A “Arte Funerária” aos olhos de Ivone Damaris

Nossa coluna essa semana vem uma fotografa experiente, não só em fotografia, e com um projeto bem peculiar sobre uma arte que muitos podem ter pavor. Mas se acalme, é com muito carinho e respeito que ela fotografa famosos, e não famosos, cemitérios e túmulos pelo Brasil e pelo mundo.

Ivone Damaris realizou seu primeiro curso de fotografia na década de 90, mas até alguns anos atrás ela se formou em outras coisas como Letras, Sexualidade Humana, Processos Gerenciais e outros, para só em 2012 regressar ao estudo da arte pela qual é apaixonada.

Essa profissional multidisciplinar, residente em Itatiba – SP, hoje possui prêmios nacionais e internacionais de literatura, já ministrou várias oficinas de poesia, é professora voluntária de Redação e Poesia, realiza oficinas e palestras por cidades onde visita através do projeto “Fotografias sem fronteiras” (No qual oferece um workshop de fotografia gratuita em prol de entidades beneficentes). É uma das fundadoras da AEPETI (Associação dos Escritores, Poetas, Pintores e Trovadores de Itatiba), idealizadora de vários projetos culturais em sua cidade, incluindo o FOTROCA, e professora voluntária num grupo de fotógrafos iniciantes e amadores com cerca de cinco mil membros. Achou pouco? Ela ainda escreve em 5 idiomas (português, espanhol, italiano, francês e inglês), já ganhou 14 prêmios em concursos de fotografia e já tem convites agendados para 2016 em Salvador, Curitiba, Itália e Vietnã.

Modelo Joyce Carvalho

Carmem San Diego – Modelo Joyce Carvalho

Depois numerar tantas atividades realizadas por Ivone, vamos falar sobre as fotos que estão expostas em nossa galeria. Ela é criadora do ensaio fotográfico “Arte Cemiterial” ou “Arte Funerária”, onde há 5 anos fotografa cemitérios. O título do ensaio é um termo usado para designar obras feitas em cemitérios e igrejas.

O zelador de Ofertas

Segundo Ivone, ela poderia visitar um lugar um pouco mais atrativo, mas prefere visitar aquele lugar que nos mostra uma relação passional entre a vida e a morte. Hoje, essa arte pouco utilizada serve de estudo para compreender a forma de representação ligada a cosmovisão de um determinado contexto histórico, ideológico, social e econômico, podendo assim interpretar a dualidade entre a vida e a morte.

Muito interessante, não acham?! Com uma visão tão poética e peculiar, nós batemos um papo com ela para saber mais sobre sua vida profissional e sobre esse projeto incrível. Confira nossa entrevista abaixo:

ZOOM it – Como você descobriu a paixão pela fotografia?

Eu tenho uma memória visual, desde pequena gostava de imagens. Eu costumava me esconder embaixo das camas para ver aquelas fotos vernácular, “fotografias de monóculos”. Lembro que minha irmã mais velha, que vive em São Paulo, no natal ela ia nos visitar na fazenda em Piracicaba e ela tinha uma câmera, claro que não me deixavam mexer porque eu era pequena. Criança ainda, eu gostava de desenhar e comecei a estudar arte por conta disso, foi assim por um tempo, depois me apaixonei pela literatura. Quando fiz 18 anos comprei uma câmera analógica e ensaiei algumas fotos. Época que comecei a escrever a sério. A fotografia acabou ficando de lado até que em 2010, quando por um golpe do destino, precisei “ser fotógrafa”. Comprei uma Nikon D5100 e fiz um ensaio experimental de moda. Ganhei meu primeiro prêmio da revista Capricho. Foi a modelo que enviou a foto para o concurso.

ZOOM it – Você é formada em Letras. De que forma sua formação influencia seu trabalho ao capturar uma imagem?

Eu sou uma escritora e uma fotógrafa clássica, meus mestres de literatura foram escritores e poetas clássicos. Eu escrevo usando muita figura de linguagem, figuras de pensamentos, então a “imagem” sempre esteve presente na minha formação. Como fotógrafa eu trago esta bagagem literária tentando unir uma imagem em mil palavras e vice versa. Sempre penso que não estou fotografando, mas sim fazendo um poema.

ZOOM it – Você considera que existe alguma diferença entre os fotógrafos brasileiros e estrangeiros?

Sim, eu acompanho a fotografia mundial, existe uma diferença sutil. Quando fotografamos trazemos nossa bagagem cultural, a fotografia é um resumo dos livros que lemos, das experiências que tivemos, dos lugares que conhecemos e visitamos. O olhar para o mundo é diferente de um local para outro. Eu amo a fotografia oriental, principalmente, a asiática, ela é limpa, sintetizada, padronizada, em alguns casos minimalistas, para nós brasileiros cuja herança cultural é muito miscigenada é um desafio e tanto sintetizar, não que devêssemos. Mas eu gosto de estudar e fotografar em diferentes estilos, em experimentar visões novas, treinar meu olhar e minhas emoções diante de uma cena ou de um objeto a ser fotografado. Acho que na literatura como na fotografia você não tem de ser A ou B, nesse caso, sou fã de Leonardo da Vinci.

ZOOM it – Depois de ganhar 14 prêmios de fotografia, entre nacionais e internacionais, existe algum deles que tenha te marcado? Por que?

O primeiro, porque eu não entendia nada sobre fotografia, não tinha curso e nem conhecimento técnico, mas eu tinha paixão. Foi um golpe de sorte ou talento genuíno. rssssss

ZOOM it – Você é professora em um grupo de fotógrafos iniciantes e amadores. Na sua opinião, qual é o erro mais comum de quem está começando a fotografar?

Fora achar que vão ficar ricos com a fotografia, rsssss?! Tem também a questão de acharem que fotografia não precisa estudar muito que é só sair clicando, claro que não são todos. De problemas técnico mensuro que querem centralizar tudo, seguido por excesso de informação e poluição visual; em geral eles querem colocar o “mundo” inteiro dentro de uma foto, e por último a linha do horizonte torta é um erro muito comum, ressaltando que, em certos casos, ela é muito bem vinda

ZOOM it – Você vem fotografando cemitérios há 5 anos, como surgiu essa ideia?

Quando comprei minha câmera em 2010! Comecei fotografando moda, isso era pouco e decidi que queria construir uma identidade como fotógrafa. Fiz uma analise profunda do que eu poderia fotografar pelo resto da vida sem me desapaixonar, e que de alguma forma eu pudesse contribuir para a memória cultural da sociedade. Porque sempre tive bem claro que queria fazer foto-arte. O que sobrou foram os cemitérios. Eu tenho paixão por arte cemiterial; os cemitérios me dão segurança, me deixam feliz, me dão o equilíbrio para enfrentar os desafios do dia a dia.

ZOOM it – Com túmulos de várias personalidades fotografados, existe algum que te emocionou, que te tocou, de alguma maneira quando realizou a foto?

Sim, são muitos túmulos de famosos, mas um deles me trás uma memória triste, um pedaço da minha infância, um pedaço roubado e quebrado, de quando eu tinha 11 anos de idade e comecei a escrever meus primeiros versos, minha mãe descobriu e queimou meu caderno de poesia. Alfred de Musset está no cemitério de Per Lachaise em Paris. Olhar para o túmulo dele e dizer: “Eu consegui chegar até aqui, eu não desisti”, foi emocionante porque eu tive que lutar contra a ignorância das pessoas e continuo lutando. Fotografar cemitério não é um ato profano de minha parte, pelo contrário, é um ato de muito amor e respeito pela memória daqueles que já não estão mais entre nós e pela herança cultural de uma sociedade.

ZOOM it – Que tipos de comentário costuma receber quando conta sobre e/ou mostra seu ensaio da “Arte Cemiterial”?

No Brasil é imediato o que sempre ouço – Você é louca! Rsss. Depois que vêem as fotos, dizem: “Nossa elas são lindas, mas eu tenho medo, não sei como você tem coragem.” Fora do Brasil o pessoal acha muito legal, sempre me indicam um novo cemitério que tem obras lindas. É engraçada a cara que as pessoas fazem quando chego numa nova cidade e vou ao setor de informações turísticas e pergunto onde fica e como faço para chegar e determinado cemitério.

ZOOM it – Com fotografa, existe alguma coisa que se arrependa, que faria diferente?

Acredito que tudo é um aprendizado, não vivo de arrependimentos. Eu ainda estou aprendendo fotografia e a fotografar e tenho muito que aprender, pois tenho como meta expor na New York Gallery, então sei que não me basta ser uma boa fotógrafa e tenho que ser excepcional, e para estar neste patamar, tenho que ser uma eterna aprendiz e uma das maneiras mais fácil de aprender é ensinando; por isso me dedico aos meus projetos sociais como professora voluntária de fotografia.

ZOOM it – O que a fotografa de hoje diria para você quando começou?

Que o segredo de um trabalho bem feito é paixão, mesmo que você não tenha técnica tendo paixão você já está no começo do caminho certo. Se você quer fazer arte fotográfica, não comece por dinheiro, e sim porque quer fazer algo que perdure. Ao contrário de Henri Cartier-Bresson, eu amo minhas 10 mil primeiras fotos, claro com o tempo e conhecimento me ajudaram e me ajudam a fazer fotos com qualidades melhores, hoje tenho controle sobre o equipamento e não ele sobre mim. Mas o melhor equipamento ainda é o olho humano, se você não souber ver nunca sairá do lugar comum. Eu tenho dentro de mim esta motivação de sempre querer fazer melhor e melhor, de ousar sempre mais.

Se quiser conhecer um pouco mais do trabalho de Ivone Damari, clique na foto abaixo para conferir a sua galeria na Zoom it.

Anjo de Luto - Foto Ivone Damaris

Anjo de Luto – Foto Ivone Damaris

Paulo Olivera é mineiro, Gypsy Lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, Bombril na vida profissional e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.