7 de dezembro de 2019

Ao longo da vida percebemos que muito mais do que escolhemos ser, somos, na realidade, parte de um processo de imposições que recebemos (de forma nem sempre tão suave) ao longo de nossas vidas. Independente de gênero ou etnia (mas é claro, entendendo que alguns grupos são bem mais sensíveis do que outros) somos sempre bombardeados de referências de bom e ruim, suficiente e insuficiente, péssimo – ok – maravilhoso.

Falar em moda é, mais do que entender tendências e padrões, buscar no mundo aquilo que nos representa para poder encará-lo de frente. Aos poucos a sociedade vai começando a perceber que não é a pessoa real que deve se adequar aos padrões, mas sim as tendências que devem atender e vestir gente de verdade (que está muito interessada em se ver representada em campanhas e afins). Por outro lado, bem sabemos que a indústria da moda e da beleza estão longe da pouca crueldade (com nossas autoestimas já tão pré-moldadas). E uma coisa que faz com que tudo se torne mais leve é o contato com outras pessoas que vivenciam processos parecidos com os nossos – ou você acha que essas inseguranças são só suas, honey???

Falar em moda é, cada vez mais, falar em empoderamento. É buscar peças, tendências e seja lá o que for que venha para nos dar confiança, coragem e nos colocar bem lindes na vida. E, por isso, hoje venho fazer dessa coluna uma carta autoral e aberta, contando sobre minhas vivências recentes e sobre o quanto essa troca (que hoje me proponho a fazer daqui) vem sendo importante no meu encontro com minha essência.

Eu sou mulher, crespa, e hoje me reconheço como negra. Aos poucos percebo minhas origens, meu lugar. Mas esse processo não foi e nem é simples… Mas, nem por isso deixa de ser lindo.

Foto: Gabriela Isaías

Crescida em uma família de criação muito libertadora (em muitos sentidos) sempre tive incentivo para me amar e aceitar como sou. Não fui aquela adolescente que alisava o cabelo, por exemplo. Senti, por muitas vezes, vontade de fazer parte, de ser igual as amigas… De ser padrão. Mas esse ambiente familiar me mostrava o quanto poderia ser mais legal fugir disso tudo.

Devemos ser francos: Também nunca assumi meu cabelo. Já bem novinha comecei a fazer relaxamentos e algumas outras cositas para definir os cachos e reduzir o volume. Afinal, não era tão legal assim ser chamada de cabelo de samambaia sempre (ok ok! eu zoava de volta, levava na sacanagem. Mas devo admitir que tinha um peso prático).

Há pouco mais de dois anos decidi que queria conhecer meus cachos. Não só porque aquelas químicas estavam deixando meu cabelo frágil, mas porque achei que seria o mais legal a fazer por mim. Parei um tempo de fazer coisas nele, e como era de se esperar, cabelinhos novos surgiram. E na frente tão miudinhos. Eu fiquei com medo e desisti. Voltei para o relaxamento, dor e a cabeça machucada. Só que dessa vez não foi a mesma coisa. Acho que algo em mim já queria deixar essa essência sair. Então poucos meses depois escolhi retomar o processo… Dessa vez decidida, tentei fazer de forma diferente: Sabendo que não iria desistir, optei por antes testar ele de outras formas. Então caí dentro da progressiva (porque, né? Nem sempre as coisas precisam ser tão lineares). Não fiz para ficar lisa, mas para deixar os cachos o mais aberto que eles pudessem ficar. E devo dizer que foi uma época no qual amei o meu cabelo: Curti quando estava de escova, curti quando estava com os cachos abertos… Curti. Então senti que era chegada a hora de seguir adiante. No final de 2015, fiz um corte bem curtinho atrás e maior na frente e foi alí, sentada naquela cadeira do salão do shopping do bairro que eu me apaixonei! Hoje sei que meu cabelo tem umas 3 texturas diferentes, e que a de trás (pra mim) é a mais linda de todas. Ver aqueles cachos encheu meu coração de alegria, de amor, de vontade de deixar todos os cachinhos se mostrarem sem medo. E em fevereiro de 2016 fiz o meu tão controverso BC (Big Chop). E aí se iniciou um longo, difícil e lindo processo (pelo qual ainda passo hoje, 1 aninho depois).

Chegar em casa aquele dia foi estranho. Meus pais me olharam com cara de descrédito, pena, orgulho… tudo misturado. Por sorte tinha ao meu lado um parceiraço  (na época meu namorado) que me incentivou e ajudou dia após dia. Mas poucas eram as manifestações de incentivo, viu? Familiares, amigos… pessoas que sei que me amam verdadeiramente. Pessoas que sei o quanto me querem bem: muito me criticaram. E, especialmente no começo, foi difícil. Entender as finalizações,  os formatos e possibilidades levou um tempo. Foram sequências de “bad hair day”, e de uma insegurança que só fazia crescer. Nesse intervalo busquei a experiência de meninas que passavam pelo mesmo processo,  e isso me empoderou.

Um divisor de águas foi quando fiz o meu primeiro Black  (pequeno,  tímido). Naquele momento senti um encontro com algo que estava muito além de estética, cabelo… foi um encontro com ancestralidade, com o orgulho de ser parte de um povo e uma história que segue em luta. E, aos poucos, me aproximo mais dessas pautas. E dos estilos possíveis . Ainda falando de cabelos, fiz boxbraids (tranças afro) duas vezes e foram meses de muito amor próprio. Além de auxiliar o crescimento do meu cabelo, as tranças reforçaram meu autoconhecimento.

Hoje tem coisa de um ano que vivo com meu cabelo au naturel. Um ano agradecendo por ter na cabeça não somente algo que combina perfeitamente com a minha personalidade, mas que me une a tanta gente, a tanta história e tantas causas. Não é só estética. É sim, um processo de descobrimento em muitos sentidos. E a despeito dos padrões estéticos vigentes, somos lindas! Somos maravilhosas com nossos cachos, crespinhos, curvinhas abdominais, marcas etc etc etc. O que eu quero com tudo isso é mostrar que estamos muito além desses limites, e por mais difícil que seja nossa desconstrução: ELA VALE CADA DIA! Então sigamos!

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Lorena Freitas

Geógrafa por formação, bailarina por amor e crespa por paixão, Lorena é uma estudante carioca que passa a vida em busca de soluções capazes de melhorar a qualidade de vida. Como boa taurina: é boa de garfo (e como come!) e amante das artes. Por isso se aventura em danças e circos para deixar a vida mais leve! Tem uma cabeça grande que nunca para de trabalhar e divide aqui na WOO suas loucuras e delícias.

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