9 de dezembro de 2019

Misturar a nobre arte do cinema com motoristas de transportes irregulares completamente leigos pode soar estranho, mas funcionou muito bem para Caito Mainier, Daniel Furlan, Leandro Ramos e Raul Chequer – ou, se preferir, Rogerinho, Renan, Julinho e Maurílio – da mais nova febre da internet, Choque de Cultura.

A ideia central do programa semanal da TV Quase e da Omelete TV no Youtube é sempre repetida por seu apresentador no início de cada episódio: “Um programa cultural com os maiores nomes do transporte alternativo deste país”. Quatro motoristas de vans ilegais comentam o que acham de filmes aclamados pelo público ou pela crítica. Fazem seus próprios rankings de filmes, cenas e até atores. O que levam em consideração para fazer as ponderações: suas simples e leigas opiniões.

Mas Choque de Cultura vai muito além de 4 atores interpretando motoristas e falando sobre cinema. Além de render altas risadas, os esquetes desierarquizam a sétima arte e usam os grandes sensos comuns do cinema para justamente ironizar as máximas dos especialistas. Ao falar sobre “Velozes e Furiosos”, Julinho dispara “Cinema é o quê? Explosão, carro e mulherio”. Através de uma boa dose de sarcasmo o Choque admite que a franquia de Vin Diesel é bem ruim, mas também nos lembra que isso não impede que também seja divertida. Eles também não se cansam de brincar com o cinema nacional, que é sempre ou cabeça, ou comédia.

O programa é quase um manifesto contra as análises complicadas e os nomes difíceis. Maurílio, o motorista de atores da Globo metido a grande entendedor de cinema é sempre cortado por seus colegas quando tenta fazer pequenos discursos sobre os filmes, o que lhe rendeu o carinhoso apelido de Palestrinha. “Você demorou isso tudo para explicar o que é cópia¿ Como você chega em mulher¿” respondeu um dos outros “pilotos” depois de Maurílio tentar traduzir o conceito de “spin-off”.

As críticas e ironias do Choque de Cultura vão muito além do mundo do cinema e das séries. Há espaço para criticar a “cultura jovem” entre muitas aspas. “Quer coisa mais jovem do que Bruno de Luca em um slackline?”, solta Rogerinho em um de seus não raros pitacos e conselhos sobre a juventude – interlocutor explícito do programa. Há espaço também para criticar condutas de trânsito, ideias sobre justiça, defesa do armamento e muito mais.

O Choque de Cultura começou em novembro de 2016, ainda sem apoio da Omelete TV. Tudo começou por uma ideia de Caíto Mainer e Daniel Furlan, que já protagonizavam juntos o “Falha de Cobertura”, um programa também da TV Quase e hoje apoiado pelo Sportv que fala sobre esportes de uma forma descontraída e irreverente.

O Falha por sua vez surgiu de uma ideia de Daniel Furlan (Renan e Craque Daniel), que apresentou os últimos anos do clássico Rockgol da MTV. A concepção do programa se assemelha bastante ao finado Rockgol: trazer toda semana um convidado para debater o que houve de mais importante no mundo de esportes, e isso tudo sem a mínima noção. Diferente do programa da MTV, os convidados não são do mundo da música, mas sim humoristas ou produtores de programas de humor.

Tanto o Choque quanto o Falha contam com nomes relativamente jovens, mas com um currículo invejável no audiovisual. Raul Chaquer, o Maurilio dos Anjos, é um dos roteiristas do premiado cartoon “Irmão do Jorel” e ator da série “Décimo Andar”, do Canal Brasil. Leandro Ramos, o Julinho da Van, dirigiu “Larica Total”, também do Canal Brasil.

Daniel Furlan, é um dos criadores do “Irmão do Jorel”, atuou em “La Vingança”, em “TOC”, com Tatá Werneck, e em “Copa de Elite”. Fez parte do programa “Furo MTV”, “Ladynight”, “MTV Sem Vergonha” além do “Rockgol”. Isso só para citar uma parte de sua história.

Já Caíto Mainer, o Rogerinho do Ingá e Cerginho, era desconhecido até 2016, mas promete ser um dos que mais terá destaque em 2018. Em 2016, o roteirista dava aula em cursos técnicos até que foi chamado para ser um dos redatores-chefe do aclamado “Ladynight”. Também dirigiu “Larica Total” e foi roteirista de “Irmão do Jorel”. Só neste ano ele estará em  “Quase uma dupla”, “Chorar de rir” e “Os salafrários”.

A repercussão do Choque de Cultura é tão grande que eles já ultrapassaram 1 milhão de visualizações com seus vídeos. Neste carnaval, não faltaram fantasias dos pilotos. Até mesmo um bloco de rua o Choque ganhou: os fãs do programa organizaram o “Bloco dos Amantes da Sétima Arte”, que rolou neste sábado (17) com mais de 5 mil confirmados no Facebook. Choque de Cultura não é assim um “Velozes e Furiosos”, mas é bom.

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Cecília Quevedo

Cecília é brasileira sofredora de 7x1, eterna admiradora da seleção de 82 e de um futebol bem jogado. Gosta de samba, moda, literatura, artes plásticas e coisas que envolvam a América Latina de uma forma geral. No mais, acha extremamente difícil falar de si na terceira pessoa.

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