O deserto que existe em cada um de nós

sau·da·de
sf
1 Sentimento nostálgico e melancólico associado à recordação de pessoa ou coisa ausente, distante ou extinta, ou à ausência de coisas, prazeres e emoções experimentadas e já passadas, consideradas bens positivos e desejáveis; sodade, soidade.

Em sua individual na Galeria Athena Contemporânea, a artista Raquel Versieux criou um pequeno mostruário de registros das suas caminhadas pelo sertão a partir de uma residência artística no Cariri – PE.

Objetos e imagens foram estruturados pela artista andarilha que propõe um mapeamento traçado durante o próprio percurso da viagem. Raquel apresenta a documentação de uma paisagem que deixa a dúvida de ser real ou se está sendo inventada. Há um mistério por todo o espaço da galeria que nos pergunta: o que ela atravessou e pelo que ela foi atravessada neste caminho?

Imergir num processo de residência artística me parece optar pela incerteza. Uma escolha tenaz acerca do desejo de conhecer o outro e a si mesmo. Aliás, a melancolia trazida pelo exílio também está aplicada nesta Saudade, pensada e mostrada por Raquel. Enquanto resultado, uma conjuntura literária digna dos grandes mestres da escrita brasileira, estamos diante de uma exposição que ocupa o lugar de um relato de viagem sem se pretender a isso.

Apesar da efemeridade e perenidade da matéria de seus trabalhos, a artista usa artifícios da paisagem para sustentar sua tese na natureza: barro, pedra, raízes, poeira, cores da terra, seca, azul, luz, água, tempo, ritmo e espaço. Nesta mostra, uma espécie de sedução pela ruína que existe em cada um de nós, permeada por instabilidades e impermanências.

O que Raquel apresenta é desconstrução, seja do ideário popular de um sertão, de um método clássico de se pensar e até de questionar a arte. Criou narrativas ao produzir seus trabalhos e deixou que estas peças fossem os documentos de sua passagem.

Como compôs Caetano Veloso, em Fora da Ordem, Aqui tudo parece que ainda é construção e já é ruína. O Cariri da Raquel Versieux respira abstrações e presenças apesar de não haver figura humana alguma nos registros da artista. Com todas as incertezas que vida impõe, os trabalhos da artista indiciam que as evidências se constróem na caminhada.

[divider]Serviço[/divider]

Galeria Athena Contemporânea

Raquel Versieux | Saudade e o que é possível fazer com as mãos

Segunda à sexa– 11h às 19h

Sábado – 12h às 18h

Av.Atlântica, 4240 – 210 . 211 – Copacabana

Rio de Janeiro – Brasil

Por Michaela Blanc

Show Full Content
Previous Crítica: A Visita
Next Os Vencedores do Globo de Ouro 2017

Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close
Close