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CríticaFilmes

Crítica: Como Nossos Pais

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Rita Constantino
28 de agosto de 2017 3 Mins Read

Como Nossos Pais PosterO almoço em família que abre “Como Nossos Pais” é universal: difícil alguém nunca ter visto a macarronada de domingo se transformar em lavação de roupa suja pelo menos uma vez na vida. Olhando por essa ótica, não teria, então, começo mais apropriado para o novo filme de Laís Bodanzky, cuja naturalidade com que retrata os conflitos de seus personagens comuns, é impossível não ver nosso reflexo.

Retomando a parceria com o marido, Luiz Bolognesi, a diretora de “Bicho de Sete Cabeças” (2000) e “As Melhores Coisas do Mundo” (2010) agora nos apresenta a Rosa (Maria Ribeiro), uma mulher sobrecarregada, que tenta se desdobrar para administrar a vida doméstica, educar as filhas pequenas e sustentar a casa com um emprego que detesta já que seu marido Dado (Paulo Vilhena), além de não participar das tarefas anteriores, dedica-se exclusivamente a seu sonho de ser ativista ambiental. Se as coisas já não parecem boas, tudo piora quando sua mãe (Clarisse Abujamra), com quem não tem a melhor relação do mundo, revela um segredo sobre seu passado que coloca toda sua a vida em perspectiva.

No banheiro, o casal principal discute. No segundo em que parece que a briga está encerrada, o marido já lançou que está cansado para tentar por um ponto final no assunto, Rosa comenta: “Também. Estou exausta tem uns 15 anos”. São através desses momentos aparentemente despretensiosos, mas capazes de dizer muito, que a cineasta constrói uma narrativa que cativa pela honestidade. Com Bodanzky assinando pela primeira vez o roteiro ao lado do parceiro, a dupla não só se sai bem em explorar temas necessários, como o lugar da mulher na sociedade, mas faz isso através de personagens críveis, que surpreendem pelas facetas que têm a oferecer.  Como Nossos Pais 4

Virtude que ganha força com a qualidade do elenco principal. Em uma das melhores performances do ano, Maria Ribeiro faz sua Rosa parecer tão real em um trabalho de interpretação tão natural, que parece ter sido executado sem nenhum esforço – o que sabemos não ser verdade. Segura também, está Clarisse Abujamra que injeta vulnerabilidade em uma personagem que se esconde através da dureza. Já Paulo Vilhena acerta ao compor Dado com doçura e uma ingenuidade míope, uma vez que seria um caminho fácil, com seus defeitos, transformá-lo em vilão.

Também privilegia a naturalidade a estética da diretora, que, com seus planos estáticos e iluminados pela luz do sol – trabalho de Pedro J. Marquéz -, consegue dizer muito sobre a dinâmica entre os personagens. A parede que divide o quarto do casal do de suas filhas ganha outro significado quando enquadrado de modo transversal, permitindo que o espectador veja o que acontece ao mesmo tempo nos dois aposentos – no caso o ambientalista dormir por horas, enquanto cabe à esposa acordar cedo para cuidar das filhas. Insistir em observar o cigarro no cinzeiro também tem um novo sentido quando o objeto foi abandonado após uma discussão na qual, assim como a fumaça, tantas questões ficaram em suspenso.

Porém, mesmo que faça escolhas interessantes, a produção não consegue ser completamente sólida. Com pequenos deslizes, a narrativa se empobrece com diálogos que ficam melhor no papel, como quando a protagonista troca “fantoches do meu pai” por “fantasmas do meu pai”, e sofre com o ritmo em seu ato final; Rosa está perdida, mas chega ao ponto em que a trama não parece evoluir, fazendo com que ela se assemelhe a uma mariposa voando sempre entorno da lâmpada.

Reencontrando-se nos momentos finais, “Como Nossos Pais” é delicado como a canção de Elis Regina. Assim como a música, talvez sua conclusão seja que vivemos, apesar das nossas contestações, como aqueles que nos puseram no mundo, mas com um porém: não precisamos ser sempre os mesmos.

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festival de berlimMaria RibeiroNacionalPaulo Vilhena

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Rita Constantino

1995. Cobra criada em Volta Redonda. Um dia acordou e queria ser jornalista, não sabia onde estava se metendo. Hoje em dia quer falar sobre os filmes que vê e, se ficar sabendo, ajudar o Truffaut a descobrir com que sonham os críticos.

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