Thriller nacional, “A Conspiração Condor” confirma em sua narrativa que o flagelo da ditadura ainda tem ecos no país
Quantos filmes brasileiros sobre o período da ditadura ainda serão realizados? Quantas histórias há para se contar sobre um dos períodos mais sombrios, covardes, mal explicados e mal resolvidos do país?
Não há como saber, mas a cada nova produção, principalmente as recentes que têm impulsionado esse debate, doa a quem doer, levanta-se questões e indignações, como os premiadíssimos “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” — este que não trata especificamente do período, mas expõe em seu enredo a cultura da impunidade —, tenta-se lançar alguma luz sobre essas trevas.
Também cabe outra reflexão: quantos filmes já foram realizados e ainda serão sobre a Segunda Guerra Mundial?
Essa comparação ajuda a dimensionar a importância de obras como “A Conspiração Condor”, que surge em um momento em que, para muitos, parece mais conveniente varrer a sujeira para debaixo do tapete do que encarar o problema de frente.
LEIA MAIS
Fernanda Montenegro Reflete Sobre a Vida: “Eu só tenho o presente”
Alpha | O Cinema da Carne e do Sangue
Filmes e Séries de Terror | Principais Estreias de Abril no Cinema e Streaming
Mesmo após a redemocratização do país nos anos 80, ainda há aqueles que veem a ditadura como um período ideal, ignorando que liberdades foram cerceadas e que pessoas desapareceram sem deixar rastros.
Em contraponto a essa visão, os índices econômicos e de saúde eram precários, enquanto a arrogância social, a ignorância e a impunidade se consolidavam de forma estrutural, com reflexos perceptíveis até hoje.
Ao olhar para produções internacionais sobre a Segunda Guerra Mundial, fica evidente como o cinema cumpre um papel fundamental de registro histórico e construção de memória.
Da mesma forma, filmes sobre as ditaduras na América Latina, em países como Chile, Argentina, Brasil, Honduras e El Salvador, compartilham um ponto em comum: a complacência de muitos diante da resistência de poucos.

É nesse contexto que o diretor e roteirista André Sturm apresenta Suzana, uma jornalista de variedades interpretada por Mel Lisboa (expressiva e muito eficiente), que após um incidente envolvendo um jantar de figuras políticas, é deslocada da redação em São Paulo para Brasília.
Ao lado da experiente e pouco simpática colega Marcela, vivida por Maria Manoella, ela cruza o caminho de um misterioso correspondente internacional interpretado por Dan Stulbach.
Durante um período de cem dias, mortes de figuras políticas importantes, como os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart, começam a levantar suspeitas e a protagonista, movida por inquietação e senso de justiça, passa a investigar conexões que a conduzem à chamada Operação Condor, revelando possíveis articulações internacionais e interferências externas na política latino-americana, especialmente por parte dos Estados Unidos.
A fotografia do filme merece destaque ao mesclar imagens de arquivo com uma estética que remete aos anos 70, contribuindo para a ambientação. A narrativa se desenvolve de forma clara, embora por vezes simplifique excessivamente temas complexos.
O recurso do “um contra todos” funciona bem em termos dramáticos, mas a construção da protagonista carece de evolução, mantendo uma ingenuidade pouco condizente com a gravidade dos acontecimentos que a cercam.
Ainda que a suspensão de descrença seja um elemento comum no cinema, especialmente em obras não estritamente históricas, espera-se maior senso de perigo e instinto de sobrevivência da personagem, considerando o contexto de perseguição, traição e violência.
Em narrativas desse tipo, é quase inevitável a presença de figuras ambíguas e traiçoeiras, geralmente próximas ao protagonista, o que acaba se confirmando de forma eficiente no desfecho, é só lembrar de filmes sobre Jesus, Tiradentes e William Wallace (do filme “Coração Valente”).
O elenco de apoio traz contribuições interessantes, como Pedro Bial no papel de Carlos Lacerda, e do ator Nilton Bicudo como um censor que surpreende ao demonstrar humanidade e afeto real em sua relação com a protagonista. Esses elementos adicionam nuances à trama, ainda que o roteiro, em certos momentos, soe como uma compilação de informações com ritmo irregular.
Entre acertos e pequenas falhas na condução, o filme levanta um tema relevante e necessário, funcionando como alerta para que períodos como esse não sejam romantizados ou esquecidos.
Inclusive, há uma cena que parece deslocada do filme que remete a outro filme de conspiração, mas que se torna emblemática, simbolizando de forma eficiente um estudo científico a propensão da pessoas obedecerem a indivíduos que projetam autoridade, mesmo que esses comandos sejam absurdos e coloquem em risco a vida de outra pessoa.
Um bom exemplo das intenções dos realizadores e em pequeno detalhe
O cinema, ao transformar história em imagem e som, oferece não apenas entretenimento, mas também a oportunidade de reflexão sobre erros passados e escolhas futuras.
A Conspiração Condor estreia em 9 de abril nos cinemas e se insere em um debate que está longe de se esgotar, reafirmando o papel da arte como instrumento de memória, questionamento e consciência coletiva.
Imagem Destacada: Divulgação/Pandora Filmes

Quer estar por dentro do que acontece no mundo do entretenimento? Então, faça parte do nosso CANAL OFICIAL DO WHATSAPP e receba novidades todos os dias.

Sem comentários! Seja o primeiro.