Rua Redentor, 241. A Galeria de Arte Nara Roesler, em Ipanema, recebe de 30 de novembro a 7 de fevereiro a exposição “Handmade”, do renomado artista plástico brasileiro Vik Muniz. A exposição finalmente chega ao Rio de Janeiro, após passar por São Paulo, Nova York, São Francisco, Madri e Tóquio.

Vicente José de Oliveira Muniz, mais conhecido como Vik Muniz, também fotógrafo e pintor, é celebrado por usar materiais inusitados em suas obras, como lixo, açúcar e chocolate, em busca de desenvolver trabalhos que fazem uso da percepção e representação de imagens passando por diferentes técnicas. Entre suas experimentações estão uma cópia da Mona Lisa feita com manteiga de amendoim e geleia e um Sigmund Freud de calda de chocolate, obras perecíveis que, depois de prontas, foram eternizadas através da fotografia, resultado final de sua produção. Um dos trabalhos mais memoráveis do artista foi aquele realizado com catadores de lixo de Duque de Caxias e sobre o qual foi feito o documentário “Lixo Extraordinário” (2010), que recebeu reconhecimento internacional. Vik reuniu arte e lixo no objetivo de retratar a vida dos catadores em um dos maiores aterros sanitários do mundo, o Jardim Gramacho, localizado na Periferia do Rio de Janeiro. O artista fotografava os personagens e transformava a imagem em uma obra enorme, montada com o próprio lixo reciclável do lugar, e a trajetória desse trabalho está no longa indicado ao Oscar 2011 de melhor documentário, produzido por Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley. “Lixo Extraordinário” também mostra a realidade difícil dos catadores que dependem do lixo para sobreviver e chama a atenção para problemas sociais, ambientais e das condições de trabalho. Um dos quadros foi vendido por R$ 74 mil e todo o dinheiro arrecadado com eles foram revertidos para a Associação de Catadores do Aterro Metropolitano do Jardim Gramacho.

Com sua nova mostra, Vik faz um estudo acerca do que é realidade e o que é cópia, e reflete sobre isso através de uma linguagem poética que analisa a percepção. Em suas telas, objetos, interferências reais e cópias se comunicam e nos confundem, criando uma ilusão de ótica que requer atenção e uma certa aproximação do quadro. De longe, parece que vemos uma tela repleta de furos similares aos feitos por bala, mas ao chegarmos perto, e encararmos a obra de lado, é possível ver que alguns deles foram feitos a partir do trabalho manual com o papel, e outros são apenas imagens impressas, contando com sombras falsas que confundem o observador. A todo momento, ao contemplarmos suas obras novas, somos levados a nos perguntar sobre o que é real e  o que é reprodução. A ambiguidade dos sentidos e a importância da ilusão permeiam a mostra. Como conta o release, escrito pela curadora Luisa Duarte, “Diante de um presente hipermidiático, no qual os nossos sentidos e afetos vão sendo substituídos por imagens – o tato, o paladar, o desejo -, o artista busca nos lembrar que estamos diante de construções imagéticas que devem ser, sempre, interpretadas”. “Handmade” nos desafia a descobrir o que é verdadeiro e o que é um truque ao nosso olhar: pensamos ver sombras onde não têm e enxergamos, em um primeiro momento, objetos físicos e simbólicos do mesmo modo, sem um filtro que os separe e classifique. Essa provocação testa nossa capacidade de nos conectarmos com o que faz parte do mundo das imagens e o que faz parte do mundo palpável. Gerações que estão cada vez mais guiando sua percepção de mundo através da tecnologia, o conhecendo e explorando por meio de telas, podem sentir as barreiras entre real e representação aos poucos se diluindo.

Cada obra exposta é única, pois mistura reprodução e trabalho feito a mão. O próprio título da mostra, “Handmade”, pode ser tanto uma alusão a isso quanto uma tentativa de confundir o espectador, induzindo-o ainda mais a pensar que todas as obras são compostas exclusivamente de trabalho manual. Ou então, um nome irônico para apontar a dificuldade de definir onde está, de fato, a mão do artista. Algumas perguntas levantadas no release da mostra e que enriquecem esse debate são: “Em qual lugar fica o fetiche diante de um trabalho único, sobre o qual o artista interviu, quando não conseguimos enxergar tal operação de fato? Onde se localiza essa manualidade entremeada ao que foi pela máquina de maneira a revelar nossa dificuldade em separar ambos? O que significa colocar literalmente em um mesmo espaço, sem hierarquias, aquilo que foi reproduzido tecnicamente e aquilo que nunca mais poderá ser repetido, pois foi fruto do gesto do artista?”.

No período inicial de Muniz, objeto e fotografia se completavam como obra: a arte era feita com materiais geralmente perecíveis e posteriormente fotografada, e era sua foto que ficava exposta. Em “Handmade”, vemos de novo essa interação objeto e imagem, mas como coabitação, e não em fases separadas do processo, dificultando sua diferenciação. A ambiguidade reina sobre os quadros dessa exposição. Alguém que aterrissasse nela completamente desavisado, e andasse por ela distraído, provavelmente não perceberia as ilusões muitas vezes sutis. Até para os avisados em momentos é necessário olhar duas vezes para ter certeza como cada elemento se categoriza. Pode ser uma difícil tarefa definir onde termina a cópia e começa a intervenção feita manualmente pelo artista. A mostra brinca com nossas certezas e nos coloca em estado de desconfiança, o que parece ser uma forma de Vik nos avisar que essa conduta deve ser seguida também no mundo fora da galeria, que devemos estar atentos às manipulações diárias e discretas. Ele reflete sobre a sociedade midiática e de consumo, e pretende treinar nosso olhar.

Fios de lã, círculos e cones coloridos compõe alguns dos 30 quadros expostos na Galeria Nara Roesler. As obras são divertidas e bonitas em sua aparente inocência, com cores vivas e formas que nos remetem ao mundo infantil dos desenhos e da fantasia, mas carregam uma forte crítica a sociedade atual e um alerta à nossa percepção do mundo. Fios amarelos e azuis e representações de fios amarelos e azuis interagem formando uma hashtag (#), famoso símbolo conhecido antigamente apenas como o jogo da velha formado de Xs versus Os, ou como a tecla do telefone. Hoje em dia, porém, esse símbolo é um modo de categorizar os conteúdos publicados nas redes sociais, assim facilitando que usuários encontrem assuntos compartilhados por outros. Diversas instituições passaram a usar as hastags como meio de comunicação e marketing. O quadro de Vik parece criticar essa super-interação online que é, de certa forma, uma ilusão, pois sentimos que estamos conectados enquanto estamos afastados fisicamente e nos comunicando através de telas. Até que ponto as máquinas nos unem e até que ponto nos distanciam? Essa é mais uma reflexão a se fazer. Ao mesmo tempo que podem ser feitos diversos debates acerca da temática de Vik, suas obras nessa exposição também podem ser apreciadas por sua estética interessante e bonita. É uma arte que atinge não apenas uma elite artística, mas que é possível ser admirada e apreciada por todos. Desde seus trabalhos iniciais, com materiais efêmeros, o artista deseja alcançar também o público que não costuma frequentar galerias de arte. Ele encontra grande felicidade em ver suas obras sendo admiradas e tocando pessoas que se encontram à margem do convívio social.

Outro quadro, dessa vez no andar superior da galeria, é formado por dezenas de fotos antigas em preto e branco. Ao primeiro olhar, parece uma simples colagem de fotografias, mas, vendo mais de perto, nota-se que algumas estão realmente ali, presentes na obra em sua dimensão física, e outras são versões escaneadas e impressas, cópias com sombras falsas para se comportarem como as reais. A imagens contam com bebês sérios e sorridentes, paisagens diversas, famílias, peças de vestimenta, casamentos, grupos de amigos e muito mais. Elas fazem parte da coleção pessoal do artista, que as compra em lugares ao redor do mundo, assim mantendo uma espécie de inventário de memórias alheias, fragmentos descartados de vidas vividas em outro tempo, em contextos muito distantes. Os retratos são íntimos pois mostram os detalhes do dia a dia dessas pessoas desconhecidas, suas viagens, a dinâmica de suas famílias, o que vestiam, o que faziam, como expressavam suas emoções. A sensação é de observar algo que quase se perdeu, mas que agora está eternizado no quadro à nossa frente.

Entre cores, formas, ilusões e realidade, Vik Muniz prova mais uma vez sua originalidade e segue em uma trajetória de descobertas acerca das representações. Com essa exposição, o artista quebra nossas expectativas, pois o que esperamos ser uma foto não é, e o que esperamos ser objeto é uma imagem fotográfica. Como disse Muniz, “Em uma época em que tudo é reprodutível, a diferença entre a obra e a imagem da obra quase não existe”.