Com libreto de Geraldo Carneiro, direção de Duda Maia e música de Beto Villares, espetáculo inédito aborda a onda de migrações no mundo.

Depois de trabalharem juntos na bem-sucedida ópera de câmara “Na boca do cão”, o poeta Geraldo Carneiro e a soprano e atriz Gabriela Geluda retomam a parceria em um projeto inédito. “Migrações” é uma ópera performática sobre os deslocamentos de milhões de pessoas em diferentes épocas, da mítica Tróia aos refugiados da Síria hoje. Com direção da premiada Duda Maia, libreto de Geraldo Carneiro e música de Beto Villares, “Migrações” estreia em 11 de abril, no Mezanino do Sesc Copacabana. No elenco, além de Gabriela Geluda, está a bailarina e atriz Gabriela Luiz. Com apoio cultural e correalização do Oi Futuro, o espetáculo é uma realização de Gabriela Geluda e SESC.

Idealizador do espetáculo, Geraldo Carneiro se encantou com experiência de fazer o libreto de “Na boca do cão” (um projeto pessoal de Gabriela Geluda) e, desta vez, o convite e o tema partiram dele. “Os fluxos migratórios sempre existiram. Esses movimentos são motivo de fascínio e terror, desde a Guerra de Tróia à diáspora africana. Queria falar da necessidade de transformar a migração numa preocupação permanente, mas de forma poético-alegórica. Não queria uma obra naturalista. É preciso abrir as fronteiras do conhecimento, do afeto, compreender que existe o outro e que ele precisa ser compreendido na sua diferença. As migrações são permanentes, mas as fronteiras são sempre provisórias.”.

Migrações” mistura música, dança e teatro num formato bem diferente das óperas tradicionais, buscando o conceito da ópera performática –no qual a cena se torna uma experiência para o espectador, sem a necessidade de uma história com começo, meio e fim, mas trazendo imagens e sonoridades que conduzam o público em uma dramaturgia particular. Com quase trinta anos de experiência como soprano solo das óperas de Jocy de Oliveira, Gabriela Geluda acredita na importância de levar a ópera a um público mais diverso, ampliando os limites do gênero.

“Investimos numa composição inédita e trabalhamos com uma equipe reduzida. Assim, faremos uma temporada mais longa que a de uma ópera tradicional. Minha família é de origem judaica, meus avós são judeus e vieram para o Brasil fugindo da Segunda Guerra. Tenho três avós poloneses e uma alemã. Migrar para sobreviver é uma realidade bastante forte na minha família”

Explica Gabriela, que também exalta a importância da temática do espetáculo. A artista que, além de estar em cena, assina a realização do projeto.

Composta pelo produtor musical e compositor paulista Beto Villares, com arranjos do artista pernambucano Armando Lôbo, a música permeia o espetáculo no limiar entre uma ópera e um espetáculo com uma trilha. Com experiência em cinema (como “Xingu”, “Bingo, o rei das manhãs” e “Filhos do Carnaval”), Beto viu no convite feito por Geraldo um desafio profissional. “É um universo totalmente diferente de tudo que já vivi. É a primeira vez que componho para uma cantora lírica, e a troca com a Gabriela durante o processo de criação foi muito importante”, conta. “A emoção que eu queria passar é de uma beleza com desamparo, tristeza e seriedade.” O trio formado por Cristiano Alves (clarinete), David Chew (cello) e Rodrigo Foti (vibrafone) executa a música ao vivo.

Os poemas do libreto abordam questões brasileiras e mundiais relacionadas aos processos migratórios. As cenas são conduzidas pela soprano e atriz Gabriela Geluda e a bailarina e atriz Gabriela Luiz – esta carrega sua experiência com danças populares e urbanas e capoeira. Elas se multiplicam criando diferentes corpos e vozes. Entre as obras que serviram de inspiração na construção do espetáculo, a diretora Duda Maia destaca documentários com cenas fortes sobre o tema: “Human flow”, do artista e ativista chinês Ai Weiwei, e “Os capacetes brancos”, do britânico Orlando von Einsiedel.

“Alguns fatos me chamaram a atenção para esse tema. O número de refugiados, quase 70 milhões, é algo que espanta. Eles não têm lugar. Pesquisamos muito para construir uma fisicalidade que trouxesse uma experiência sensorial de falta de espaço, opressão e abrigo, dentro de uma encenação poética. Queremos falar dessa dureza com beleza. Na cena, nos corpos, na fala, na música e na plasticidade”

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