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A arte que surge do luto

Desde pequenos somos ensinados que para tudo na vida existe uma solução, exceto a morte. Dela, não escapamos. E por mais que possa ser assustador pensar na morte como o fim da vida, ninguém atenta para o fato de que sobreviver à morte de um ente querido é muito mais assustador. É quando encaramos a morte de frente, quando interrompemos um elo significativo entre dois seres (humanos ou não).

Desde o estudo psicanalítico do luto, até o incondicional apoio em alguma crença, no formato de religião, fé ou similar, a verdade é que, apesar de parecer impossível, a humanidade continua descobrindo infinitas maneiras de passar pelo luto.

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Não é de se estranhar que muitos encontram na arte uma forma de amenizar a dor – seja criando-a ou sendo seu observador. Alguns artistas escolheram a arte como refúgio para processarem a dor de suas perdas e o resultado é bem surpreendente, e confortante ao mesmo tempo.

A fotógrafa Jennifer Loeber, residente do Brooklyn – NY, criou o projeto Left Behind, após a morte repentina de sua mãe. Loeber conta que, ao invés de trazer conforto e boas memórias, os pertences deixados pela sua mãe acabaram tornando-se fonte de ansiedade e tristeza profunda. A artista entendeu que só poderia seguir a vida se conseguisse interagir catarticamente com eles. Assim surgiu o projeto, mostrando diversas fotografias de sua mãe e seus objetos. 

Thin Places também mostra outra relação de uma filha que perdeu o pai quando era ainda criança. A artista de Oakland, Califórnia, Val Britton, faz um trabalho imersivo de colagens e pinturas, em papéis ou instalações específicas, de forma abstrata, mas que mapeia o espaço físico e psicológico. A ideia surgiu como uma forma de se conectar com o pai, que era caminhoneiro. Britton se inspirou em mapas rodoviários, rotas, estradas nas quais seu pai frequentemente passava e que dão forma ao trabalho da artista.

Candy Chang, uma artista de dupla nacionalidade (Taiwan e Estados Unidos), resolveu celebrar a vida após perder uma pessoa querida. Chang criou uma instalação em New Orleans, batizada de Before I Die. A artista pintou um muro abandonado a frase Before I Die I Want To… (em português “Antes de Morrer Eu Quero…”) e para sua surpresa, em menos de 24 horas, o muro estava repleto de respostas. Desde aspirações pessoais como “ser eu mesma, completamente” até mensagens de esperança, como “igualdade para todos”. O projeto, que exalta a natureza otimista do ser humano, foi recriado em mais de 500 cidades e 70 países diferentes.

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O muro original, em New Orleans, onde o projeto começou.

Outro projeto que recebeu inúmeras críticas positivas foi o Untitled, do artista nascido em Cuba e naturalizado americano, Felix Gonzalez-Torres. O artista transformou New Jersey em poesia viva no ano de 1991, o mesmo ano em que perdeu seu parceiro de 8 anos, Ross Laycock, em decorrência da AIDS. Gonzalez-Torres espalhou 24 outdoors com fotografias em preto-e-branco em homenagem ao parceiro. A mais icônica, de uma cama vazia, remete a um lugar de intimidade e conforto no passado, e que se transforma em um lugar de solidão e isolamento. Gonzalez-Torres, que acabou falecendo também em decorrência da AIDS em 1996, conseguiu expor seu trabalho poético e quieto em locais frequentemente usados para grandes e chamativas publicidades.

Ainda que expressado de forma distinta por cada indivíduo que atravessa a experiência de uma perda significativa, o processo do luto transcorre igualmente para todos. O conforto e o apoio que as pessoas encontram nas mais diversas possibilidades existentes é o que faz com que a duração ou a intensidade do luto sejam modificadas. A arte, como expressão fiel do comportamento psicológico de cada um, mostra como é possível ver beleza até na dor, ainda que seja uma dor inevitável.


Por Patricia Janiques

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