13 de dezembro de 2019

“Experimentei a liberdade absoluta – senti meu corpo sem limites; senti que a dor não importava, que nada importava de maneira nenhuma – e isso me inebriou.” Essa frase traduz um pouco da alma de Marina Abramovic, artista considerada a “mãe da arte da performance” e que está prestes a completar 70 anos de vida.

Nascida em Belgrado, a artista sérvia vive atualmente em Nova Iorque e acaba de lançar o livro Walk Through Walls: A Memoir, uma compilação de alguns dos melhores momentos vividos por Marina em 50 anos dedicados à arte.

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Guerra, mortalidade, desilusão e o próprio tempo são abordados no livro e figuram dentre os eixos da arte de Marina. O leitor é convidado a caminhar por paredes conceituais com a artista, que nasceu na Iugoslávia comunista pós-guerra. Ela relembra memórias de infância, fala de seus pais, heróis de guerra corajosos, fortes e que sabiam manusear armas. É por isso que a própria Marina ressalta que “comunismo combinado com misticismo” fazem parte de seu DNA, um misto comum também em filmes do cineasta (ou poeta visual?) Andrei Tarkovsky. É essa intensidade que Marina conseguiu expressar em sua carreira, já que, como nenhum outro artista, ela resistiu à dor, à exaustão e ao perigo em sua busca por transformação emocional e espiritual.

Performances emblemáticas
Em 2010, Marina Abramovic atuou por mais de 700 horas na performance The Artist is Present, no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA). O público sentava frente a frente com Marina, encarando-a por um minuto. As reações eram diversas: choro, crises de riso, alguns desviavam o olhar. Mas uma coisa é certa: era muito sentimento e amor pela arte envolvido.

Mas talvez a maior e mais polêmica de suas performances tenha sido a Rhythm 0, realizada em 1974 e que objetivou testar a relação do público com a artista. Sentada em uma cadeira, Marina dispôs seu corpo às pessoas presentes, que poderiam escolher entre 72 objetos (desde uma rosa até facas, tesouras e uma pistola) para usar como quisessem. Como resultado da calma e do autocontrole da artista, o público começou a ser agressivo, ferindo-a com os espinhos das rosas e até apontando-lhe a pistola. Ao fim das 6 horas, Marina levantou-se e, com medo da retaliação, o público correu em direção à saída. Trabalhar com toda a forma de desconforto foi uma maneira de confrontar, liberar e extravasar sua própria dor.

Além das performances artísticas, Marina Abramovic rememora, em seu livro, encontros sexuais hilários, sua contribuição com a moda, seu ensaio para Annie Leibovitz, a festa de Givenchy oferecida a ela e muitas outras histórias. Depois de tanto conteúdo, fica a tentativa de responder às questões da primeira página do livro: “Como aprendemos a temer? E como desaprendemos?”. Essa urgência em descobrir a origem do medo, como ele nasce, seus efeitos e, por que não?, até como neutralizá-lo ou desaprender a senti-lo, talvez seja a força motriz do trabalho de Marina, que transformou o próprio corpo em arte, objeto de estudo e realização.


Por Thais Isel

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