queimar sozinho mais da metade. Nas outras vezes, guardava o isqueiro na gaveta. Nunca incendiei nada.

Decidi que guardaria tudo: das nossas fotos até as cartas com xingamentos que nunca enviei por medo. Um dia, talvez em outras vidas, a gente se reencontre e comece a rir de todo esse tempo que deixamos passar por entre nossas mãos. Como se tivesse passado um dia, apenas.


Por Patrícia Janiques

Sobre a Autora: Patrícia Janiques é escritora e produtora executiva. Além disso, ela também é colaboradora da Woo! Magazine – onde escreve para coluna ApArt.