Em Alpha, cineasta francesa mergulha na dor, no vício e na esperança de uma nova humanidade
Em 2021, Julia Ducournau deixou os cinéfilos atônitos, alguns em êxtase, outros em repulsa, com o seu perturbador terror corporal “Titane”, obra que lhe rendeu a Palma de Ouro em Cannes naquele ano. Agora, retorna igualmente inquietante com “Alpha”, posicionando-se entre os raros cineastas capazes de desconcertar o público, arrancando-o da zona de conforto em que o cinema hollywoodiano há muito o habituou a permanecer.
Ducournau constrói sua trama sem a menor intenção de oferecer respostas fáceis ou conduzir o espectador por uma trajetória linear de início, meio e fim. Passado e presente se entrelaçam sem o auxílio de recursos convencionais que demarquem as transições temporais. Suas imagens são simultaneamente líricas e brutais. O corpo humano é exposto, dilacerado e profanado diante de suas lentes. O sangue permeia quase toda a obra, ora em sequências de violência visceral, ora em momentos de desespero. Tudo é lançado ao olhar da plateia de maneira aparentemente caótica, mas seria um equívoco supor que é sem propósito. Muito é comunicado em seu texto, começando pelo título do filme, que é o nome da sua protagonista.

Alpha (Mélissa Boros) é uma jovem que trava uma batalha incessante contra um mundo doente, agora assolado por um vírus enigmático que transforma o corpo humano em algo semelhante a escamas reptilianas, enquanto o sangue se converte em areia escura. Sua mãe, a sempre maravilhosa Golshifteh Farahani, é uma médica que suspeita que a filha tenha sido contaminada após receber uma tatuagem improvisada em uma festa. Contudo, embora Alpha sangre incessantemente e seja alvo de rejeição por parte de seus colegas, não demonstra sinais de adoecimento. Estaria ela entre uma linhagem de indivíduos imunes ao vírus? Seu próprio nome sugere que seja a primeira, talvez representante de uma humanidade biologicamente mais avançada.
Entretanto, como já mencionado, Alpha não é bem aceita em sua escola, e Ducournau transforma as aulas e até mesmo a educação física em instantes de terror e tensão. Uma cena específica evoca o clássico “Tubarão” de Spielberg: a água da piscina tingida de vermelho, enquanto todos nadam freneticamente em direção às bordas, desesperados para escapar do epicentro de uma infecção letal. A vida da protagonista degrada-se ainda mais com a chegada de seu tio, um dependente de drogas pesadas interpretado por um Tahar Rahim irreconhecível. O ator entrega um personagem em estado terminal de vício, com corpo cadavérico e andar trôpego, que mais se assemelha a um espectro implorando pelo fim de seu tormento. Em diversas ocasiões, ele tenta provocar a própria overdose, mas é constantemente salvo pela irmã médica.
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Esse trio — a adolescente Alpha, a mãe médica e o tio viciado — em meio a uma realidade devastada por uma pandemia, remete de forma clara às cicatrizes deixadas pelo Covid-19, assim como ao auge da crise do HIV nos anos 1990. Enquanto a médica se empenha em salvar o maior número de vidas possível, o dependente se entrega a um destino que considera inevitável. Já Alpha desponta como a possível portadora de um novo caminho para uma sociedade ainda envolta pela sombra da morte.
Ducournau, portanto, instiga uma reflexão sobre a atual realidade enferma, sugerindo que talvez a transformação só ocorra quando os que hoje habitam este mundo desapareçam como areia ao vento, cedendo espaço aos primeiros que terão a capacidade de regenerar a terra.

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