Há exatamente uma semana o cantor carioca Nego do Borel lançou o clipe do seu single “Me solta” e foi um dos assuntos mais comentados nas redes desde então. Isso porque no vídeo, Nego interpreta sua personagem Nega da Boreli, uma travesti da favela com cabelo platinado à la Lacraia. Vestido com roupas femininas e coladas, Nego do Borel rebola aos versos que dizem “deixa eu dançar, deixa eu dançar, me solta porr*!” e beija o modelo Jonathan Dobal. O objetivo, segundo o cantor, era mostrar que todo mundo pode ser o que quiser. Nego quis trazer a representatividade LGBT, negra e favelada, assim como estão fazendo (ou pelo menos tentando fazer) suas amigas Anitta e Jojo Toddynho. Se as duas já dividem opiniões, o cantor de “Contatinho” dividiu ainda mais. Um grupo critica dizendo que “Nega da Borelli” traz uma visão estereotipada e preconceituosa dos gays e travestis. Outro grupo defende, dizendo que, à sua maneira, o carioca traz sim representatividade para a favela e para a comunidade LGBT.

Há ainda um terceiro grupo, mais conservador, que também critica o vídeo por achar um absurdo o cantor beijar outro homem e usar roupas “de mulher”.

Dentro do primeiro grupo, os críticos acusam Nego do Borel de trazer uma falsa representatividade, fazer uma piada já bem gasta com o arquétipo da “bicha preta” e tentar lucrar com o pink money. Nesses 7 dias, desde o lançamento do clipe a expressão “pink money” foi bastante usada pela mídia brasileira, seja para criticar ou defender o Nego ou para lembrar casos semelhantes no mundo pop. Mas afinal, o que é “pink money”?

Pink Money, ou dinheiro rosa, é uma expressão que descreve o poder de compra dos membros da comunidade LGBT. O pink money é quase um segmento de mercado, com a ascensão da luta pelos direitos LGBT, o público gay passou a ser um consumidor em potencial e com isso diversas empresas voltaram suas atenções para as demandas do grupo. Estima-se que a comunidade homossexual brasileira “valha” 300 bilhões de reais. Visando o tão falado “pink money”, lojas e marcas tornaram-se “gay-friendly”. De alguns anos para cá mais produtos de vários segmentos estão sendo pensados para o público LGBT. Desde coleções da C&A com roupas de estampa de arco-íris até comerciais da Boticário com casais homossexuais como protagonistas, várias empresas brasileiras estão adotando um discurso mais inclusivo.

Com a indústria fonográfica não podia ser diferente. Nosso grande exemplo é a ascensão da Pabllo Vittar, mas ela está longe de ser a única. Hoje quase toda indústria pop brasileira – a exemplo da indústria pop dos EUA – está na linha do “gay-friendly”. Anitta regravou “Show das poderosas” com a drag queen Gloria Groove, Valesca Popozuda gravou uma música intitulada “Sou gay”, Jojo Toddynho gravou “Arrasou viado”, música com um clipe repleto de celebridades LGBTs. Não resta dúvida de que há mais espaço para a temática gay por causa do pink money e isso não é nenhum problema. Até a página 2.

As críticas a Nego do Borel e até mesmo à Anitta, Valesca, Jojo e vários outros famosos não são porque eles ganham dinheiro através da comunidade gay, mas porque às vezes não fazem nada além disso. Muitos artistas até dão visibilidade para as questões LGBT, mas quando dinheiro não está envolvido a causa pouco lhes importa. Bruno Gagliaso estrelando uma campanha anti-homofobia quando tem tweets homofóbicos circulando nas redes; Claudia Leitte dizendo que os gays são seu público, mas que não quer que seu filho seja um; Joelma que faz show em boate gay, mas diz que acha errado ser homossexual, a lista de artistas que usam a causa LGBT para se promover sem realmente concordar com ela é longa.

O caso do Nego do Borel ainda é muito nebuloso. Por um lado, ele diz que criou Nega da Borelli há anos, ela é uma brincadeira, mas uma forma do artista se expressar. Por outro, ele não pensou em dar visibilidade a algum artista LGBT no clipe e até o modelo que ele beijou jamais havia beijado outro homem antes. Há ainda a polêmica foto com Jair Bolsonaro – deputado abertamente homofóbico – que o funkeiro diz ter tirado porque jamais recusa fotos com ninguém. Para o bem ou para o mal, ainda vamos ouvir falar bastante sobre Nego do Borel, seu novo clipe e o pink money, mas que tudo isso sirva ao menos para alimentar o debate.