7 de dezembro de 2019

Muitos já devem ter ouvido falar de transição epidemiológica e demográfica, mas imagino que poucos devam ter sido informados a respeito da transição nutricional. Assim como as outras transições, é um conceito em andamento, não totalmente estabelecido e se trata de uma mudança dos hábitos alimentares da população e do estilo de vida e consequentemente uma transformação do perfil de doenças que mais acometem a população. A transição nutricional, inclusive, possui uma ligação íntima com as outras transições. Não atinge somente o Brasil, mas boa parte das nações ocidentalizadas e possui suas especificidades regionais.

Na década de 60 e 70, ainda se encontravam um grande número de casos de desnutrição infantil, muitas vezes associados a injúrias transmitidas por vetores (insetos, artrópodes e similares), mais conhecidas como infectoparasitárias e eram fáceis de serem encontrados principalmente no Nordeste e Centro-Oeste do país. Atualmente, esse quadro já se reverteu e os males que elencam o rol de maior número são as doenças cardiovasculares, diabetes, síndrome metabólica, sobrepeso e obesidade. Para se ter uma ideia, aproximadamente 50% da população adulta brasileira está com excesso de peso. Esse panorama preocupante se dá em função do sedentarismo crescente – as pessoas deixaram de realizar atividades que exigem gasto de energia mais intenso e passaram a desempenhar trabalhos sentadas, em  frente a tela de computadores -, da falta de tempo para se cozinhar – embora a inserção da mulher no mercado de trabalho possa ser um fator que contribua para isso, é crucial salientar que os homens também devem assumir seu papel no preparo das refeições do lar-, o que faz com que as pessoas optem por refeições prontas e industrializadas, com alto teor de sódio, açúcar simples e gordura saturada, e também pelo aumento do consumo de refeições fora do âmbito doméstico, o que leva a um maior aquisição de salgadinhos e bebidas alcóolicas, dado esse atestado pela Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009, organizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Outro dia, estava lendo uma matéria de uma revista científica que abordava a mudança dos costumes na alimentação dos povos indígenas e ribeirinhos da Amazônia. O que se havia constatado é que eles estavam deixando de consumir peixe e farinha de mandioca, alimentos típicos e inseridos na cultura local para se alimentar, por exemplo, de peito de frango congelado, bastante influenciados pelo acesso à televisão – e pelos padrões de consumo por ela propagandeados- e aos programas de transferência de renda ( faço aqui uma lacuna explicativa para deixar claro que não sou veementemente contra iniciativas governamentais dessa natureza; na verdade, é comprovado que os programas de transferência de renda melhoraram o status nutricional das camadas populacionais mais necessitadas, possibilitando a elas o acesso a uma alimentação mais diversificada e abundante).

Existe também uma indústria alimentícia com um poderoso lobby e estratégias de marketing cientificamente bem embasadas, capazes de influenciar mentalmente as escolhas dos cidadãos comuns e desavisados.

Já existem algumas iniciativas que vão na contraonda dos venenos nas plantações e nas mesas, como o Movimento Slow Food, que reitera a necessidade de se encarar o preparo e o consumo dos alimentos como um ritual, devendo ser depositado nele maior tempo de nossas vidas ou até mesmo as redes de feiras e produtores orgânicos espalhados em pontos diversos pontos do país.

Na verdade, seria necessária uma busca pela conscientização nutricional de toda a população, transformando-os em indivíduos conscientes das próprias escolhas alimentares, algo que deveria partir de toda a conjuntura social, tanto do aparato governamental assim como da sociedade civil, principalmente quando se assume a ideia de que a transição nutricional é influenciada multifatorialmente e assim devem ser os esforços para combater a sua origem e as suas consequências.

Por Vitória Freitas

Show Full Content
Previous Crítica: O Sono da Morte
Next Telecine exibe sessão dupla de Star Trek

4 thoughts on “Transição nutricional: uma realidade brasileira

  1. É verdade. Acho que as pessoas prezam muito pela praticidade e pouco pela qualidade nutricional. As vezes a preguiça as leva a optar por lanches de fast food que são fáceis de pedir e sao preparados muito rápido. Numa sociedade onde o tempo é a maior moeda, “perder tempo” preparando uma comida saudável e rica em nutrientes, ou até mesmo optando por restaurantes saudáveis não é admissível. Isso resulta em pessoas com diversos problemas de saúde e sem qualidade de vida.

    1. Falou e disse, Eduardo. Acredito que seja melhor que façamos escolhas: o que é mais adequado? Passar duas horas no facebook ou passar uma e utilizar uma hora para preparar um jantar com alimentos minimamente processados? Muita coisa é questão de consciência pessoal e nutricional.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close

NEXT STORY

Close

Tudo o que você precisa saber sobre o casamento real

30 de abril de 2018
Close