Voar, voar, subir, subir

Quem já passou por uma grande perda sabe bem: é preciso encontrar um objetivo para não sucumbir. Às vezes, a obstinação parece até mesmo passar dos limites, mas é apenas uma forma de seguir em frente.

Carl Frederikson foi feliz ao lado de sua querida Ellie por muitos anos. Mas um dia ela se foi, sem ter realizado o desejo de visitar um exótico lugar chamado Paraíso das Cachoeiras, na (para eles) remota América do Sul. Sobraram o lar vazio, a dor e as recordações. Para completar, em uma situação que nos faz lembrar Sônia Braga em Aquarius, uma construtora quer comprar a casa de Frederikson. Ela é a única ainda de pé no meio de uma grande obra. Ele resiste. Tanto que a faz subir pelos ares e deslizar rumo ao Paraíso das Cachoeiras, levada por inúmeros balões coloridos. Uma imagem marcante do filme, que sempre nos conquista ao se repetir.

Somos conquistados também pelo começo do longa, que nos apresenta Carl, ainda menino, vendo um filme em preto e branco sobre o explorador Charles Munt para depois conhecer a intrépida Ellie, garota cheia de atitude. Numa bela sequência que dispensa palavras, é mostrada toda a vida do casal desde o momento em que Ellie entra para valer na vida de Frederikson até a triste viuvez deste. Criamos simpatia pelo velhinho, por mais rabugento que ele possa parecer. E ele também vai acabar, apesar da forte resistência inicial, criando laços com o incansável e falastrão escoteiro Russell, que na ânsia de conseguir ser promovido a “grande explorador” quer a todo custo ajudar o idoso a atravessar algum lugar – qualquer lugar. Seu discurso de apresentação lembra muito o de um operador de telemarketing. Interrompa-o, se for capaz.


A trilha sonora exerce muito bem seu papel em toda a história, tanto nos momentos mais poéticos quanto nos de mais ação. Na jornada que empreendem, Carl e Russell encontram novos amigos – como o afetuoso cachorro Dug e o exótico pássaro Kevin – mas também inimigos: os cães falantes e ferozes que estão a serviço de Charles Munt, o tal explorador admirado por Carl na infância e que está exatamente na América do Sul, em busca de um espécime como Kevin. Estranho mesmo é que Frederikson, em sua idade avançada, parece bem mais velho que seu ídolo da infância. Nem a mesma idade eles poderiam ter. Será que a América do Sul esconde o elixir da quase juventude?

Visualmente, “Up” é repleto de cores vivas, com poucos momentos mais sombrios – a vinda de uma tempestade, por exemplo. A recente viuvez também é mostrada em tons mais apagados. A natureza é retratada de forma exuberante. O contraste entre os integrantes da dupla de aventureiros é também físico, não apenas etário: Carl tem cabeça e corpo quadrados, enquanto Russell tem formas arredondadas. As expressões faciais de todos os personagens são muito bem trabalhadas e a personalidade de Dug (por que será que ele decide mudar de “mestre” tão rapidamente? Seria um cão volúvel?) e Kevin são bastante curiosas. Houve também um cuidado minucioso na decoração da casa – aparentemente simples em seu exterior – com muitas lembranças da vida do casal, além das poltronas de Carl e Ellie – especialmente a dela, uma imagem forte.

Escrito e dirigido por Bob Petersen e Pete Docter, “Up” certamente encanta e entretém o público infantil pelo colorido e pelo desenrolar das aventuras, mas conquista também os adultos. A atitude obsessiva de carregar a casa consigo e a libertação do que pode permanecer apenas como felizes lembranças podem nos fazer refletir a respeito de muita coisa que enfrentamos em nossas vidas.

Crítica: Up! Altas aventuras
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