Os escândalos ainda não acabaram. De vez em quando, ainda é exposto um novo caso sobre assédio, abuso, estupro ou violência doméstica. Mas, o momento parece o propício para isso. Ainda que em vários lugares as denúncias não tenham tido o destaque que merecem (e muito menos a punição apropriada), pelo menos Hollywood parece ter sido sacudido de uma maneira irrevogável.

A 90ª cerimônia do Oscar, prêmio mais conhecido da 7ª arte, não deixou de lado todas as acusações que saíram a luz em 2017. O apresentador oficial, Jimmy Kimmel, fez um discurso sobre os escândalos sexuais e exaltou a luta das mulheres contra os crimes que parecem tão recorrentes nos armários sombrios e poucos visitados de Hollywood. Ainda assim, vimos Gary Oldman, que foi acusado de violência doméstica no início da década de 2000, ganhar o prêmio de Melhor Ator.

Outro momento, esse sim emocionante, da noite foi quando Frances McDormand fez um dos discursos mais interessantes da premiação. McDormand, que ganhou o Oscar de Melhor Atriz, pediu que todas que as mulheres que tivessem indicadas em alguma categoria se levantassem. Foi uma forma magnífica de reconhecê-las, mas, ao mesmo tempo, foi também triste ver quão poucas concorrentes haviam ali: nem 10% das pessoas se levantaram. Ela concluiu sua fala dizendo que todas as mulheres tinham uma história, que mereciam ter e ver seus projetos sendo montados e que deveriam ser mais incluídas.

Nenhum combinado foi feito em relação ao figurino da noite, como anteriormente no Globo de Ouro ou no Bafta, quando quase todas as mulheres vestiram preto nas premiações (salvo poucas exceções, como a Duquesa de Cambridge, Kate Middelton, que segundo o consenso real não pode se envolver em nenhum tipo de campanha, ainda assim, ela usou uma cor escura, fazendo muitos verem um apoio velado ali). No Globo de Ouro, várias atrizes foram acompanhadas de ativistas feministas e foi um momento glorioso dentro do evento. Como disse Tarana Burke, criadora do #MeToo, “É a colisão de dois mundos que normalmente não se encontram”, o do espetáculo e o do ativismo.

Mas, na verdade, o que significa todos esses movimentos? Alguns já existiam antes das denúncias, outros foram criados para encorajar e apoiar as vítimas. O #MeToo, por exemplo foi uma mobilização criada em 2007 por Burke, que tinha como objetivo emponderar por empatia e assim ajudar milhares de mulheres que sofressem abuso e assédio, mas não se sentiam amparadas. Com as atuais denuncias, ele ganhou força quando várias mulheres começaram a contar suas histórias de abuso e assédio nas redes sociais usando no final do depoimento a hashtag #MeToo. Várias artistas se juntaram a causa, que ganhou um destaque nunca antes visto.

Já o Time’s Up foi criado especialmente para ajudar as vítimas das histórias que foram aparecendo depois das denúncias contra Harvey Weinstein. Um grupo de atrizes e produtoras, encabeçadas por Emma Watson, Reese Whiterspoon, Nicole Kidman, Shonda Rimes, entre outras, se uniram e criaram um projeto que visa angariar fundos, apoiar e dar todo suporte necessário para as vítimas e todas as mulheres que precisarem, criando um fundo monetário para quem passou por isso, propondo leis que punem empresas que trabalham e protegem pessoas acusadas e assédio e abuso sexual ou estupro e estimular o aumento de mulheres em cargos de liderança.

O Fundo de Justiça e Igualdade foi criado no Reino Unido para servir como parceiro britânico do Time’s Up, sendo anunciado em carta aberta em um jornal londrino e com assinaturas importantes como de Kate Winslet e Keira Knightley. Várias pessoas já fizeram doações a esse fundo, como a atriz Emma Watson, que doou cerca de 1 milhão de libras. O objetivo, tal qual seu irmão americano, é apoiar as vítimas, até monetariamente, caso precisem.

Para quem decidir ver se em algum filme ou produção conta com algum assediador ou produtor em seu elenco ou equipe de gravação, foi criado o site therottenappl.es, que tem uma lista de pessoas que em algum momento foram acusadas de diversos crimes.

Na prática, essas são ações que ainda caminham a passos curtos. A bem verdade é que enquanto pessoas acusadas de crimes de cunho sexual ou violência doméstica forem lucrativas, elas estarão empregadas. Durante a transmissão do Oscar, Kimmel brincou que um dos poucos homens que estava honrando o gênero era a estatueta, uma vez que ela não tinha genitália e as mãos estavam visíveis.

Nós só saberemos a projeção que tudo tomou quando a poeira baixar e os próximos projetos saírem. Não é apenas sobre punir quem pratica crimes, é também sobre dar espaço para que todas as vítimas possam trabalhar ou continuar a trabalhar com segurança. E se a vida imita a arte, ver isso acontecer no mundo “real” também.


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Marya Cecília Ribeiro

Marya Cecília é goiana de nascimento, mora em São Paulo há seis anos e ainda assim não consegue lidar com o clima 4 estações em um dia que rola nessa cidade.
Tem umas manias esquisitas, tipo ver um filme que gosta várias vezes, mas esta tentando lidar com isso (ou não). Falando nisso, ela não faz questão nenhuma de ser normal, então podemos apenas seguir em frente!

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