Pois bem, ontem foi o Dia Internacional das Mulheres. Aquele dia que ficou mundialmente conhecido e resguardado para lembrarmos das lutas femininas por respeito, tolerância e, principalmente, igualdade.

Não me admira a quantidade de presentes, flores, chocolates que muitas de nós recebemos nesta data. O tanto de “parabéns pelo seu dia” e todo o resto do repertório. Tudo muito bom, tudo muito bem.

Mas isso tudo foi ontem. E hoje, é dia do que?A história de luta das mulheres é um caminho que começa a ser trilhado desde muito antes do nascimento. Ele já se inicia nas expectativas que a sociedade cria a respeito do que devemos ou não gostar assim que viermos ao mundo.

O quarto da menina será rosa. Os presentes serão bonecas, utensílios similares aos de cozinha, bolsa da Barbie e maquiagem da Sandy. A bola, o vídeo game, os carrinhos e bonecos do Batman ficam para os irmãos ou primos.

No caminho da adolescência e se estendendo para a juventude, a menina tem que saber se comportar, porque, cá entre nós, “as garotas de hoje em dia” não são fáceis, né? Conhecer os detalhes da etiqueta, afinal, todas nascemos para receber o título de dama; não usar roupas curtas porque está chamando atenção e, se acontecer alguma coisa, a culpa será nossa; não beber; não andar com meninos; não sair para a noitada. Não, não e não. Assim seremos meninas de respeito.

Mas, não esquecendo que, mesmo não podendo fazer muita coisa – por sermos menina – nós também não podemos “relaxar”: manequim 38, cabelo escovado, unhas pintadas, corpo depilado e maquiagem impecável. É a famosa Barbie do lar.

E o fardo a ser carregado nas costas das mulheres só aumenta com o tempo. São os empregos em que recebemos menos ou duvidam da nossa capacidade pelo simples fato de sermos do sexo feminino; são as cantadas nas ruas que pioram a todo o momento e aumentam o medo de ir e vir; são os relacionamentos abusivos que aparecem – aqueles em que o parceiro não te deixa passar maquiagem, usar uma roupa que você gosta, sair sem ele para algum lugar, mexer no celular sem ele vigiar – e que retiram a sua paz de espírito.

São todos aquele tipos de abusos que sofremos quando acham que não somos donas de nossos corpos e resolvem violá-los ou exercer poder sobre eles como se fossem objetos.

No Brasil, todos os dias temos notícias de mulheres que são agredidas fisicamente ou psicologicamente por seus companheiros, ou até mesmo desconhecidos. Isso sem falar nas mulheres transgêneros que, muitas vezes, são completamente esquecidas pela sociedade e vivem às margens, vulneráveis a quaisquer tipos de violência. Além da mulher negra, da mulher gorda ou da mulher lésbica.

Por isso eu repito a pergunta: ontem foi Dia das Mulheres, e hoje, é dia do que?

Enquanto não lutarmos para que a cultura machista, tão enraizada e naturalizada em nosso convívio diário, seja exterminada, não teremos uma sociedade segura para a vivência das mulheres. Não adianta parabenizar ou presentear uma mulher no dia de ontem, se hoje você foi machista, misógino ou preconceituoso de alguma maneira.

Mulher merece e deve ter respeito, igualdade e tolerância todos os dias.

Por isso, para esse dia 08 de março – que já passou – e para todos os outros dias que virão, o meu desejo é que todas as mulheres reconheçam suas forças, percebam o quanto são completas e podem ter uma vida aprazível, independente do que a sociedade as impõe. Desejo que a luta feminista – às vezes tão mal vista por alguns alheios ao assunto – se fortifique e traga mudanças para a vida de todas nós.

Que a mãe solteira, a batalhadora, a transgênero, a negra, a índia, a gorda, a lésbica e todas as mulheres sejam felizes e possam viver de maneira livre e segura. Que possamos encontrar coragem e energia no apoio uma da outra. Que o Dia das Mulheres seja sempre lembrado por todas as lutas já conquistadas por nós – como o direito ao voto – e pelas lutas que ainda virão, mas que não seja interpretado somente como um dia qualquer de mandar flores para a esposa. Já pensou em dividir com ela os serviços domésticos, por exemplo?


Por Michele Matos