O termo upcycling já foi usado há um tempo, lá em 1994 por Reine Pilz, um ambientalista alemão, e um pouco depois em 2002, pelo arquiteto William McDonough em seu livro “Cradle to Cradle: Rethinking the way we make things”. Atualmente, o termo voltou à tona devido a todas as discussões envolvendo a volta do estilo de vida sustentável. Para quem nunca ouviu falar sobre assunto, upcycling se baseia no conceito da reutilização de objetos que possivelmente seriam descartados. E não, não é a mesma coisa que reciclagem, já que este transforma coisas velhas em novas e envolve processos químicos. Pode ser visto em diversos contextos. No caso da moda, seria “dar novas funções” a roupas e acessórios velhos, podendo transformá-los em outras peças, acessórios e até em móveis e objetos de decoração.

A moda certamente não é a precursora desse novo movimento, e sim um reflexo – de muitos – do novo pensamento que está se instalando na sociedade. Hoje muito se fala de “lowsumerism” e “slow movement”, uma forma de viver e consumir mais lentamente, e o “slow fashion” não é nada mais que uma vertente desse grande movimento. Uma maneira mais devagar de consumir e produzir moda. Um contraponto à loucura do consumo a que estamos acostumados a conviver. O upcycling saiu de dentro desse conjunto de ideias. É uma maneira de ser mais sustentável e de ter uma relação mais saudável com nossos hábitos de consumo e de produção.

Indo um pouco além, se encaixa no propósito da economia circular, que se baseia na ideia de reaproveitar tudo que é consumido, saindo do processo de consumir, usar e descartar, tão consolidado na mente da maioria. Uma grande mudança para a indústria da moda, que sempre foi uma das que mais consumiu bens naturais e mais poluiu o mundo. Afinal, é necessário muito material e recurso para produzir várias coleções – inventando estações que às vezes nem existem – durante o ano inteiro, mantendo sempre a novidade e a periodicidade.

No Brasil podemos ver crescendo a quantidade de adeptos a essa ideia. A Insecta Shoes, por exemplo, tem como palavra-chave “reaproveitamento” e utiliza do upcycling para fabricar seus sapatos e acessórios. Tudo vendido na loja é feito de tecidos de roupas que teriam sido descartados. A Malha também é um outro caso brasileiro que está com toda força e tem tudo para crescer e ser referência nesse ramo. Ela tem como conceito a construção de uma moda sustentável e colaborativa, para assim criar um ambiente mais saudável.

Além disso, existem iniciativas no meio educacional para incentivar essas práticas. A Trama Afetiva, criada pela fundação Hermann Hering, traz a experiência do upcycling utilizando retalhos e sobras de tecido da Hering. Os participantes ainda contaram com a orientação de nada mais nada menos que Alexandre Herchcovitch, Marcelo Rosenbaun e Patricia Centurion. Todas as peças criadas durante esse período foram apresentadas em uma exposição em São Paulo. Também é possível identificar vários centros educacionais que estão investindo nesse tipo de curso. Alguns presenciais, como o IED – uma enorme referência no meio da moda -, outros online, como um oferecido pelo site AprendeAí, o que possibilita impactar diversas pessoas, já que a internet é um meio muito amplo.

Que toda essa ideia de upcycling ta crescendo e se disseminando tanto lá fora quanto no Brasil é inegável. A questão que fica é se realmente esse movimento veio para ficar e transforma o pensamento da sociedade de vez ou se vamos nos render novamente ao consumo e ao descarte desenfreado, dando um passo para trás.