Como um desafio à pintura, nos anos 60 surge a arte performática, influenciada pelas vanguardas Futurismo, Dadaismo, Hilismo e Surrealismo. A performance é uma forma de arte em que o corpo é a obra, e parte do princípio de que toda época tem um código corporal. É considerada como “libertadora”, não é algo para se estatizar em paredes. A artista performática Marina Abramović, um dos grandes nomes da arte performática, iniciou a sua carreira nos anos 70 e até então se manteve em atividade. Auto-denominada como “avó da performance” , Marina usa o corpo humano para expressar opiniões que podem ser violentas ou provocantes e com isso desafia o público audaciosamente. Em sua maioria, seus trabalhos são intervenções e a essência deles é o compartilhamento da experiência entre público e artista, os limites do corpo e as possibilidades da mente.

Nascida na Iugoslávia, Abramović teve uma infância atordoada, seus pais eram comunistas e heróis nacionais durante a Segunda Guerra Mundial. Em casa havia um controle muito rígido, tudo era disciplinado e com horário, Abramović foi criada como um soldado. A artista sentia falta de afeto por parte da mãe – que justificava alegando que não queria mimá-la – e não lembra da mãe a beijando ou a abraçando. Por outro lado, enquanto os pais estavam em missão política e não tinham tempo para a filha, Marina pôde manter uma relação com a avó que era muito ligada à religião e sempre mimava a neta. Essa mistura entre religiosidade e carinho com a disciplina comunista fez a artista refletir, nos dias de hoje, como isso é algo importante, já que fez dela quem ela é.

Amor em performance

Marina conheceu Ulay quando foi à Amsterdã para uma apresentação. Durante a performance a artista fazia um pentagrama na barriga com uma lâmina e se chicoteava. Ao usar a pontas cortantes Marina cria intensidade nas performances, o que as tornam transcendentais. Ulay não acreditou na capacidade da artista em fazer aquilo, mas depois começou a notar as feridas. Quando se encontraram foi uma fascinação imediata pelo caráter, pela personalidade e pelo trabalho individual dos dois artistas. Os dois juntos eram como irmãos perdidos e gêmeos ligados por corpo e alma. Abramović é uma mulher sem limites e encontrou alguém que também estava preparado para tudo pela arte. Quando se juntaram para o trabalho conhecido como “Relation Works” nada igual tinha sido incorporado antes por outros artistas. Nessa performance os seus corpos se encontravam de forma confrontante. A intenção era mostrar os conflitos entre homens e mulheres e as experiências traumáticas dos relacionamentos. Marina e Ulay viviam como nômades em uma van, ela só se preocupava com os trabalhos domésticos, enquanto ele resolvia os problemas externos. Quando se separaram Abramović teve que começar do zero, não sabia resolver nada que tivesse relação com banco e coisas do tipo e reformulou totalmente a forma como vivia.

A artista presente

Toda a sua trajetória com a arte performática foi transportada em 2010 para o MOMA, Museu de Arte de Nova York. A retrospectiva de toda a sua carreira ocupou todos os seis andares do museu. Marina Abramović tinha, na época, a intenção de ficar para a história. Para ela, ao iniciar uma carreira, um artista performático tende a ser visto como alguém que deveria estar em um hospício e que o público leva um tempo para entender e respeitar. O maior desejo da artista é morrer depois que a performance estiver alinhada a uma forma de arte e de respeito, tudo ao mesmo tempo.

Foi lá no MOMA que aconteceu a sua apresentação mais marcante. Ao organizar a exposição, Abramović abdicou qualquer tipo de objeto que tivesse perpassado por sua trajetória. Ela selecionou apenas imagens e preparou, em sua casa no campo, um grupo de artistas para reinterpretarem as suas principais performances – que estiveram espalhadas pelo museu. Intitulada como “A Artista Está Presente”, Abramović ficou os três meses de exposição sentada, sem se mexer, disponível ao público. Muitas pessoas compareceram formando longas filas para passar um minuto em silêncio olhando para Marina. Alguns se emocionaram quando estiveram face a face com a artista. As pessoas se sentiram engajadas na presença física dela, que concentra a força e energia física que o prestígio do público lhe dá.Para o encontro do visitante com a artista, Marina usou de referência um cenário de filme: um quadrado como no filme “Encontro e Desencontros” e no meio do quadrado uma mesa e duas cadeiras. O objetivo era ser como uma pedra ali e olhar nos olhos. “Ninguém entende que o mais difícil é fazer algo que é quase nada. Isso exige 100% de você, não há mais história para contar, não há objetos dos quais se esconder, não há nada. É só a sua presença, você só tem a sua energia e nada mais” disse Marina quando estava se preparando para a sua performance, que durou 700 horas, no museu de arte.

Outra interpretação imprescindível na carreira de Marina Abramović foi a que ela fez em “Rhythm 0” e ainda tiveram outros números sucessivamente. Com os objetos as pessoas podiam usá-los contra ela. É um experimento científico que revela a natureza humana. E muitas questões são trazidas, como: O que é arte senão a revelação da natureza humana? Será que ela seria assassinada, pois deixou uma pistola para que o público pudesse exercer contra ela? Quem entra e quem sai nessa performance? É espantoso como rapidamente um grupo de pessoas se tornaram animalescas ao terem tal permissão.

Para se preparar para a realização de performances, Marina usa um método que explora o corpo em busca de autoconhecimento e ela costumava compartilhar esse método em workshops para estudantes. A cantora Lady Gaga firmou uma parceria com a artista no denominado Método Abramović. O trabalho resultou em um vídeo divulgado antes do lançamento do disco ARTPOP. Abramović também se destaca como figura pública. No universo da moda, a artista contesta nossas crenças e estereótipos que criamos para o outro, assim como criamos para o nosso próprio corpo. Seu nome tem fama mundial e Abramović continua a fazer jus à sua cabeça com ideias que nunca param.


Por Graziella Ferreira