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CríticaFilmes

Crítica: A Gente

Rita Constantino
11 de setembro de 2017 3 Mins Read

A Gente posterEm um dos episódios de conflito em “A Gente”, o inspetor penitenciário faz um comentário revelador ao discutir com um dos presos. “Essas coisas são necessárias, se não você daqui a pouco está de colete e eu andando com a mão para trás”, observa o homem.

Estar encarcerado sem ser preso. Esse é um sentimento constante no último documentário Aly Muritiba, que, colocando a lente de aumento sobre o cotidiano de uma penitenciária no interior do Paraná, consegue dizer muito sobre o sistema penal do próprio Brasil. O momento não poderia ser mais oportuno: com mais de 100 mortos, 2017 começou com uma violenta crise prisional, sintoma de uma estrutura carcerária precária, superlotada e ineficiente.

Explorando um tema com que tem intimidade, o cineasta, que trabalhou por sete anos na Casa de Custódia de São José dos Pinhais, acompanha Jefferson Walkiu, inspetor-chefe dessa mesma instituição, que se divide entre o trabalho na prisão e a pregação em uma igreja batista nas horas vagas.  Em seu dia a dia, testemunhamos a dificuldades de ser agente penitenciário no país e todos os obstáculos que precisam ser superados; problemas que vão de falta de chaves para as algemas ao fato de existir apenas uma enfermeira para atender mais de 900 detentos. “Aqui é assim meu jovem, só Jesus na causa”, em um instante ele ressalta. Observação corriqueira, mas que está longe de representar um contexto isolado.A Gente 1

Para tornar pública essa realidade, Muritiba é certeiro na abordagem. Bebendo na água do Cinema Direto, escola que modificou as formas de fazer documentário nos anos 50, ele opta por observar os acontecimentos à distância, com o mínimo de interferência o possível, dando ao espectador a oportunidade de mergulhar na rotina, pouco conhecida, desses profissionais.     

Como uma mosca, ora observando pousada na parede, ora de seu sobrevoo, a câmera oscila entre a inquietude e a estaticidade: inquieta quando se propõe a seguir os passos dos agentes, colocando-se no centro da tensão, e estática quando se permite parar por um tempo e deixar que eventos imprevistos sejam capturados por suas lentes, como o ir e vir de apenados e carcereiros.

Assim, no calor da vida real proporcionado pela estética do diretor, passamos por um processo de familiarização. Acompanhamos de perto as reuniões dos agentes e diante da burocracia do dia a dia, aprendemos suas alternativas para driblar a precariedade, o abandono do estado. Situações para eles, banais, como discutir o que será feito com a quantidade limitada de café ou o procedimento de revista íntima, têm impacto no espectador.

E são as minúcias da realidade, difíceis de emular na ficção, que trazem força ao projeto. Cumprindo a missão de humanizar esses homens – vide o trocadilho no título -, entre episódios preocupantes, como a conversa entre a psicóloga e um jovem que cometeu latrocínio, há momentos curiosos, típicos do cotidiano, como quando uma singela comemoração de aniversário de um colega de trabalho é interrompida por um chamado de urgência. Interessante também é a intimidade que eles desenvolvem com alguns dos detentos, porém sempre com o lugar de punidor e punido bem estabelecidos. “Arrependimento sem mudanças não vale nada”, frisa um dos agentes a um dos presos.

Concentrar a narrativa na figura de Jefferson, também é um dos acertos de Muritiba. Se a Casa de Custódia de São José dos Pinhais no interior do Paraná tem a capacidade de refletir os fenômenos do sistema penitenciário nacional, o inspetor, por sua vez, dá um rosto aos dramas vividos por outros trabalhadores. Figura de autoridade na prisão e na igreja, ele surpreende pela dedicação a seu ofício, mas é perceptível o seu desgaste. Com dificuldade de desempenhar o seu papel com tamanha falta de estrutura e descaso do poder público, sua decisão final é mais do que justificável.

Em um país que a proporção é de oito presos para cada agente penitenciário – quando o recomendado é cinco para um – “A Gente” é um filme necessário. Sólido tanto em ideia quanto em execução, o projeto merece atenção. Cinema também é política e se chegasse a todos, com certeza teríamos uma população preocupada em cobrar políticas públicas eficientes. Uma pena não ser assim.

 

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Tags:

DocumentárioFestival do RioFestival do Rio 2017

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Rita Constantino

1995. Cobra criada em Volta Redonda. Um dia acordou e queria ser jornalista, não sabia onde estava se metendo. Hoje em dia quer falar sobre os filmes que vê e, se ficar sabendo, ajudar o Truffaut a descobrir com que sonham os críticos.

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