“Quem já viveu próximo a uma banda de rock, certamente se reconhecerá em alguns personagens de Xampu, que o premiado Roger Cruz me deu a honra de tecer algumas linhas. Músicos, líderes de bandas, groupies, adolescentes e adultos que se recusam a crescer. Aquela cara Anos 80 que resiste ao tempo, ditando ainda hoje o modo de vida de muitos jovens que admiram o tripé sexo, drogas e Rock´n´Roll…”

Com esse prefácio Edgar Scandurra abre o recém lançado álbum de Roger Cruz, “Xampu”. O grande e eterno guitarrista do Ira acertou em cheio em suas palavras, essa HQ retrata perfeitamente aquele espírito. Seja em festinhas de apartamento de universitários de classe média (como na HQ) ou em gigs punks nas periferias de SP, esse clima foi muito intenso na década de 1980. E quem (assim como eu) estava lá testemunhando ao vivo, vai curtir ainda mais essa sequência de histórias.

“Xampu” não é exatamente um material inédito. Roger Cruz começou a desenhar estes quadrinhos em meados dos anos 1990, na mesma época em que estava iniciando os trabalhos na Marvel. Ele chegou a publicar algumas delas em revistas independentes (estou tentando lembrar quais, mas a memória falhou…). Posteriormente a “Devir” publicou um volume com as HQs, mas não teve a devida exibição. Agora em 2016 uma parceria entre a “Panini Comics” e o “Stout Club” nos brinda com esse belo trabalho em dois volumes. O primeiro narra as situações vividas no tal apartamento e no segundo volume os personagens expandem seus horizontes para outras paragens.

Apesar de ter 84 páginas, Xampu é dividido em sete HQs curtas, onde a primeira retrata o universo geral em que tudo acontece e as demais se dedicam a cada um dos personagens centrais. Embora as histórias não se cruzem linearmente, elas estão todas conectadas pelos episódios ocorridos no apartamento. Esse recurso narrativo foi bem elaborado e torna uma leitura ágil e empolgante na medida em que vamos conhecendo mais sobre cada um.

Os enredos de cada HQ são rápidos e consistentes, mostrando que Roger já possuía bom domínio da linguagem de quadrinhos desde o seu início. Apesar de curtas, as tramas são profundas e recheadas de realidade. Aliás, uma realidade nua e crua de como era a juventude roqueira da época. Essa realidade é trazida à tona tanto pelos detalhes na arte como nos diálogos. “Prestatenção nesse trecho da música…”, “Gravei essa do programa do Kid” e “… show no Dama Xoc” são pérolas que só quem viveu aquilo tudo pode compreender.

Seguindo a linha realista os personagens podem até parecer estereotipados, mas tem comportamentos exatamente iguais à galera da década de 80. Muitos Sombras, Nicoles e Max desfilaram por festinhas e gigs reais. Isso leva a uma certa melancolia predominante no clima das histórias. Apesar de momentos bons, muitos desses personagens reais não sobreviveram a si mesmos.

A arte de Roger Cruz é intensa e visceral, potencializando o clima melancólico. Trechos em alto contraste se alternam com cenas mais iluminadas, de acordo com as emoções do momento. Da mesma forma temos quadros mais “sujos” se intercalando com artes mais clean. O nível de detalhamento das cenas é incrível e contribui muito para o tom realista da obra. Eu me diverti procurando “easter eggs” como capas de discos, posteres e camisetas em cada quadrinho. Depois das sete HQs o leitor ainda é brindado com uma oitava parte que reúne ilustrações dos personagens em momentos únicos.

“Xampu” vale cada página do início a fim! Eu li de uma vez por conta da ansiedade, mas depois fiz uma segunda leitura mais atenta, curtindo os momentos saudosistas. Roger Cruz fez parte daquela primeira leva de artistas brasileiros indo desenhando para as editoras dos EUA, mas seu trabalho aqui é beeeem diferente! Totalmente autoral e sem compromisso com estilos padronizados. O álbum pode ser facilmente encontrado nas livrarias físicas e virtuais e em lojas especializadas de quadrinhos.

Xampu
Panini Comics e Stout Club
Brochura
17 x 26 cm
84 páginas