9 de dezembro de 2019

Despedida da Espanha

O Trilhando de hoje encerra nossa viagem pela Espanha com uma convidada mais que especial. Jessica Siviero é estudante de Ciências Sociais da UFJF e esteve em Portugal fazendo intercâmbio comigo. Lá a amizade se intensificou e hoje não poderia pensar em alguém melhor para fechar nosso Trilhando-Espanha com chave de ouro, falando de uma cidade que tanto nos encantou: Barcelona!

Por Jessica Siviero

Música. Essa talvez seja a melhor palavra para descrever Barcelona. No trem, metrô, ônibus, a cada largo que se abre no Barri Gótic, nas praças… não é nem preciso procurar, sempre haverá música. Barcelona é um pouco isso: plural, viva, uma cidade para se sentir muito mais do que para se ver. Encantadora, inesgotável, nunca os dias serão suficientes para Barcelona, ela sempre guardará segredos, silêncios, cantinhos…

Não duvide, a capital da Catalunha saberá agradar a todos os gostos. Só uma fronteira política bastante arbitrária prende a Catalunha à Espanha. As comidas, as músicas, a língua, as bandeiras estarão a cada esquina te lembrando que não é a Espanha. E não é mesmo! Prove a paella catalã para ter certeza. Aliás, cuidado com os almoços, as refeições são servidas em 3 pratos literalmente: entrada, principal e sobremesa, que não são de forma alguma pequenas porções! As tapas valem a pena. A comida é sempre bem temperada, com alho, azeite e especiarias. Não precisa ter receio ou vergonha de abordar um/a catalã/o para pedir informações, eles/as irão retribuir com um sorriso e muita simpatia, mas é claro que gente mau humorada há em qualquer lugar! Aliás, lá se fala catalão, que é tão parecido com o português quanto o espanhol. No texto, reproduzo o nome dos locais em catalão, as semelhanças com o português são muitas mesmo!

O relato que colocarei aqui é de minha visita de 6 dias à Barcelona, em dezembro de 2014, ou seja, no inverno, mesmo assim os dias estavam muito azuis. Não aproveitei as praias… mas vimos as feiras natalinas com as peculiaridades catalãs: o cagatillo e o caganer! Na Catalunha, o Natal é comemorado de forma bastante peculiar, invés de aguardarem o Papai Noel, as crianças batem com bastões de madeira num tronquinho muito simpático, que dizem cagar presentes, o Cagatillo! Mais interessante ainda é o caganer: a tradição local recomenda que se cague durante o Natal, pois isso traz fertilidade. Daí que se podem encontrar bonequinhos de diferentes personalidades cagando: Messi, Neymar, Obama, até do Lula e da Dilma!

Foto: Presépio da feira da Catedral de Barcelona
Foto: Presépio da feira da Catedral de Barcelona
Foto: Caganer
Foto: Caganer

Barcelona é uma cidade com uma história incrível, ficando com o mínimo, foi o epicentro da Guerra Civil espanhola e a casa de Picasso, Miró, Gaudí. Para quem quer visitar essa Barcelona, aconselho a começar com a leitura de Homenagem à Catalunha, de George Orwell, que participou da Guerra Civil espanhola ao lado dos anarquistas. Claro, há uma praça George Orwell! Contudo, ninguém a conhece por esse nome, seu apelido é praça do ácido (isso mesmo!), fica perdida no meio do Barri Gótic entre a Carrer Avinyo e a Carrer Dels Escudellers.

Para esse turismo, recomendo o alternative free walking tour: sai todos os dias às 11h, 13h e 15h do Travel Bar (no inverno, às 17/18h já está escuro, recomendo que não se tome a opção de 15h). O bar fica na Carrer de la Boqueria com a Carrer de n’Rauric. Fiz esse e foi ótimo, mas queria ter feito outro, com um professor de História, Allen Warren, porém, ele não estava na cidade na época¹.

Foto: Grafite
Foto: Grafite

De qualquer forma, apenas caminhando pela rua já se percebem as marcas da historia remota (e recente). Na Plaça de Sant Felip Neri, é possível ver na fachada da igreja Sant Felip Neri as marcas dos fuzilamentos e bombardeios da Guerra Civil. A cidade também é cheia de grafites onde arte e política caminham juntas. Vale muitíssimo a pena acordar cedo e ir caminhar no Barri Gótic antes que as lojas abram e os grafites das portas fiquem escondidos.

Foto: Igreja de Sant Felip Neri
Foto: Igreja de Sant Felip Neri
Foto: Grafite
Foto: Grafite

Quando fui a Barcelona, não imaginava que esta cidade seria tão encantadora! O que não falta em Barcelona é ponto turístico. Em 1992, a cidade foi cede das Olimpíadas e viveu um processo brutal de ultra mercantilização do espaço. Agora explodem os locais “imperdíveis” a se visitar. São tantos, que se eu vivesse 1 mês lá ainda assim não seria suficiente. O que fiz foi escolher os pontos que me interessavam realmente e optar a caminhar pelas ruas, parar nos bares… Minha mãe gostou muito da cerveja, os vinhos eu não recomendo nenhum, a não ser que não seja espanhol! Mas é claro, tem sempre quem goste.

A “estratégia” que utilizei foi “dividir” a cidade por “áreas” e visita-las em dias diferentes. No primeiro dia, visitamos o complexo do Parc de la Ciutadella e a região de La Barceloneta. Como estava frio, apenas caminhamos pela região até chegarmos ao Mirador de Colom. A descrição é curta, mas não há palavras que bastem! A caminhada que começa no Arc de Triomf leva a jardins maravilhosos, inclusive a um zoológico. O parlamento também fica situado nesse parque.

Foto: Font de la Cascada
Foto: Font de la Cascada
Foto: Vista do Parc de la Ciutadella
Foto: Vista do Parc de la Ciutadella

O dia seguinte era o dia do espetáculo das fontes luminosas (ou mágicas). Sobre as fontes é bom ter atenção ao fato de que elas não acendem todos os dias, sendo que dias e horários variam de acordo com as estações do ano. O aconselhável é perguntar no hotel, hostel, estação de metrô e ônibus. O espetáculo, digno desse nome, dura pouco mais de uma hora e vale cada minuto, além das águas e luzes, haverá música e muitos pontos onde é possível comprar algo para beber, vale sentar nas escadas para assistir e se for uma pessoa feliz e bem acompanhada, dançar também! Como queríamos terminar o dia nas fontes, começamos indo à La Rambla, caminhando por ela, chega-se até a Plaça de Catalunya. O famoso Mercat Boqueria fica no meio do caminho entre o Mirador e a Plaça de Catalunya.

Nesse dia, caminhamos só um pouco pela Rambla e pegamos o ônibus que leva até o Funicular Montjüic, lá é o acesso para o Teleféric que leva ao Castell de Montjüic². O passeio de teleférico vale muitíssimo a pena na subida. Aconselho que a descida se torne uma caminhada pelos jardins maravilhosos que rodeiam a fortaleza com suas milhares de escadas e pequenos recantos. Neles se escondem a Fundació Joan Miró³, o Museu d’Arqueologia da Catalunya e, ao final, o Museu Nacional d’Arte da Catalunya(*4).

Um outro caminho leva até o complexo olímpico e seu respectivo museu, não tivemos interesse em conhecer. Bem próximo às fontes, fica também a Caixa Fórum, uma casa de cultura pouca conhecida mas que na época estava com a exposição Gênesis de Sebastião Salgado. A Plaça Espanya fica na avenida de fronte para as fontes. A noite, esse conjunto fica especialmente bonito porque é todo iluminado.

Foto: Vista do Teleférico
Foto: Vista do Teleférico
Foto: Vista exterior traseira do prédio do Museu Nacional d'Art da Catalunya
Foto: Vista exterior traseira do prédio do Museu Nacional d’Art da Catalunya
Foto: Vista superior da varanda do MNAC para as fontes mágicas
Foto: Vista superior da varanda do MNAC para as fontes mágicas
Foto: Vista inferior da faixada principal do MNAC
Foto: Vista inferior da faixada principal do MNAC

Nos outros 3 dias, ficamos apenas pelo Barri Gótic e arredores, onde fizemos o walking tour. Passeamos por inúmeras igrejas, pelo Palau de La Música Catalana, por pequenos museus e galerias de arte, pelo Museu Picasso. É uma região que parece pequena que reúne uma infinidade de historias e locais. Tenha tempo de sobra para andar por essas ruas, aproveitar os bares, galerias e músicas. Muitas historias se escondem por essas ruelas.

No último dia, fomos à Basílica de La Sagrada Família(*5) e caminhamos pelo Passeig de Grácia (A rua das grandes grifes). É nele que estão as famosas Casa de Gaudí: Casa Milá “La Pedrera” e Casa Batló, logo, não tem muito como fugir!

Acabamos não indo ao famoso estádio do Barcelona, mais por falta de interesse. Alguns pontos importantes ficaram de fora, todavia, não saí de Barcelona com a sensação de que faltou algo, pelo contrário. Caso se deixe encantar por seus ritmos, Barcelona ficará envolta num encanto permanente.

Relatei aqui algumas experiências que vivi nos 6 dias que passamos em Barcelona. Chegamos pelo aeroporto, que fica afastado do centro. Há muitas opções de transporte: táxi, aerobus, ônibus urbano, trem. Caso escolha pelo transporte público, e fizemos isso quando chegamos, o mais rápido é pegar um trem ainda dentro do aeroporto. Se não estiver perto do Passeig de Gracia e algumas poucas outras estações, precisará trocar do trem para o metrô em algum momento, aí o melhor é sempre dirigir-se ao balcão de informações para ter certeza de qual é a direção certa. Há muitas linhas de metrô, com a mesma cor inclusive, variando apenas a tonalidade. O trem foi uma opção muito rápida, gastamos cerca de 30 minutos.

Não conseguimos visitar o parque por conta do horário do voo, foi muito decepcionante. Moral da historia: não deixe para ir na Basílica no último dia! Não desanime com as filas!

Para quem estiver em dúvida em relação ao trajeto de viagem, eu voei do Porto para Barcelona num desses voos low cost da Ryanair, que em promoção podem custar até 9,90 euros – o preço mais “comum” é 14,90 euros. Voltamos de Barcelona para o Porto, mas é possível encontrar voos tão baratos quanto para Irlanda (Dublin), como também existem ônibus de 1 euro para Paris, comprados nas promoções do Megabus. Para quem tem tempo, vale muitíssimo conhecer a região da Catalunha mais a fundo, indo para o seu interior e demais cidades costeiras, especialmente no verão. O trem para Madri não é caro, cerca de 30 euros pelo que me lembro (o expresso é caro).

Atenção às opções de ticket e bilhetes para transporte público. Em Barcelona, existe um bilhete T-10. Ele conta créditos de viagem, é a forma mais barata e eficiente para quem pretende usar pouco o transporte e andar mais a pé. Custa 10 euros e contém 10 créditos de viagem.

Na volta para o aeroporto, tomamos um táxi, sem trânsito, gasta-se em média 25 a 30 minutos (saímos de perto do Arc de Triomf, não me recordo o valor). Essas dicas mais práticas, eu tirei desse site:http://www.passaportebcn.com/ Ele é mais completo e mais explicativo, vale a pena conferir também, inclusive está em português.

Para hospedagem, há muitos hostels em Barcelona, aconselho procurar um local no Barri Gótic ou próximo dele. Nessa região há muitos bares e boates noturnos, e a noite em Barcelona é fantástica! Para quem viaja sozinho/a, os hostels costumam organizar jantares e festas, que agregam todo mundo! Há uma cadeia de hostels, o Generator, que tem uma estrutura muito semelhante a de hotéis, com banheiros dentro dos quartos e opções de quarto para 4 pessoas, por exemplo. Eu prefiro hostels que tenham mais a aparência de casas, acredito que são mais acolhedores. A vantagem do Generator é que a cada dia há uma festa temática diferente, que são muito divertidas, contam inclusive com professores de dança. Utilizo o Booking para encontrar e reservar hostels, esse site não cobra taxas de reserva e você pode cancelar até 24h antes sem custos, sendo possível pagar diretamente no balcão em dinheiro (nunca tive problemas com as minhas reservas e desconheço casos do tipo).

Espero que tenham gostado de Barcelona tanto quanto eu. Foi um prazer falar sobre essa cidade incrível aqui no Trilhando.

(*1: Esse walking tour com o Allen Warren custa 20 euros, dura em torno de 4h. É possível contato através deste site:https://pdlhistoria.wordpress.com/
2: Antiga fortaleza com vista panorâmica sobre o porto e a cidade de Barcelona, a entrada na fortaleza custa 5 euros.
3: No inverno, funciona com horários especiais. Eu não consegui conhecer porque não sabia disso.
4: No inverno, a última entrada é cedo, às 15h pelo que me lembro. Há dias em que não tem visitação e em que a gratuidade é estendida a todos. Para estudantes, os museus são de graça, foi assim com o Museu Picasso e a Caixa Fórum.
5: A entrada na Basílica custou 12,80 para estudante, para não estudantes é 14,80. Não é caro, porque a entrada na Basílica também dá direito à entrada no Park Güell, contudo, com horários programados.)

Por Letícia Vilela

Show Full Content
Previous Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil
Next O cinema francês de braços abertos

Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close

NEXT STORY

Close

Crítica: Slender Man – Pesadelo Sem Rosto

24 de agosto de 2018
Close