Sempre penso que o Rio de Janeiro passa irreconhecível nos produtos culturais. Ou aparece solar demais ou brutal demais. O Rio é uma cidade marcada pelo abandono. É a personificação de um ex, ex-capital, ex que ficou, que levou um violento pé na bunda. Indústrias abandonadas, fábricas abandonadas e um abandono social. Aquele cinza cor de concreto com suaves passagens de luz é o Rio de Janeiro. Melancólico, mas não de todo triste, algo no meio. Um lugar que sabe se salvar sozinho do jeito que dá.

O projeto Favelagrafia parece curar esse problema, ao menos no que diz respeito ao seu perímetro. Nenhuma das fotografias publicadas nas redes do projeto parece dramática demais, encenada demais, justamente porque nada é. É orgânico. Mesmo quando posado é composição. 

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O mais legal do projeto é que não tem um olhar de fora, um olhar estrangeiro elitizado glamourizador da desigualdade, muito menos oportunista. É um projeto de dentro, do ventre de quem vive o dia a dia periférico. E é lindo.

Os registros são feitos através de smartphones e abrangem 9 comunidades do Rio de janeiro. Vemos moda, arte, comportamento e vivências registradas em cores diferentes das mesmas de sempre dos pincéis brancos dos favela movies. É por isso que lugar de fala existe, é por isso que o olhar particular deve ser respeitado.

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Os gadgets mais acessíveis significam novas histórias e novas poeirinhas não visitadas, aquilo que fica no canto e ninguém acessa (lembrando que a iniciativa é da NBS rio+rio e os iPhones SE foram fornecidos pela Apple para os 9 fotógrafos do projeto). Há muita vida na favela, favela, assim, antes de ser chamada de comunidade e antes de ser ocupada. Há carência, mas também há luz, luz na carência é criatividade, inovação, empreendedorismo. Isso me lembra um texto do (maravilhoso) Ricardo Terto, aquele sobre perifa e startup. Permita-me lembrar:

“Tão entendendo? Não tô aqui sabe, entrando no papo de origem social. É mais assim
a mente do cara e da mina que faz rima no rap
É uma interface com uns links
com umas conexões
que geral não tem IDEIA de onde veio aquilo.”

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Agenda

Por Érika Nunes