Sobre ser e estar presente

Qual o tempo estimado, ao longo do dia, que você acredita cabalmente estar presente?

Não, não digo presença física, porque isso engana até os mais distraídos. Aqui estou falando na presença mental, espiritual, energética. Aquela que te faz estar em plena sintonia com a situação em que você vive. Que te faz esquecer todo o excesso de pensamentos ao seu redor e te faz se importar com o que realmente precisa de importância.

Mas ora, você deve estar se perguntando: como haveria de acontecer uma pessoa não estar presente em uma situação estando ela na situação. Explico.

Quantas vezes você já se pegou fazendo tarefas de maneira mecânica, enquanto a mente flutuava por lugares distantes? Quantas vezes você já se pegou lendo um livro ou uma matéria de jornal e, ao terminar a leitura, se deu conta de que não tinha entendido absolutamente nada? Mais que isso, se você fechar os olhos, consegue detalhar algum lugar que você visita com frequência?

Quantas vezes você já se pegou preso em uma série de pensamentos negativos, que te deixam mal, mas que não consegue se livrar de jeito nenhum?

Se você se identificou com essas situações, peço calma. Isso é extremamente comum.

A contemporaneidade nos obriga a conviver diariamente num mundo em que por todos os lados temos informações diversas que chegam a cada instante com um misto de pressa e ansiedade. Não há tempo de processar, de respirar, de pensar. De viver.

Por isso, cada vez mais, nos pegamos distraídos, longe de nós mesmos, ansiosos. Enquanto isso, deixamos nossas vidas em segundo plano e gastamos nossas energias em pensamentos que nada contribuem para o agora. O que se torna um hábito nocivo.

Isso porque, como não temos tempo de viver o momento presente e de nos concentrarmos nele, pensamos em situações passadas e vivemos na expectativa do que poderá acontecer no futuro. Ficamos com a angústia do que já se foi – seja remoendo algo ou retornando à lembrança de algo que foi muito feliz – ou ficamos esperando o que vem no amanhã, enquanto o hoje – o mais importante do trio – fica esquecido pelos cantos.

Afinal, o ontem já é tão distante e o amanhã tão incerto que gastamos energia, oportunidades e tempo com pensamentos que não trazem nada além de ilusões e mágoas.

Estar presente é usar todos os seus sentidos de maneira atenta, constante. (Foto: Pixabay)

Para vivermos de maneira mais harmônica e conquistarmos, finalmente, o tão sonhado futuro feliz, precisamos começar no hoje. Quanto mais gastamos energia com o que não importa, mais teremos essa energia desperdiçada. Precisamos voltar a prestar atenção nas tarefas simples, como o ato de respirar corretamente, saborear uma refeição se deliciando com os mais diversos sabores, olhar e reparar o lugar em que estamos, descrevendo suas características e detalhes.

Uma dica: use os cinco sentidos. Tato, olfato, paladar, audição e visão. Tenha calma, aprecie, vá sem pressa. Esteja atento(a).

Há, no budismo, um termo chamado Samadhi. Quando atingimos a meditação plena e estamos em sintonia com nosso “eu interior” por inteiro, alcançamos o Samandhi, ou seja, a plenitude da nossa presença. Podemos comparar esse termo, costumeiramente associado à prática da meditação, com nossa vivência no dia a dia.

Ao estarmos completamente presentes e conscientes de uma situação cotidiana, vivemos a sua plenitude e, assim, mantemos nossa energia inteiramente focada nela. Isso faz com que entremos em um momento que, mesmo mantendo a consciência no mundo material, nosso padrão de consciência fica alterado e se amplifica, de maneira que adquirimos em uma nova visão de mundo.

Tudo isso acontece porque vemos o quanto somos pequenos diante do universo. Ao invés de nos distrair com pensamentos aleatórios, em um ou outro problema, na verdade vemos que nossa existência é muito maior do que esses contratempos que insistem em aparecer. Estar presente nos faz sentir completos, vivos, conscientes.

Vemos que cada coisa acontece no seu tempo, até mesmo os problemas têm hora certa para serem resolvidos, e ficar repensando e remoendo não ajudará em nada. Quando focamos no presente, nada pode nos atingir.

Faça esse teste. Quando se pegar em pensamentos muito distantes, que não contribuem em nada para sua vida, ou, muito pelo contrário, estão te prejudicando, repare imediatamente no ambiente a sua volta. Se estiver na sala de sua casa, observe os móveis, detalhe-os mentalmente, suas cores, o cheiro do ambiente. Faça um café e tome-o lentamente, sentindo seu sabor. Sinta a chuva caindo na sua pele, gota a gota. Assista ao nascer do sol e sinta os primeiros raios solares em você. Escute sua música favorita, as batidas, o ritmo. Foque nesses gestos simples e veja sua vida se transformar. Torne isso um exercício.

O mesmo benefício acontece quando depositamos nossa atenção no outro. Num mundo tão digital, em que os encontros pessoais foram trocados por mensagens rápidas pelo celular ou computador, o simples fato de sentar e ser atenciosos com o outro nos faz melhor.

Faz com que nos identifiquemos com o outro, entendamos a sua dor e história. Aumenta a nossa capacidade de empatia (assunto para um próximo texto). Ao fazer essa troca de atenção, compartilhamos a ajuda, satisfação e amor que tanto queremos. E assim nos sentimos mais felizes, mais completos, mais humanos.

Viver o presente nada mais é do que receber isso mesmo que o universo nos proporciona diariamente: um presente. Aproveite-o.


Por Michele Matos

Show Full Content
Previous A obra de arte mais cara do mundo
Next Heróis invisíveis

Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close
Close